Da fábrica à metrópole

Fonte: Uninômade Brasil

Por Giuseppe Cocco / Guilherme Dal Sasso

Como muitos amigos e companheiros não puderam assistir à excelente fala de Giuseppe Cocco no ciclo Metrópoles: Territórios, governamento da vida e o comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos, compartilho um (nem tão) breve resumo da sua fala, a fim de expandir essa discussão que creio que atravessa todos nós.

A conferência de Cocco se intitulava “Da fábrica à metrópole”. Para Cocco, essa é uma passagem paradigmática, que desloca (multiplica) o campo de luta. Ele retoma a luta de classes no centro capitalista (EUA/Europa) e as revoltas contra a ordem fabril, a organização funcionalista do tempo e do espaço e contra o regime disciplinar. Isso implica dizer que as lutas se davam na esfera da produção (luta de classes), contra as condições de trabalho, melhores salários e pela livre organização dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, a fábrica não era apenas o locus da luta, mas era a maior expressão de um regime disciplinar onde o espaço e o tempo (a cidade e seus fluxos) eram organizados em função da fábrica (bairros operários, zondas industriais, transporte público se organizando temporalmente em relação aos turno de trabalho, etc). Na década de 60, eclodem lutas que transbordam a relação salarial e se multiplicam na “esfera da reprodução” (a vida cotidiana, fora da fábrica, onde a mão de obra se reproduz. Pois para Marx, o salário não é apenas a instituicionalização da exploração, mas a condição necessária para que o trabalhador coma, durma, se vista e possa voltar para a porta da fábrica no dia seguinte). Assim, eclodem lutas por fora da relação salarial, por mais que estejam ligadas a mesma matriz disciplinar de controle social: as lutas estudantis, as lutas pelos Direitos Civis nos EUA, as lutas em torno de gênero e sexualidade, contra os manicômios, etc. Eram revoltas de reafirmação da vida e da liberdade que criticavam a sociedade disciplinar, que operava duplamente individualizando e massificando os indivíduos.

Essas lutas forçam uma reorganização do capital na década de 70 (poderíamos discorrer sobre como o capitalismo se apropria e neutraliza os discursos de liberdade, através da publicidade, de uma nova cultura hedonista-consumista, dos yuppies, etc.). A onda neoliberal combate frontalmente os sindicatos e ao mesmo tempo desloca sua matriz industrial para países com o trabalho menos organizado. Nixon declara a Guerra às Drogas numa contra-ofensiva cultural. O Capital se reorganiza através da inconversibilidade do dólar, desregulamentação econômica e também numa “revolução antiburocrática”, através do desmanche de regimes fechados de produção e governo: do fordismo ao toyotismo, da sociedade disciplinar para a sociedade de controle (fica a dica do texto profético de Deleuze “pós-scriptum sobre a sociedade de controle, texto sintético mas que aprofunda um pouco o que tenta se dizer aqui).

Essa reorganização do processo de produção e também das formas de governo sobre a vida são sintetizadas na metáfora da “sociedade-pólen”. Na atividade da colmeia, a atividade fundamental é a produção do mel. As abelhas fazem todo o trabalho, ficam com uma parte para garantir a sua reprodução, ao passo que o apicultor se apropria do excedente para comercializá-lo (mais-valia): metáfora da fábrica. Na metrópole contemporânea, o que importa é o conjunto de singularidades que circulam e cooperam: de pólen em pólen, de flor em flor. O valor é produzido na polinização (entendida enquanto circulação e comunicação), mas tudo continua sendo voltado para a produção do mel.

Portanto, a metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro num trabalho precário, mal-remunerado e muitas vezes sequer reconhecido como trabalho. Não a toa que hoje se discute o PL 4330, da terceirização, que se multiplicam os estagiários onde antes haviam trabalhadores formais, que muitos jovens do setor da criação (publicitários, cineastas, atores, artistas, etc.) possuem apenas contratos temporários ou informais, não tendo acesso a direitos trabalhistas, ao passo que os trabalhadores mais pobres são terceirizados, às vezes “quarterizados” e até mesmo escravizados. Na metrópole, trabalha-se para poder trabalhar.

Esse é outro aspecto importante da condição de trabalho no capitalismo contemporâneo: não apenas as leis trabalhistas são contornadas ou desmanteladas, mas a precariedade é um modo de subjetivação. Se antes (lembrando, na perspectiva do norte e dos centros urbanos desenvolvidos) educação e saúde eram direitos universais que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que constantemente invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. Isso nos torna precários, e o precário é um endividado. Devemos trabalhar sobre nós mesmos para então sermos explorados, e esse trabalho não é apenas não-remunerado, mas implica em endividar-se (exemplos concretos: planos de saúde privados, cursos de especialização, FIES, etc.). Além disso, sendo a fábrica toda metrópole, não basta ter a força-de-trabalho para vender. É necessário deslocar-se (transporte), comunicar-se (telefonia/internet), dominar códigos e tecnologias, etc. Essa nova dinâmica do trabalho está ligada a toda uma nova composição social do trabalho, e nos ajuda muito a entender junho de 2013, e porque estourou justamente na questão dos transportes.

