Crise capitalista e crime corporativo

 

 


Walden Bello
7 de agosto de 2002

Tradução Imediata

O desenredar das reputações das empresas que eram, uma vez, o orgulho de Wall Street continua, e ainda não se consegue ver o fim do processo. Mas uma coisa é certa: já frágil antes da Enron, a legitimidade do capitalismo global como sistema dominante de produção, distribuição e trocas passará por ainda maior erosão, mesmo na região central do sistema. Durante os dias dourados da chamada "Nova Economia", em 2000, uma pesquisa da Business Week revelou que 72 porcento dos americanos achavam que as corporações tinham muito poder sobre suas vidas. Agora a porcentagem deve estar muito mais alta.

Assim como a maciça supervalorização das ações levou ao colapso das dot.com em Wall Street, em 2000-2001, a fraude das corporações foi uma característica essencial da "Nova Economia". Para compreender isso, devemos começar com dois desenvolvimentos centrais à dinâmica do capitalismo global e à crise do excesso de capacidade ou superprodução na economia real. As duas últimas décadas verificaram a desregulamentação dos mercados financeiros, com a progressiva eliminação das barreiras ao movimento do capital entre fronteiras e setores econômicos diversos – por ex. A Lei Glass-Steagall dos EUA, com a eliminação progressiva do banimento das instituições financeiras de se engajarem em atividades bancárias tanto de investimento como comerciais. O resultado foi uma tremenda explosão da atividade especulativa que fez das finanças o setor mais lucrativo da economia global. Tão lucrativa se tornou a especulação que além das tradicionais atividades como empréstimo e negociação de ações e obrigações, os anos 80 e 90 testemunharam o desenvolvimento de cada vez mais sofisticados instrumentos financeiros como futuros, swaps, opções – as chamadas transações de derivativos, onde os lucros não provêm da negociação de ativos, mas da especulação sobre as expectativas de risco dos ativos subjacentes.

O atrativo das finanças em confronto com outros setores da economia, como o comércio e a indústria, foi acentuado pelo fato de que no fim dos anos 90, o volume de transações diárias nos mercados cambiais estrangeiros alcançou mais de US$ 1,2 trilhões, valor igual ao das transações de bens e serviços de todo um trimestre. Com o setor especulativo inundado de dinheiro, grande parte do qual provém de fora dos EUA, as empresas industriais se tornaram cada vez mais dependentes de crédito maciço e da venda de ações para o seu financiamento, em vez da retenção dos lucros. Essa dependência se tornou ainda mais acentuada no fim dos anos 90, quando o boom verificado nos anos do governo Clinton começou a afrouxar. Esse bom tinha resultado numa explosão de atividade de investimento que gerou um tremendo excesso de capacidade em todo o mundo. No fim dos anos 90, os indicadores eram desoladores. A capacidade do setor de computadores nos EUA estava crescendo a um ritmo de 40 porcento, anualmente, muito acima dos incrementos projetados da demanda. O setor automobilístico mundial estava vendendo apenas 74 porcento dos 70,1 milhões de carros produzidos por ano. Muitos investimentos ocorreram na infra-estrutura global das telecomunicações cujo tráfego transportado em redes de fibras óticas parece ter sido somente 2,5 porcento da capacidade. Os varejistas sofreram também, com gigantes como K-Mart e Wal-Mart sofrendo um tremendo excesso de capacidade de espaço de loja. Havia, como disse o economista Gary Shilling um "excesso de quase tudo".

Os lucros, aparentemente, pararam de crescer no setor corporativo dos EUA depois de 1997, levando as firmas a uma onda de fusões, algumas motivadas pela eliminação da competição, outras pela esperança de se beneficiarem de uma lucratividade renovada que decorreria de um processo místico chamado "sinergia". Entre os mais proeminentes se destacaram a união Daimler Benz-Chrysler-Mitsubishi, o controle da Nissan pela Renault, a fusão Mobil-Exxon, a transação BP-Amoco-Arco, a gigantesca "Star Alliance" no setor das aerolíneas, o acordo AOL Time Warner, o controle da empresa comunicações a distância MCI pela Worldcom. Na realidade, muitas fusões acabaram consolidando os custos, sem acrescentar nada à lucratividade, como foi o caso, por exemplo, do tão propagado acordo AOL Time Warner.

Quando não foi possível efetuar fusões, prevaleceu a competição homicida, resultando em bancarrotas como o do gigante varejista K-Mart.

. Com as magras ou inexistentes margens de lucro, a sobrevivência dependeu crescentemente dos financiamentos de Wall Street, os quais cada vez mais dependiam de híbridas instituições bancárias comerciais e de investimento, como JP Morgan Chase, Salomon Smith Barney, e Merrill Lynch, que competiam agressivamente entre si para armar os negócios. Com muito pouco para mostrar em resultados concretos, algumas empresas começaram a negociar promessas futuras por dinheiro líquido presente, algo que os administradores de investimento criativos sabiam fazer bem, no setor da alta tecnologia. Foi essa técnica aparentemente inovadora de negociar ilusões que resultou no aumento estratosférico do valor das ações do setor de alta tecnologia, onde elas perderam qualquer relação com as situações reais das empresas. A Amazon.Com, por exemplo, verificou um aumento constante nos valores das ações, mesmo quando ainda não tinha obtido nenhum lucro.

