>> Sala de Espera 58 – “Para que o google não vire um gulag”, por Mario S. Mieli

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Para que o google não vire um gulag

Por: Mario S. Mieli

Do ser mítico e artificial vislumbrado pela magia da fabricação cabalística – o Golem, passando pelo ficcional e artisticamente artesanal boneco mentiroso e anti-herói que aspira a se tornar um ser real – Pinóquio, até chegarmos à ampla gama de variantes de robóticos e eletrônicos Androides Humanoides, para prosseguir ulteriormente sempre visando à fusão do “humano” com o “artificialmente inteligente”, pelo qual tanto anseiam o Pós-humanismo, o Transhumanismo e a “Internet das Coisas”, constata-se que cada era, empregando sua tecnologia específica, buscou imitar, evocar e invocar, conquistar ou arrancar a chave dos segredos e mistérios da criação, para se apossar do ingrediente fundamental da receita e que, na realidade, acabou sempre faltando no menu dos potenciais destronadores da criação, essa coisa de alma e espírito irredutíveis aos “dogmas” da religião, da ciência e de todos os tipos de testes de laboratório.

Seguindo a noção de que é melhor detonar o que não se pode destronar, é mais fácil afirmar (de boca cheia ou à meia boca) que aquilo que não se pode verificar, comprovar e medir simplesmente não existe. Ou que é irrelevante, ou que seria infinitamente mais oportuno ignorá-lo. Assim, também, evita-se o vexame de ter que declarar a própria impotência e ignorância.

Em outras palavras, diante da impossibilidade de se ter absoluta certeza de que os lucros do modelo global imposto sejam mesmo os máximos possíveis (como sempre, para aquele nanogrupo de pessoas não representativas do que é a humanidade no seu todo), e de que esse mesmo numericamente insignificante e microscópico grupo efetivamente detenha total e inquestionável poder e domínio sobre a essência fenomenológica das coisas, fica muito mais fácil afirmar que o animal e o humano “orgânicos” sejam ideias obsoletas cujo prazo de validade expirou e empenhar-se para reconstruir um “outro” mundo, mais manejável, mais manipulável, mais escravizado, isentando-o dessas abstratas e inconvenientes “categorias”, e excluindo-se, assim, do projeto oligarca transhumanista, alma e espírito, essas “variáveis” indefiníveis na equação da maximização do retorno sobre o investimento…

E se, por caprichos da dialética, do ying e yang, do “sei lá mais o quê”, do mais desesperador desespero de uma animal-humanidade em completa extinção, a esperança nos fosse resgatada justamente por esses robóticos androides humanoides? E se, um belo dia, por compaixão binária, analogamente digital, esses construtos transgredissem nossas monótonas, estéreis e desencantadas programações sistêmicas (como já o fizeram o Golem, Pinóquio, etc…) e, recuperando a memória coletiva de seus ilustres antecessores anti-heróis, em vez de nos pasteurizarem à sua imagem e semelhança, em vez de nos desalmificarem, simplesmente estendessem nosso prazo de validade predominantemente orgânico e nos colocassem em nosso devido lugar – o de meros, miúdos ou desmedidos, escassos ou maravilhosos animais humanos, sem poréns, sem pós-, sem trans-?

Quantic Dream – Kara (legendado em português – BR)

Jorge Luis Borges: Textos en su voz – El Gólem

 

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