>> Na Europa, o segundo ato da tragédia está para começar, por Franco Berardi Bifo



Na Europa, o segundo ato da tragédia está para começar

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Por: Franco Berardi Bifo
Fonte: adbusters – O colapso mental de uma nação – 21 de fevereiro de 2013
Tradução: Mario S. Mieli



O primeiro ato da tragédia europeia acabou: a dívida tomou o lugar central na constituição material da Eurozona, gerando o desmantelamento triunfante da democracia e o empobrecimento da vida social.


Quais são as máximas do “diktat” Financeiro? Destruir vida – incitar o colapso das estruturas da vida civil – com o propósito de salvar o sistema bancário. Enquanto isso, novos dados da União Europeia mostram que os países que cortaram seus orçamentos mais impiedosamente em nome da austeridade viram sua carga total de dívida aumentar em proporção às suas economias. Isso fornece evidência irrefutável de que severos cortes nos orçamentos governamentais em tempos de recessão econômica estão permanentemente destruindo qualquer possibilidade de recuperação econômica. O aumento da dívida e a recessão estão se alimentando mutuamente, enquanto os recursos e o dinheiro são transferidos para a classe financeira.





O segundo ato da tragédia europeia começa agora: o faturamento dos estados nacionais, o aumento do ódio anti-alemão, o crescimento de partidos fascistas na Grécia, Itália, Hungria, Finlândia e em outros lugares.





Da “bancanização” – submissão da Europa aos interesses do sistema bancário – à balcanização: proliferação de conflitos nacionalistas e étnicos que levam ao espectro de uma guerra civil continental. O buraco negro da abstração financeira está engolindo os recursos sociais e destruindo a potência produtiva do intelecto geral, enquanto a civilização social está investida e corroída pelas metástases do câncer financeiro.



imagem via rebelion.org


Está claro que a expansão econômica terminou e nunca retornará. O decrescimento não é mais uma escolha moral ou política que podemos aceitar ou recusar. Na Europa, o Decrescimento é um dado, uma consequência da redistribuição global da divisão do trabalho e a exaustão dos recursos naturais. Se o nosso futuro for sinônimo de Crescimento, nosso futuro está morto.


Mas deveríamos ser capazes de mudar nossas expectativas… de libertar nossas noções de vida boa da perspectiva capitalista de um Crescimento sem fim… de imaginar um futuro fora da ideia de progresso.



imagem via rebelion.org


A ditadura financeira está cortando salários e aumentando o tempo de trabalho. Mas, aumentando o desemprego e espalhando a recessão, ela também torna possível para nós transformar o Decrescimento em um enriquecimento da vida e de nosso prazer coletivo. Uma grande onda de protestos está no horizonte, mas as formas tradicionais de ativismo expuseram sua ineficácia: demonstrações, greves, protestos pacíficos são ineficazes porque agora o poder financeiro provém da dinâmica desencarnada que permanece intocável pelos corpos físicos de nossos movimentos.


Só uma retirada organizada, só uma insolvência maciça pode desarmar o ataque financeiro, e isso requer solidariedade. E solidariedade só pode se basear na empatia.


Como podemos recriar a solidariedade numa era em que a precariedade nos transformou em fragmentos despersonalizados de tempo, isolados pelas nossas solidões?


Em um mundo onde a competição se tornou a forma universal de relação social, redescobrir a solidariedade no meio do colapso social é o primeiro passo em direção à recomposição da insurreição social.


 

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