Mas voltando à transição paradigmática: o governo da vida passa por fora da relação salarial. Passa pelo capitalismo cognitivo, que se baseia na exploração da criatividade e produção da subjetividade. Isso não quer dizer que não haja fábricas, que não haja luta de classes (muito pelo contrário!). Mas que o capitalismo pós-industrial tem como pilar central o trabalho imaterial e suas novas dinâmicas de exploração. Que ele não se dá apenas na exploração fabril, mas parasitando os fluxos criativos. Somos cobrados para existir (saúde como mercadoria), para aprender (educação como mercadoria), para se mover (transporte como mercadoria), para se comunicar e cada vez mais para se divertir (quem contorna a indústria do entretenimento vê suas festas de rua criminalizadas, seus bares populares fechados, os bairros boêmios gentrificados). Na ponta mais sofisticada do parasitismo capitalista dos fluxos está, veja só, o facebook. Cocco deu um exemplo perfeito: o facebook é de graça, mas ele não nos paga – no sentido de que todo valor (gigantesco) da empresa existe porque usamos ele, produzimos conteúdo incessantemente nele, nos comunicamos por ele.

Outro belo exemplo dado por Cocco dessa mudança de paradigma diz respeito ao carro e ao chinelo havaianas. Na matriz fordista, o processo de produção do valor se dava na esfera da produção (o carro é feito na fábrica), e assim que começa a circular, passa a perder valor (e não à toa os conflitos se davam nessa mesma esfera). Hoje, a havaianas é o paradigma: é um pedaço de borracha com baixo “valor agregado”, mas é vendido a um preço muito maior em todos aeroportos do mundo. Isso não se dá pelos custos logísticos ou de produção, mas pelo trabalho imaterial acrescido à mercadoria: o marketing, a criação dos mundos onde aquele produto é desejado (produção de desejo). Isso implica dizer que, ao contrário da matriz anterior, hoje a circulação multiplica o valor em vez de desvalorizar algo (entendemos circulação não apenas da mercadoria, mas também das informações, dos signos, das imagens, etc.).

Mudando a perspectiva, temos que saber que o Brasil acompanhou a sua maneira (“terceiro mundo”) essas transfigurações do capitalismo global. Nunca tivemos educação e saúde como serviços públicos universais e mantemos uma estrutura colonial e racista, onde o poder disciplinar (ensino massificado, trabalho assalariado, prisão para desviantes e manicômio para loucos) ainda convive com o poder soberano (deixar viver e fazer morrer, massacre como tecnologia de controle, etc.). Poderíamos discorrer também sobre as particularidades que guardamos enquanto nação “subdesenvolvida” e de forte herança colonial, pensando o “poder soberano” não como um anacronismo, mas na sua relação complementar com as formas de poder disciplinar e da sociedade de controle (ou de “risco”, ou de “segurança”) mas o que interessa aqui é pensar a conjuntura política dentro dessas transições do capitalismo global.

O que Cocco coloca e me parece fundamental é: como sair da crise do capitalismo, que é uma crise global? A Europa é um continente à deriva. E o projeto desenvolvimentista do PT, apesar de ter promovido avanços sociais, se esgotou. Para além de ter se esgotado, o sentido do projeto de país do PT é (no máximo) esse: virar Europa, virar norte. Um norte que hoje está completamente falido, massacrando seus trabalhadores e mais ainda os imigrantes. O projeto desenvolvimentista em voga no país consiste numa reinvestida colonial sobre a Amazônia, com recordes de desmatamento e a previsão de mais 94 hidrelétricas em seus rios, enquanto o resto deve ser ocupado com soja ou boi. Isso para produzir um crescimento insustentável do PIB, que entope as cidades de carros, viadutos, prédios gigantescos, destrói árvores, parques, promove remoções e déficit habitacional etc. Não fica difícil ver como essa linha liga o massacre indígena e quilombola à vida cada vez mais degradante que se vive nas grandes cidades brasileiras. Esse projeto desenvolvimentista Cocco chama de “Projeto Brasil Maior”, que era o mesmo plano de desenvolvimento sustentado pelos militares (Belo Monte foi pensado por eles e executado por Dilma, o que não é mera coincidência, por mais cruelmente irônico que seja). Esse projeto postula como única saída para o Brasil virar um país de classe-média, e esse era inclusive o lema do governo: país rico é país sem miséria.

Para virar norte, o Brasil pode optar por duas vias: o Estado (encarnado na figura tecnocrática de Dilma, através do desenvolvimentismo do capitalismo de Estado), ou o Mercado (encarnado na figura corporativa de Joaquim Levy, através do neoliberalismo). Não à toa estão no mesmo governo. E desse modo entendemos que não é “contraditório” um neoliberal ser o principal ministro de um governo do PT.

Ora, se o norte está em crise e a estratégia da “exquerda” no Brasil é virar norte, então estamos perdidos. Qual a saída? A saída só pode ser afirmar um Brasil menor. Um Brasil minoritário, fundado na experiência dos índios, dos quilombolas, dos pobres. E isso não quer dizer tornar-se índio, mas um devir, na medida em que temos de deixar nossas pulsões brancas de querer tornar-se igual ao colonizador e olhar para as potências que guardamos na nossa terra, nas nossas cicatrizes. Glauber Rocha falou que as forças mais desenvolvidas do nosso continente são as raízes negras e indígenas, ao passo que nossas classes-médias e burguesias são caricaturas decadentes dos povos colonizadores. É necessário levar essa afirmação a sério, enquanto projeto político.

 

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