Como sair da formatação de massas, por Giulietto Chiesa

Sociedade-do-Consumo

Como sair da formatação de massas
Participação de Giulietto Chiesa nas Leituras Zeinovianas, Moscou, 29/10/2018

Fonte: Pandora TV
Giulietto Chiesa: Come uscire dalla formattazione di massa?

Tradução das legendas em italiano: Mario Mieli

Era a primeira vez que eu ouvia as citações de Zinov’ev, lidas para nós pelo primeiro orador. Não as conhecia, mas as considero muito proféticas. E, ao mesmo tempo, estou pensando naquilo que acabei de ouvir do nosso amigo Dimitrios Patelis.

Compartilho a sua opinião, em grande parte. Talvez num modo ainda mais radical. A pergunta é: o que virá depois do capitalismo?

Minha resposta é… como explicá-lo?… o que vemos hoje não é capitalismo, na minha opinião. É uma construção completamente diferente, que já quebrou com todas as raízes e todas as teorias dos séculos XX e XIX.

Não é capitalismo. O capitalismo era a produção de bens e a troca de mercadorias: Mercadorias – dinheiro – mercadorias.

Mas aqui não temos mercadorias.

Dinheiro – dinheiro – dinheiro.

Só dinheiro. O dinheiro produz dinheiro. Podemos chamar a isso de capitalismo? Dificilmente. Porque todas as consequências que vocês ouviram estão muito distantes. O fim do capitalismo significa o fim de todas as precedentes ideias de luta de classes. Não existe qualquer luta de classes agora, pelo menos no Ocidente.

Existe em outras partes do mundo, mas é uma situação transitória. Depois me deterei mais nesta afirmação.

Post-capitalismo: o que significa isso?

Ou podemos também perguntar: que sistema político e social queremos e podemos construir? Que tipo de organização da sociedade queremos devemos ainda estabelecer? Mas a coisa mais importante é o que podemos fazer. É algo muito difícil de determinar, porque como não há luta de classe dentro desse sistema, é difícil inventar uma forma de luta. Contra quem? Contra o quê? E o que podemos obter? Nós, que estamos sentados aqui, velhos e jovens, o que podemos fazer?

No Ocidente, praticamente bilhões de pessoas já foram formatadas. Eis o instrumento. A coisa mais turva, que até Zinov’ev não teria podido excogitar. Eis aqui. Criaram um sistema que nos formatou. Completamente.

As novas gerações foram 100% formatadas. Nós, talvez, um pouco maiorzinhos, fomos formatados 50 ou 60%. Mas as novas gerações… hoje no metrô só vi em minha volta pessoas que olhavam para seus celulares. Esse é um instrumento de formatação do ser humano, de seu cérebro, do seu modo de pensar, do seu tempo.

Já formataram o nosso tempo há muito tempo. É um processo muito veloz que não parará. Por isso Dimitrios Patelis afirmou que temos à frente uma tarefa gigantesca. Vamos tentar definir qual é essa tarefa que precisamos enfrentar. É praticamente unificar o ser humano. Tudo isso está acontecendo numa velocidade tão alta que não teremos tempo de organizar a defesa. Eis porque, serei muito franco, a saída dessa situação é a guerra. Uma guerra global, gigantesca, sem limites. Não estou dizendo que ela ocorrerá seguramente. Estou dizendo que, por quanto possível, essa é a saída mais provável. Porque nos encontramos numa situação global cujo progresso tecnológico, que modificou todas as raízes de nossas vidas, e precisamos ainda esclarecer em que medida, esse mecanismo está ocorrendo numa situação em que a espécie humana está dividida em duas grandes partes.

Os ricos são um grupo muito limitado de pessoas. E reitero: muito limitado. Estamos falando de 20,30, 150 pessoas, não mais que isso. São eles que governam o mundo. O mundo está nas mãos deles. Isso, de um lado.

Do outro lado, há 7,5 bilhões de pessoas que não têm qualquer possibilidade de reagir. Porque foram formatadas. Estão nas mãos dos patrões. Seus cérebros já foram formatados radicalmente. Trata-se de uma mutação antropológica. A velocidade desse processo pode ser definida com uma precisão mais ou menos confiável. Uma das pessoas empenhadas nessa tarefa é Kurzweil.

