>> iMundo 13 – “Io accetto” (Eu aceito) – vídeo e texto por Mason Massy James e Chiara Lyn

Io Accetto

IO ACCETTO (EU ACEITO)

Transcrição traduzida: Mario S. Mieli

EU ACEITO

Meus caros amigos
Cada um de vocês se dá conta da estranha sensação de que há algo profundamente errado no que vê.
Muitos, contudo, não sabem o porquê. Nem o que seja.
Independentemente das nossas posições ou ideias políticas, o sistema vigente no nosso mundo “livre” se baseia na tácita aceitação de um contrato que liga cada um de nós e que exponho, de modo geral.

EU ACEITO
1. Eu aceito a competitividade como a estrutura fundamental do sistema em que vivo, embora eu perceba que ela gere frustração e raiva na maior parte dos indivíduos.

2. Aceito o fato de que para viver, tenha que limitar a minha vida a um dia por semana, enquanto os outros seis precisam ser passados trabalhando para produzir, aniquilando uma inteira existência.

3. Eu aceito ser humilhado e explorado com a condição de que me seja permitido humilhar e explorar outra pessoa que ocupe uma posição inferior na pirâmide social.

4. Aceito que os indigentes, os doentes e aqueles que não conseguem se manter à tona sejam excluídos e postos à margem da sociedade, e que lhe sejam negados cuidados e assistência, porque esse custo social não pode incidir sobre o bem estar e o progresso dos ricos, dos abastados, dos sortudos.

5. Aceito pagar institutos privados para que gerenciem a minha renda segundo sua conveniência e que não me deem qualquer dividendo de seus gigantescos lucros. Lucros que servirão para agredir estados fracos, criando espirais de dívida infinita, fato este que aceito implicitamente. Aceito que me sejam aplicadas altas taxas de juros para me emprestar dinheiro. Dinheiro que é criado do nada.

6. Aceito que os bancos internacionais emprestem dinheiro aos países que queiram se armar e combater e, assim, escolher aqueles que farão a guerra e aqueles que não a farão. Sei que é melhor financiar ambas as partes para ter certeza de ter lucros e de prolongar os conflitos o tempo mais longo possível, para enxugar completamente os recursos dos países que não conseguirão pagar suas dívidas. Aceito pagar tributos obrigatórios ao meu governo, retirando-os da minha renda, ainda que esses não sejam utilizados para melhorar a minha vida ou os serviços para os cidadãos. Mas, principalmente, para pagar a dívida contraída pelos governos junto a banqueiros privados. Eu me empenho em nunca pretender que meus impostos sejam usados para investimentos maciços na saúde, na pesquisa científica e na cultura. Cumprirei o meu dever contribuindo para o bom funcionamento da nossa economia.

7. Aceito que a dívida seja a principal forma de tratativa entre estados e para com os cidadãos. Mesmo que isso leve a uma óbvia forma de escravidão e que isso seja economicamente insustentável.

8. Aceito que se legalize o homicídio, quando a vítima seja indicada pelo meu governo como o “inimigo”. Nesse caso não pedirei provas de culpabilidade e eliminarei o alvo sem contestar. Aceito que a morte possa ser induzida lentamente pelos governos com o envenenamento de inteiras populações através da inalação e da ingestão quotidianas de substâncias tóxicas autorizadas.

9. Aceito que se faça a guerra para obter a paz. Aceito, em nome desse princípio, que o principal item de despesa do estado seja para a defesa. Aceito que os conflitos sejam criados artificialmente, para alimentar o mercado das armas e o crescimento da economia mundial.

10. Aceito a hegemonia do petróleo na nossa economia. E que toda forma de energia gratuita, não poluidora e livre seja suprimida e encoberta. Aceito porque cada forma de energia desse tipo representa um perigo para a humanidade, já que seria o fim do mundo, assim como o conhecemos.

11. Aceito que seja dividida a opinião pública criando-se partidos de direita e de esquerda que terão como único objetivo lutar entre si, enquanto eu me empenharei em acreditar que a diatribe entre eles são fruto de um sadio enfrentamento democrático útil para o nosso futuro. Além disso, aceito todo o tipo de divisão possível, desde que essas divisões me permitam focalizar a raiva em inimigos escolhidos “de cima”, no momento em que me esfregarão as caras deles diante dos meus olhos.

12. Aceito que os capitães de indústria, os militares e os chefes de estado se reúnam regularmente sem que sejamos consultados, para tomarem decisões que comprometem o futuro da nossa vida e a do planeta.

13. Aceito que o poder de manipular a opinião pública, antes ostentado pelas religiões, esteja hoje nas mãos de homens de negócios não eleitos democraticamente e totalmente livres de controlar os estados. Aceito isso pois estou convencido do bom uso que eles farão.

14. Aceito que a verdade sobre os fatos me seja dita por uma mídia controlada por poucos poderosos indivíduos. Essa será chamada de “verdade oficial”. E ainda que seja uma verdade manipulada e distorcida dos fatos, eu me empenharei em não duvidar dela e em não me informar de modo independente.

15. Aceito que me sejam apresentadas notícias negativas e assustadoras do mundo a cada dia, de modo que eu possa apreciar até que ponto eu esteja protegido pelo governo, pela polícia e pelos militares. E para me dar conta da sorte que eu tenho de viver no Ocidente. Sei que manter o medo em nossos espíritos só pode ser um benefício para nós.

