Entrevista de Raoul Vaneigem sobre seu “Propos de table – Dialogue entre la vie et le corps”

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Entrevista de Raoul Vaneigem sobre seu “Propos de table – Dialogue entre la vie et le corps”

A vida é a arma absoluta contra o capitalismo.

Fonte: publicado em “L’ONS” de 3/5/2018

https://bibliobs.nouvelobs.com/idees/20180426.OBS5820/ce-qui-est-utile-et-agreable-est-systematiquement-mis-a-mal.html

Tradução: Mario S. Mieli

OBS. Você qualifica seu “Propos de table” de diário de bordo. Você encara a vida como uma travessia de alguma coisa, mas de quê?

Raoul Vaneigem. Viver não é sobreviver. A vida é gratuidade por excelência. Ela não paga nem se paga. Ela se recusa de ser confundida com a sobrevivência, onde a necessidade de trabalhar nos leva de volta a uma existência de animal predado e animal de carga. Empreender uma batalha permanente por uma vida verdadeiramente humana é a garantia mais segura para se pôr fim ao sinistro “struggle for life” que nos foi imposto pela civilização mercantil. A vida cria e se cria. A liberdade de seus desejos é incompatível com as liberdades do comércio. A vida é a arma absoluta contra o capitalismo.

OBS. Você nasceu em Lessines, como René Magritte. Haveria uma influência?

RV. Se existe um genius loci, isso me aproximaria de Scutenaire. Magritte passou pouco tempo em Lessines. Scutenaire viveu o clima de luta social e consciência da classe trabalhadora que eu conheci na minha juventude.

OBS. Você garante de viver como um alquimista. O que é um alquimista hoje?

RV. Eu expliquei isso em “Do Destino”. Cada um tenta transmutar o chumbo de uma existência pouco atraente em uma vida que, como a pedra filosofal, permitiria a liberdade de nossos desejos de romper a tirania do lucro e do poder. Dar prioridade a momentos de prazer e a inspiração criativa desses momentos me abre para uma vida cuja presença é fortalecida e gradualmente remove o tempo linear, o tempo da usura, o tempo da sobrevivência.

OBS. Fala-se muito de ruína, de debacle, de grande lavagem de roupa suja nas suas “Propostas”. Você seria um daqueles chamados “declinistas”?

RV. Eu não sei o que é declinismo. Os rótulos me deixaram indiferente. Por outro lado, o estados dos lugares é autoevidente. Mostre-me hoje um único lugar onde o olhar não é atacado, onde o ar, a água, a terra não sofrem a fúria devastadora da ganância mercante! Tudo o que é útil e agradável é sistematicamente minado. Antigamente, o estado, por mais vigarista, embolsava os impostos pelos quais detinha os cidadãos, mas se preocupava em designar uma parte deles ao bem público. O que aconteceu com os subsídios à educação, saúde, cultura, moradia, transporte, agricultura de qualidade, meio ambiente, desempregados, sem-teto, refugiados fugindo da guerra e da miséria? Eles foram nivelados, reduzidos ao limite sob a pressão do poder absoluto do dinheiro. As mentalidades são tão gangrenadas que todos continuam a pagar ao Estado os impostos que, longe de melhorar a sorte dos cidadãos, servem para salvar as malversações bancárias.

OBS. “O self-made man é o homem que se constrói ao desconstruir sua vida”, você escreve. Você também fala sobre “o colapso da civilização agro-mercante”. O que você guarda do nosso tempo?

RV. Uma mudança de civilização, uma mutação. A paixão por reinventar um mundo livre do totalitarismo econômico estimula a criação de Terras Livres. Pude observar nos Zapatistas de Chiapas uma verdadeira democracia. O ZAD de Notre-Dame-des-Landes é um exemplo de uma micro sociedade que experimenta o auto gerenciamento da vida quotidiana. Ao esmagá-lo, o estado aplica a política de destruição lucrativa que o capitalismo pratica globalmente contra a vida. Cabe a nós aprender com isso!

OBS. Radicalidade, você costuma usar essa palavra. Que sentido você dá a ela?

RV. Ser radical é pegar seres e coisas na raiz, e a raiz da vida é a própria vida. Rabelais, Montaigne, La Boétie, Diderot, Marx, Hölderlin, Fourier concordaram com isso bem antes de mim.

OBS. Você é o autor do “Tratado do saber viver– manual de uso para as gerações mais jovens”, publicado em 1967, no qual você destacou “o surgimento do ser humano como sujeito, em um mundo de objetos, estabelecido pela civilização mercantil”. Qual é a sua visão de maio-68 meio século depois?

RV. As comemorações são um cemitério. Não me preocupo com aqueles que fazem do presente um eterno passado. O que o movimento de ocupações trouxe à luz, e que o obscurantismo espetacular ocultou, é a recusa do trabalho, do sacrifício, do patriarcado e do poder. É a prioridade dada à vida. Isso é o que nasceu então, e está apenas começando a se desenvolver.

OBS. Desde o “Tratado”, você é consistente em suas convicções. Você sente que está sempre certo?

RV. Eu não me importo de estar certo ou errado. O exercício difícil e emocionante de me reconstruir todos os dias é suficiente para mim. É com isso que, analogicamente, me sinto preocupado com uma abordagem alquímica que propaga uma poesia feita por todos e por um.

OBS. O “estou feliz de não ser lido nem compreendido” nas suas “Propostas” é a sua medalha?

RV. A citação exata é “Daqueles que, em sua desesperança íntima, professam publicamente ou secretamente o culto da morte, eu me felicito de não ser lido nem compreendido.” Demais mortos-vivos nas ruas! Eu não sou nem estrela nem mestre, nem competitivo nem concorrencial. Eu não participo do espetáculo. Toda medalha merece ser cuspida.

OBS. “Eu não acredito em nada. Toda crença é um túmulo onde a consciência apodrece.” Não há deuses, então, mas talvez mestres. Quem são eles?

RV. Eu fico com “nem deuses nem mestres”.

OBS. Como você explica o aumento do lugar da religião nas crises contemporâneas?

RV. Trata-se de regressões episódicas, provocadas pelo impasse no qual a civilização é encurralada. Os meios de comunicação são mais propensos a falar sobre o islamismo sangrento do que as mulheres iranianas que penduram o véu nas árvores.

OBS. “Nossa história é uma experiência que deu mal.” A espécie humana, você ainda espera algo dela?

RV. Toda esperança acrescenta uma pedra ao muro das Lamentações. A história é uma longa série de barbaridades. O projeto de humanização é mais do que nunca irreprimível. A vida é por si só uma insurgência em andamento.

OBS. “Não se morre de amor, morre-se da ausência dele.” Você poderia fazer disso o seu lema?

RV. A constatação é, infelizmente, banal: quem não teve a oportunidade de conhecê-la ao longo do tempo? Se eu escolhesse um lema, seria: “Deseje tudo, não espere nada”.

Entrevistado por Laurent Lemire
Propos de table,
de Raoul Vaneigem,
Le Cherche Midi, 352 p., 18 euros.

Raoul Vaneigem, bio sucinta
Nascido em 1934, Raoul Vaneigem participou de 1961 até sua renúncia em 1970 à Internacional Situacionista, ao lado de Guy Debord. Filósofo, medievalista, especialista em heresias, autor de cerca de trinta livros, publica este mês “Propos de table” pela Cherche Midi

 

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