>> Tempo de sacrifício, por Silvio Mieli + ‘O Sacrifício’ de Andrei Tarkovski (integral)



Tempo de sacrifício, por Silvio Mieli + ‘O Sacrifício’ de Andrei Tarkovski (integral)


Tempo de sacrifício



Por: Silvio Mieli
Fonte: Artigo originalmente publicado na edição impressa 515 do Brasil de Fato 11/01/2013





“Sabe, às vezes digo a mim mesmo que se você faz algo todo dia, na mesma hora, sempre o mesmo ato, sistematicamente, como um ritual, algum dia o mundo mudaria! Teria que mudar!”

O cineasta russo Andrei Tarkovski escreveu em seu livro/testamento (Esculpir o Tempo) que o homem moderno não hesitaria em trocar sua própria vida pela existência de um robô.


Hoje, diante da perspectiva pós-biológica, transgênica, pós-humana, e suas múltiplas vertentes, percebemos a urgência das suas palavras. Mas é na força das imagens que Tarkovski parece mais atual do que nunca.


Para deter esse processo de desumanização, Tarkovski convenceu-se de que era necessário um “sacrifício pelo bem comum”. Ou seja, um mergulho urgente numa espécie de resgate do sagrado, que para ele era a dimensão que corria mais riscos diante do arrastão consumista e materialista que avançava (em meados dos anos de 1980).


Assim, no início do filme O Sacrifício (1986) — o último dirigido pelo cineasta já debilitado pelo câncer — a câmera acompanha a árvore da vida do quadro inacabado A Adoração dos Reis Magos, de Leonardo Da Vinci. Em seguida corta para o personagem Alexander (interpretado pelo grande ator sueco Earland Josephson).


Enquanto planta uma árvore japonesa, Alexander conta para o filho a parábola que inspirou o filme. Há muito tempo um monge de um mosteiro ortodoxo plantou uma árvore seca numa montanha. O monge disse para um aluno regar a árvore todos os dias. Cada manhã o discípulo enchia um balde com água. Ele subia a montanha, regava a árvore e retornava ao mosteiro só ao anoitecer. Assim ele continuou por três anos. Até que num belo dia ele chegou e a árvore estava coberta de flores.


“Diga o que quiser, mas tudo isso é grandioso”, concluiu Alexander. “Sabe, às vezes digo a mim mesmo que se você faz algo todo dia, na mesma hora, sempre o mesmo ato, sistematicamente, como um ritual, algum dia o mundo mudaria! Teria que mudar!”, concluiu Alexander — que no filme literalmente se sacrifica para que o mundo sobreviva.


O filme pode parecer apocalíptico, mas na verdade é um ritual de purificação através da relação entre o tempo e o sagrado. E depois de um 2012 tão duro para os movimentos sociais, a perspectiva de voltarmos à luta, como um ritual que se repete sistematicamente, apesar de tudo e de todos, me parece a única opção que nos resta neste início de ano. O sagrado, no fundo, talvez resida nessa persistência na repetição, até transformá-la em diferença, motor da mudança.




El Sacrificio Andrei Tarkovski (Subtitulos en español)

 

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