16. Aceito que a ideia de felicidade se reduza à comodidade, o amor ao sexo, a liberdade à satisfação de todos os desejos. Pois é isso que a publicidade repete todos os dias. Aceito ser infeliz, pois mais infeliz sou, mais consumo.

17. Aceito que o valor de uma pessoa seja proporcional àquilo que ela possua. E que sua utilidade seja apreciada em função de sua produtividade, e não de suas qualidades. E que seja excluída do sistema se não produzir suficientemente.

18. Aceito ter que pagar para ser entretido, no pouco tempo livre que me sobra, através de espetáculos esportivos e de shows vazios de conteúdo que geram quantias absurdas de dinheiro. Aceito isso pois a cultura é chata e perigosa, enquanto saber-se divertir despreocupadamente é a chave de uma vida feliz.

19. Aceito que a escola e o charlatanismo que passa por educação seja a única forma legítima e reconhecida de formação, e não de achatamento do senso crítico e das consciências.

20. Aceito sem discutir e considero verdade todas as teorias propostas para explicar os mistérios das origens do ser humano. E considero indiscutivelmente verdadeiro que a natureza tenha dedicado milhões de anos para criar um ser cujo único passatempo seja a destruição, em poucos instantes, de sua mesma espécie e do ambiente do qual depende.

21. Aceito que sejam excluídos da sociedade os anciãos, porque são improdutivos, e experiência deles, com todos os ensinamentos que poderia conter, pode ser sacrificada em nome do lucro.

22. Aceito a busca do lucro como fim supremo da humanidade, e o acúmulo de riqueza como a realização da vida humana.

23. Aceito desperdiçar e destruir toneladas de alimentos, com o objetivo de manter sob controle os preços das ações das multinacionais na bolsa, em vez de permitir uma justa distribuição dos recursos alimentares no planeta e evitar a morte pela fome ou pela sede de milhões de pessoas, todos os anos.

24. Aceito o aumento da poluição industrial e a dispersão de substâncias químicas e elementos radioativos na natureza. Aceito todo tipo de aditivo químico na minha alimentação, pois estou convencido de que, se eles são adicionados, é porque são úteis e inócuos. Aceito que os laboratórios farmacêuticos e as indústrias agroalimentares vendam nos países do terceiro mundo produtos vencidos, ou utilizem substâncias cancerígenas proibidas no Ocidente.

25. Aceito a deflorestação selvagem de terras tão grandes quanto inteiras nações. Aceito que seja possível expropriar a terra a inteiros povos pela violência, para entregá-las a multinacionais que explorarão aquela terra para se enriquecer, sem compartilhar nada com as populações locais.

26. Aceito que os animais sejam abusados, torturados e, no melhor dos casos, extintos, porque aceito não reconhecer para eles um lugar como legítimos habitantes deste planeta, igual ao dos seres humanos. Aceito acreditar que os animais não tenham emoções, não tenham consciência nem formas de empatia.

27. Aceito que as multinacionais roubem os recursos dos países empobrecidos e escravizados pela política mundial da dívida, em nome do progresso econômico. Aceito que existam leis que permitem explorar as crianças em condições desumanas e precárias. Em nome dos direitos humanos e do cidadão, não temos nenhum direito de nos intrometer, especialmente se isso nos permitir adquirir mercadorias baratas.

28. Aceito que se possam denegrir, destruir e cancelar do planeta todo tipo de forma cultural diferente daquela ocidental. Porque poderia fazer vacilar as bases do bem estar econômico ocidental, ao qual anseio quotidianamente.

29. Aceito a ideia de que existem só duas possibilidades na natureza, ou seja: caçar ou ser caçado. E se formos dotados de uma consciência e de uma linguagem, certamente não é para fugir dessa dualidade, mas para encontrar sofisticadas justificações do porque agimos desse modo.

30. Aceito acreditar que o nosso passado histórico seja o resultado ininterrupto de conflitos casuais e não um projeto preciso perseguido no decorrer de séculos por lobbies de poder. Estou certo de que estamos no ápice de nossa evolução. E que as regras que governam o nosso mundo são a busca da felicidade e da liberdade para todos os povos, como escutamos continuamente nos discursos dos nossos políticos.

31. Aceito acreditar que não posso fazer nada para mudar o atual estado de coisas.

32. Aceito não fazer qualquer pergunta. Fechar os olhos diante disso tudo e não fazer qualquer oposição, pois estou demasiadamente ocupado com a minha vida e as minhas preocupações. Aceito também defender com a vida as cláusulas aceitas neste contrato, se assim me for pedido.

33. Aceito, assim, definitivamente, com minha alma e consciência, essa triste matriz que me é colocada diante dos olhos. Empenho em me abster de enxergar a realidade das coisas. E me recuso de crer que um outro modo de existência seja possível. Aceito acreditar que vocês todos ajam pelo meu bem. E para o bem de todos. E, por isso, agradeço a todos.

Produzido por: Mason Massy James e Chiara Lyn
Livremente inspirado no vídeo “Il Contratto” (O Contrato) – vide abaixo

Le Contrat (em francês, com legendas em italiano, francês e espanhol)

 

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