Mas no fim, negociar ilusões tinha as pernas curtas. A realidade interveio em 2000, resultando no aniquilamento de US $4,6 trilhões da riqueza dos investidores em Wall Street, um montante que, como ressalta Business Week, era a metade do Produto Interno Bruto dos EUA e quatro vezes a riqueza destruída no craque de 1987. O boom foi estendido por artificialmente por três ou quatro anos devido à mania das dot.com, mas a economia dos EUA entrou em recessão em 2001. E justamente porque a realidade foi mascarada por tanto tempo por uma ilusão de prosperidade, levará mais tempo para corrigir, se possível, os maciços desequilíbrios estruturais que foram sendo acumulados. No fim, não houve como contornar o fato que o balanço patrimonial tinha que mostrar um excesso de receita em confronto aos custos, para continuar a atrair os investidores. Essa foi a dura e simples realidade que levou à proliferação de elaboradas técnicas contábeis como as "parcerias" de Andrew Fastow, diretor financeiro da Enron, as quais eram mecanismos para manter os principais custos e obrigações fora do balanço patrimonial, assim como os métodos mais rudes, como os da Worldcom, mascarando seus custos atuais como despesas de capital. No contexto da desregulamentação e da abordagem benigna ao setor privado que acompanharam a visão neoliberal reinante, foi fácil que tais pressões fizessem erodir os chamados "firewalls" (paredes contra-incêndio) entre a administração e a diretoria, entre os analistas de ações e os corretores, entre os auditores e os auditados. Confrontados com o espectro comum de uma economia em espiral descendente e vacas mais magras para todos, os vigias e os vigiados livraram-se da pretensão de estarem sendo governados por um sistema de controle e se uniram para promover a ilusão de prosperidade, e assim, manter pelo maior tempo possível o ciclo de vida da tendência financeiro, despistando a realidade dos investidores.

Essa frente unida não poderia ser mantida por muito tempo, entretanto, há que era tentador demais, para os que conheciam a situação real, vender antes que a massa de investidores percebesse o que estava acontecendo. No fim, o acume nos negócios foi reduzido a intuir quando vender, catar o dinheiro e correr… evitando ações judiciais. Jeffrey Skilling, CEO da Enron, decifrou o mistério, resignou, e fez US$112 milhões na venda de suas opções de ações, poucos meses antes da queda. Dennis Kozlowski, da Tyco, não teve tanta sorte. Descontente com a ‘cervejinha’ de US$ 240 milhões, tentou continuar a ordenhar grana de sua vaca quando sua empresa naufragou; ele está sendo processado atualmente por evasão fiscal.

Mais perpetradores serão revelados, sem dúvida, e quem sabe, o elenco de protagonistas odiosos poderá incluir, no fim, George W. Bush e Dick Cheney. Mas é útil lembrar que embora haja um monte de vilões, é a dinâmica do sistema de desregulamentação, do capitalismo global impulsionado pelas finanças que é o problema fundamental, e isso não é algo que poderá ser banido com as sentenças piedosas Georgianas, do tipo "Não há capitalismo sem consciência", ou resolvido por soluções singelas como "bom governo corporativo".

Enquanto isso, os investidores estrangeiros estão abandonando os EUA, o dólar está em espiral descendente, e o enforcamento da capacidade excessiva está cada vez maior. A combinação dessa crise estrutural da economia com a crise de legitimidade do capitalismo neoliberal promete de fato um futuro volátil.

 

 

Capitalist Crisis And Corporate Crime

by Walden Bello

Global South

August 07, 2002

The unraveling of the reputations of firms that were once the toast of Wall Street continues and the end is not in sight. But one thing is certain: already fragile prior to Enron, the legitimacy of global capitalism as the dominant system of production, distribution, and exchange will be eroded even further, even in the heartland of the system. During the halcyon days of the so-called "New Economy" in 2000, a Business Week survey found that 72 per cent of Americans felt that corporations had too much power over their lives. That figure is likely to be much higher now.

Like the massive overvaluation of stocks that led to the dot.com collapse on Wall Street in 2000-2001, corporate fraud was an essential feature of the "New Economy." To understand this, one must begin with two developments that were central to the dynamics of global capitalism in the 1980's and 1990's: finance capital's becoming the driving force of the global economy and the crisis of overcapacity or overproduction in the real economy.

The last two decades saw the deregulation of financial markets, with barriers to the movement of capital across borders and across sectors-e.g., the US Glass-Steagall Act banning financial institutions from engaging in both investment banking and commercial banking-being progressively eliminated. The result was a tremendous burst of speculative activity that made finance the most profitable sector of the global economy. So profitable was speculation that in addition to traditional activities like lending and dealing in equities and bonds, the eighties and nineties witnessed the development of ever more sophisticated financial instruments such as futures, swaps, options-the so-called trade in derivatives, where profits came not from trading assets but from speculation on the expectations of the risk of underlying assets.

