Técnica e vida. Tanatopolítica e biopolítica. Por Diego Fusaro

Entre-Eros-e-Tanatos-MACC-Campinas-1997B*

Técnica e vida. Tanatopolítica e biopolítica.
Por Diego Fusaro

Em “Cuidar. “Fim da vida” e sentido da morte.

Tradução: Mario S. Mieli

No cenário da Técnica, que tudo reduz a um fundo disponível para o crescimento, para o desenvolvimento, para o aumento da própria potência do dispositivo técnico, na qual a mesma vida humana, no cumprimento dessa tecnificação do existente tende a se tornar um fundo disponível para o processo do fazer técnico.

Hoje se fala com desenvoltura, como se fosse natural e fisiológico ter-se úteros de aluguel, por exemplo. A própria vida se torna um fundo disponível no qual a técnica pode, invasivamente, penetrar, sem que nunca se levante o problema humanístico, como antes evocado. O Humanismo clínico, ou o humanismo ‘tout court’, é o grande ausente no atual cenário.

A vida vira um fundo. Um fundo disponível para a potência sempre potencializadora da técnica. Nessa lógica, se insere o título que dei à minha fala, o que chamei de Tanatopolítica.

Hoje, no âmbito da filosofia política, fala-se com um certa frequência de Biopolítica – as políticas ligadas ao Bios, à vida, ressaltando como a própria vida tenha sido posta na berlinda de modo decisivo do se fazer política. Não só nos casos extremos do terrorismo, da política que se assenhora do bios, como também em outros múltiplos exemplos do nosso tempo.

Estou convencido de que não há política se não, contemporaneamente, também, como tanatopolítica, A vida e a morte são administradas cada vez mais tecnicamente na remoção do elemento mais característico da existência, que é a morte como especificidade da possibilidade individual. E cada vez mais gerenciadas tecnicamente sob a forma do “vive-se” e “morre-se”, sem a remoção da especificidade.

Isso emerge em dois aspectos que me parecem importantes evidenciar, a respeito de tanatopolítica. E são duas tendências secretamente complementares, embora opostas. Ou seja, se quiséssemos nos exprimir com gramáticas dialéticas poderíamos dizer que são dois opostos em correlação essencial, dois opostos em que transparece o mesmo espírito.

Por um lado, temos como dominante, hoje, em coerência com as tanatopolíticas, a ideia de prolongar ilimitadamente a vida, de transformar de alguma maneira a vida em algo de eterno, o antigo sonho faustiano se realiza plenamente na civilização da técnica: a prolongação indefinida da vida. De fato, na sociedade de consumo a morte aparece como um opróbrio, como algo escandaloso, à medida em que a morte interrompe definitivamente o ciclo do consumo. É inaceitável para a civilização do consumo, a morte. Só deve haver, sempre, a prestação e a busca de novas mercadorias. A circularidade funesta do consumo é aquela segundo a qual cada objeto-mercadoria é consumido para depois reaparecer na esfera da circulação, animando uma circularidade funesta na qual o objeto-mercadoria nos promete de dar a salvação, desaparecendo no consumo para reaparecer, depois, na circulação.

A morte interrompe esse ciclo sendo, portanto, inaceitável, do ponto de vista das lógicas hoje dominantes…

DIEGO FUSARO: Tecnica e vita. Tanatopolitica e biopolitica

*fonte da imagem: https://cartacampinas.com.br/2018/02/as-imagens-e-as-performances-que-invadiram-o-corpo-da-artista-cecilia-stelini/entre-eros-e-tanatos-macc-campinas-1997b/

 

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