O cérebro dele também foi formatado e está coligado ao sistema do novo computador. Estão construindo uma casa para o cérebro dele. Esse Kurzweil escreveu um livro muito interessante. Realmente interessante.
Deveria ser lido, pois de outro modo não podemos compreender o que está acontecendo. Ele disse que todo esse processo terminará com uma… não sei como dizer em russo… com uma singularidade. Quando ocorrerá essa singularidade? Daqui a vinte anos. Estão entendendo? Daqui a vinte ou trinta anos. Isso significa que todos os jovens aqui presentes poderão testemunhar isso acontecer. E creio que a previsão dele seja acurada. Não se baseia em raciocínios filosóficos. Fez uma previsão com base em das variações no movimento dos capitais. A análise dele é acurada. É quantitativa. Vinte anos, portanto. Em vinte anos, estará pronto o Super Homem. Estará aqui, pronto.

Isso significa, como disse o Stephen Hawking, antes de sua morte recente, que tudo isso acontecerá quando não será mais possível reformatar bilhões de pessoas. Que situação!

Dez, vinte, duzentas pessoas decidirão – e já o estão fazendo – o curso dos acontecimentos, enquanto isso os outros 7 bilhões não poderão se defender. Não poderão ser “renovados”, não poderão atingir os ápices dos Super Homens. Mas o Super Homem não será humano, como você também falou. Para a metade, ou mesmo para 80 ou 90 por cento, será inteligência artificial, a qual é superior ao nosso intelecto. Pelo simples motivo que a velocidade do seu pensamento é de 300 mil quilômetros por segundo. Enquanto a velocidade do nosso pensamento, infelizmente, é de apenas sete quilômetros por segundo. É isso. Portanto, é errado confrontar a inteligência artificial com a inteligência humana. Essas duas inteligências não são a mesma coisa. A inteligência artificial é um outro tipo de inteligência que não pode ser comparada com a nossa. E cito novamente Hawking. Ele disse que isso ocorreria neste século. E Kurzweil disse que isso ocorrerá nos próximos vinte anos, devido à incrível aceleração de todos os elementos desse desenvolvimento.

Quando isso acontecerá, a inteligência artificial começará a se perguntar se ela realmente precisa dos seres humanos.

É aí onde nos encontramos. Não é uma questão de séculos, é uma questão atual, de hoje em dia. Por isso trata-se de uma questão gigantesca.

Para concluir, um teste. Um teste experimental. Venho da Itália. Ontem estava na Itália. O que está acontecendo na Itália?

Para resumir, há uma revolução na Itália. Eu a chamo assim. Que forças fizeram esta revolução? Nenhuma força. Os partidos de oposição não existem. Na Itália, há 14 partidos comunistas, mas são muito pequenos e não têm qualquer influência. Os outros partidos não têm qualquer noção. Seus líderes não são os donos do mundo, são somente funcionários. Não entendem o que está acontecendo. Mas o que está acontecendo? O que está acontecendo é que, sem um guia, povos inteiros estão se perguntando o que está acontecendo. Não há teorias. Ninguém lhes forneceu teorias. O que fazer? É como os cães que ladram antes de um terremoto. É uma ideia interessante: os cães percebem isso antes. Têm seus sistemas para entender. Eles não têm teorias, mas latem antes do terremoto. É isso que está acontecendo na Itália, na Alemanha. Toda a Europa está latindo. Todas as estruturas políticas precedentes desapareceram. As pessoas não sabem como se defender, mas percebem o perigo. Essa é a situação em que nos encontramos.

O governo italiano é uma espécie de governo revolucionário que não sabe o que fazer. Não sabe o que fazer!

Porque o sistema atual precisa ser quebrado, mas é difícil quebrá-lo. Opera com muita velocidade e com grande eficácia, movendo-se em todas as direções num ritmo acelerado. É um problema.

Então, minha última proposta. Talvez um pouco otimista. Como podemos nos opor? Com as forças de uma só pessoa é impossível. São necessárias grandes quantias de dinheiro e uma organização gigantesca. São necessários inteiros Estados. Quais Estados podem se opor ao que está acontecendo? Dois ou três: a China, a Rússia e o Irã. Essas são as três forças que podem recolher conhecimento – se é que seja ainda possível – e construir um sistema comum de defesa da humanidade. Se isso não acontecer, haverá uma guerra. Uma guerra inevitável, porque aqueles que mandam no mundo não nos vêm como seres humanos, nos vêm como um sistema. Nem sequer de produção, mas de consumo. Biomassa. Por isso se torna necessária a força. Estamos na Rússia. Há líderes na Rússia capazes de pensar nesse âmbito?

Não sei. É uma questão em aberto. Se for possível encontrá-los, os encontraremos. Obrigado pela atenção.

Palestra original em russo, com legendas em italiano:

 

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