The attractiveness of finance relative to other sectors of the economy, like trade and industry, was underlined by the fact that in the late 1990's, the volume of transactions per day in foreign exchange markets came to over $1.2 trillion, which was equal to the value of trade in goods and services in an entire quarter.

With the speculative sector awash in cash, much of it from outside the US, industrial firms became more and more dependent on massive credit and the sale of shares for financing instead of on retained earnings. This dependence became even more marked in the late 1990's, as the boom of the Clinton years began to taper off. This boom had resulted in a burst of global investment activity that led to tremendous overcapacity all around. By the late 1990's, the indicators were stark. The US computer industry's capacity was rising at 40 per cent annually, far above projected increases in demand. The world auto industry was selling just 74 per cent of the 70.1 million cars it built each year. So much investment took place in global telecommunications infrastructure that traffic carried over fiber-optic networks was reported to be only 2.5 per cent of capacity. Retailers suffered as well, with giants like K-Mart and Wal-Mart hit with a tremendous surfeit of floor capacity. There was, as economist Gary Shilling put it, an "oversupply of nearly everything."

Profits apparently stopped growing in the US corporate sector after 1997, leading firms to a wave of mergers, some motivated by the elimination of competition, others by the hope to extract renewed profitability from some mystical process called "synergy." The most prominent of these were the Daimler Benz-Chrysler-Mitsubishi union, the Renault takeover of Nissan, the Mobil-Exxon merger, the BP-Amoco-Arco deal, the blockbuster "Star Alliance" in the airline industry, the AOL Time Warner deal, Worldcom's takeover of long distance carrier MCI. In fact, many mergers ended up consolidating costs without adding to profitability, as was the case, for instance, with the much-ballyhooed AOL Time Warner deal.

Where mergers could not be effected, cutthroat competition ruled, resulting in bankruptcies such as that of giant retailer K-Mart.

. With profit margins slim or nonexistent, survival increasingly meant greater and greater dependence on Wall Street financing, which increasingly came under the sway of hybrid investment-commercial bankers like JP Morgan Chase, Salomon Smith Barney, and Merrill Lynch, which aggressively competed to put together deals. With little to show in terms of an attractive bottom line, some firms took the route of trading future promise for hard cash in the present, something that creative investment managers were especially good at in the high tech sector. It was this seemingly innovative technique of trading on illusion that resulted in the stratospheric rise of share values in the high technology sector, where they lost all relation to the real state of companies. Amazon.Com, for instance, saw a constant rise in its share values even as it had yet to turn a profit.

But in the end, trading on illusion could only get you so far. Reality intervened in 2000, resulting in the wiping out of $4.6 trillion in investor wealth in Wall Street, a sum that, as Business Week pointed out, was half of the US Gross Domestic Product and four times the wealth wiped out in the 1987 crash. Its boom extended artificially for three or four years by the dot.com craze, the US economy entered into recession in 2001. And precisely because reality was masked so long by the illusion of prosperity, the longer it would take to rectify the massive structural imbalances that had built up, if at all.

In the end, there was no getting around the fact that your balance sheet had to show an excess of revenue over costs to continue to attract investors. This was the simple but harsh reality that led to the proliferation of fancy accounting techniques such as that of Enron finance officer Andrew Fastow's "partnerships," which were mechanisms to keep major costs and liabilities off the balance sheet, as well as cruder methods like Worldcom's masking of current costs as capital expenditures. In the context of deregulation and the benign approach to the private sector that accompanied the reigning neoliberal, "hands-off-business" outlook, it was easy for such pressures to erode the so-called "firewalls"-between management and board, stock analyst and stockbroker, auditor and audited. Faced with the common specter of an economy on the downspin and slimmer pickings for all, the watchdogs and the watched threw off the pretense of being governed by a system of checks and balances and united to promote the illusion of prosperity-and thus maintain the financial lifeline to unsuspecting investors--as long as possible.

This united front could not be maintained for long, however, since it was very tempting for those who knew the real score to sell before the mass of investors got wise to what was happening. In the end, business acumen was reduced to figuring out when to sell, take the money, and run…and avoid prosecution. Enron CEO Jeffrey Skilling read the handwriting on the wall, resigned, and made off with $112 million in the sale of his stock options a few months before the fall. Not so lucky was Tyco's Dennis Kozlowski, who was not content with raking off $240 million and was still trying to milk his cash cow when his company went under; he is currently under prosecution for tax evasion.

More culprits will be unmasked no doubt, and who knows, the cast of odious characters may ultimately even include George W. Bush and Dick Cheney. But it is worthwhile to remember that while there are villains aplenty, it is the dynamics of the system of deregulated, finance-driven global capitalism that is the central problem, and this is not something that can be banished by Georgian pieties like "There is no capitalism without conscience," or addressed with quaint solutions like "good corporate governance."

In the meantime, foreign investors are fleeing the US, the dollar is on a downspin, and the overhang of overcapacity is greater than ever. The mixture of this deepening structural crisis of the economy with the crisis of legitimacy of neoliberal capitalism promises a volatile future indeed.

 

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