>> Cinco minutos com Vandana Shiva – “Não há limites para o que podemos criar.”

Cinco minutos com Vandana Shiva – “Não há limites para o que podemos criar.”

Entrevista com Vandana Shiva, física, escritora e prêmio Nobel alternativo, feita por Agnès Rousseaux e Nadia Djabali, da bastamag.net em julho de 2011.

Tradução: Mario S. Mieli




Para ver a entrevista em inglês, com subtítulos em francês (tradução ao português, abaixo):


http://vimeo.com/30846518


Q: Por que a soberania alimentar, a soberania da terra, da água e das sementes é o principal desafio atualmente?

VS: Os gregos estão dizendo: “nossa terra não está à venda, nossos bens não estão à venda, nossas vidas não estão à venda”. Na Índia, temos movimentos que dizem: “Nossa terra não está à venda, o Ganges não está à venda, nossas sementes não estão à venda.”
Então, quem está falando?
O POVO.
A soberania da terra, a soberania das sementes, a soberania dos rios se juntam à soberania dos povos, tanto com relação à responsabilidade de proteger estas dádivas da Terra, quanto de compartilhá-las equitativamente.

Q: É preciso regular as trocas comerciais para garantir essa soberania?

Nossa reivindicação, ao lidar com a globalização, não é dizer não ao comércio. É dizer não ao comércio desregulamentado, no qual os termos do comércio são estipulados pela ganância das corporações, que se apropriam dos nossos impostos para criar preços artificiais, criando o dumping e destruindo a soberania alimentar. Esse tipo de sistema é nocivo aos agricultores indianos e aos agricultores europeus, mas esses agricultores são sempre um pretexto para as corporações. É preciso colocar o agrobusiness no centro da equação, das subvenções, do dumping, do monopólio dos mercados, da matança de nossos agricultores, da destruição da terra, da matança das populações, com uma alimentação envenenada.

O protecionismo seria um instrumento para lutar contra as multinacionais?

VS: O protecionismo é descrito como um pecado porque a desregulamentação é estabelecida como a norma. Em 1993, organizamos uma manifestação de meio milhão de pessoas para alertar o governo indiano: “Se vocês assinarem os acordos do GATT, nossos cultivadores vão morrer”. Hoje, 250.000 agricultores já cometeram suicídio na Índia. Nós queremos que o governo associe a dívida de nossos camponeses com as políticas específicas de desregulamentação do mercado de sementes, o que permitiu à Monsanto de se tornar a única vendedora de sementes no mercado do algodão. 95% do mercado de sementes de algodão foi capturado. Precisamos redefinir protecionismo para centrá-lo na população e na Terra. Um protecionismo voltado aos ecossistemas do planeta é um imperativo ecológico. Trata-se de um dever social e ecológico, e a ganância das multinacionais não é um direito.

Q: Você descreve o livre comércio como o protecionismo para os poderosos…

VS: O que se chama de livre comércio não tem absolutamente nada de livre. Ele não é livre pelo modo como foi concebido. Ele não é democrático. Cinco multinacionais se reuniram e redigiram um acordo sobre a propriedade intelectual. Isso permite a empresas como a Novartis, de roubar os medicamentos dos pobres e cobrar dez vezes mais caro. Um tratamento contra o câncer custa 10.000 rúpias por mês, com os medicamentos genéricos disponíveis na Índia. E a Novartis quer vendê-los por 175.000 rúpias por mês. E quando o tribunal julga que o medicamento não é uma invenção da empresa, porque o tratamento já existia, e que a Novartis não podia reivindicar uma patente, a empresa desafia as leis do país. Um sistema em que 85% da população pode morrer por falta de tratamento é um sistema criminoso.

Q: A energia nuclear é um exemplo da guerra do ser humano contra si mesmo e contra a natureza?

VS: A maior usina nuclear do mundo está sendo construída na Índia, em Jaitapur, pela empresa francesa Areva, O projeto está todo baseado em subsídios, inclusive, a desapropriação das terras mais férteis, e quando a população diz Não, leva tiros. Os manifestantes que protestaram contra este projeto foram assassinados. Hoje, Jaitapur é uma zona de guerra. Espero que o povo da França apoie a população de Jaitapur, para exigir que a Areva desista do projeto e que nós possamos viver em paz.

Q: Você vê sinais de esperança?

VS: Vejo sinais de esperança onde quer que haja resistência. Cada comunidade na Índia que luta contra o roubo de terras, que participa do nosso movimento Navdanya, para que as sementes continuem sendo um bem de todos. Todos os que rejeitam a economia suicida da Monsanto, praticando uma agricultura biológica, ou todas as comunidades que lutam contra a privatização da água. Tudo o que se passa nas ruas de Madri, da Irlanda, da Islândia, na Grécia, os resultados do referendum nuclear na Itália… Esses são todos sinais extraordinários de esperança.

Tudo o que precisamos é de uma nova convergência. Uma convergência global de todas as lutas. Assim como a liberação de nossa imaginação. Não há limites para o que podemos criar.





A IMEDIATA foi pioneira no Brasil na apresentação, tradução e divulgação dos artigos, entrevistas e pensamentos de Vandana Shiva em português. Recomendamos a leitura dos seguintes artigos de Vandana Shiva, entre outros, disponíveis no site IMEDIATA:


VANDANA SHIVA: ABAIXO A DITADURA ALIMENTAR!!!
http://imediata.org/?p=470


Está na hora de acabar com a Guerra contra a Terra
http://imediata.org/?p=365


Os campos de extermínio das corporações multinacionais; os pesticidas, poluição e economias de genocídio
http://imediata.org/?p=356


A injustiça dos créditos de carbono compensatórios
http://imediata.org/?p=84


Consultar também os vários artigos anteriores no Arquivo Imediata:


do portal Lance de Dados:
http://imediata.org/lancededados/


e do portal Biodiversidade Imediata:
http://imediata.org/biodiv/

 

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