{"id":970,"date":"2012-01-04T19:31:31","date_gmt":"2012-01-04T19:31:31","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=970"},"modified":"2012-01-04T19:32:18","modified_gmt":"2012-01-04T19:32:18","slug":"porque-os-estados-devem-pagar-600-vezes-mais-que-os-bancos-por-michel-rocard-e-pierre-larrouturou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=970","title":{"rendered":">> Porque os Estados devem pagar 600 vezes mais que os bancos? por Michel Rocard e Pierre Larrouturou"},"content":{"rendered":"<p>>> Porque os Estados devem pagar 600 vezes mais que os bancos?<br \/>\n<\/br><br \/>\nPor: Michel Rocard e Pierre Larrouturou<br \/>\nFonte: Le Monde 2 de janeiro de 2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/gamblepay.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/gamblepay.jpg\" alt=\"\" title=\"gamblepay\" width=\"308\" height=\"150\" class=\"aligncenter size-full wp-image-971\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/gamblepay.jpg 308w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/gamblepay-300x146.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 308px) 100vw, 308px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nS\u00e3o cifras inacredit\u00e1veis. J\u00e1 se sabia que, em fins de 2008, George Bush e Henry Paulson tinham colocado sobre a mesa 700 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (540 bilh\u00f5es de euros) para salvar os bancos dos EUA. Uma soma colossal. Mas recentemente, um juiz estadunidense deu raz\u00e3o aos jornalistas da Bloomberg que exigiam transpar\u00eancia de seu banco central quanto \u00e0 ajuda dada ao sistema banc\u00e1rio.<br \/>\nDepois de terem vasculhado 20.000 p\u00e1ginas de diferentes documentos, a Bloomberg mostra que o Federal Reserve (FED)  emprestou secretamente aos bancos em dificuldade a quantia de 1.200 bilh\u00f5es a uma taxa incrivelmente baixa de 0,01%.<br \/>\n<\/br><br \/>\nNo mesmo momento, em muitos pa\u00edses, as popula\u00e7\u00f5es sofrem com os planos de austeridade impostos pelos governos aos quais os mercados financeiros n\u00e3o aceitam emprestar bilh\u00f5es a taxas de juros inferiores aos 6,7% ou aos 9%. Asfixiados por essas taxas de juros, os governos s\u00e3o \u201cobrigados\u201d a bloquear aposentadorias, subs\u00eddios familiares ou sal\u00e1rios de funcion\u00e1rios p\u00fablicos e a cortar os investimentos, e isso faz aumentar o desemprego e logo nos far\u00e1 afundar numa recess\u00e3o muito grave.<br \/>\n<\/br><br \/>\nSer\u00e1 normal que, em caso de crise, os bancos privados, que se financiam normalmente \u00e0 taxa de 1% junto aos bancos centrais, possam se beneficiar de taxas de 0,01%, enquanto certos Estados, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o obrigados a pagar taxas 600 ou 800 vezes mais altas? \u201cSer governados pelo dinheiro organizado \u00e9 t\u00e3o perigoso quanto ser governado pelo crime organizado\u201d, afirmava Roosevelt. Ele tinha raz\u00e3o. N\u00f3s estamos vivendo uma crise do capitalismo n\u00e3o regulamentado que pode se revelar um suic\u00eddio para a nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Como afirmam o escritor Edgar Morin e St\u00e9phane Hessel, em Le Chemin de l\u2019\u00e9sperance (Fayard 2011) (O Caminho da esperan\u00e7a \u2013 N.d.T.), nossas sociedades devem escolher: a metamorfose ou a morte?<br \/>\n<\/br><br \/>\nSer\u00e1 que esperaremos at\u00e9 que seja tarde demais para abrir os olhos? Ser\u00e1 que esperaremos at\u00e9 que seja tarde demais para compreender a gravidade da crise e escolher em conjunto a metamorfose antes do colapso das nossas sociedades? N\u00e3o temos a possibilidade aqui de desenvolver as dez ou quinze reformas concretas que tornariam poss\u00edvel essa metamorfose. Queremos somente demonstrar que \u00e9 poss\u00edvel discordar de Paul Krugman quando explica que a Europa est\u00e1 entrando em uma \u201cespiral negativa\u201d. Como dar oxig\u00eanio \u00e0s nossas finan\u00e7as p\u00fablicas? Como agir sem modificar os tratados, o que vai exigir meses de trabalho e se tornar\u00e1 imposs\u00edvel se a Europa for cada vez mais detestada por seus cidad\u00e3os?<br \/>\n<\/br><br \/>\nAngela Merkel tem raz\u00e3o quando diz que nada deve encorajar os governos a continuar a fuga para frente. Mas o essencial das quantias que os nossos Estados tomam em empr\u00e9stimo nos mercados financeiros diz respeito a d\u00edvidas velhas. Em 2012, a Fran\u00e7a deve tomar emprestado cerca de 400 bilh\u00f5es: 100 bilh\u00f5es que correspondem ao d\u00e9ficit do or\u00e7amento (que seria quase nulo se fossem anuladas as redu\u00e7\u00f5es de impostos outorgadas nos \u00faltimos dez anos) e 300 bilh\u00f5es que correspondem a velhas d\u00edvidas, que v\u00e3o vencer e que somos incapazes de reembolsar se n\u00e3o nos endividarmos novamente pelas mesmas quantias algumas horas antes de reembols\u00e1-las.<br \/>\n<\/br><br \/>\nCobrar taxas de juros colossais para d\u00e9bitos acumulados cinco ou dez anos atr\u00e1s n\u00e3o ajuda a responsabilizar os governos mas a asfixiar nossas economias, fazendo lucrar os bancos privados; com o pretexto que h\u00e1 um risco, emprestam a taxas muito elevadas sabendo que n\u00e3o h\u00e1 qualquer risco real, porque o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (ESFS)  vai garantir a solv\u00eancia dos Estados devedores.<br \/>\n<\/br><br \/>\n\u00c9 preciso acabar com essa concep\u00e7\u00e3o de dois pa\u00edses duas medidas: inspirando-nos naquilo que fez o banco central estadunidense para salvar o sistema financeiro, propomos que \u201ca velha d\u00edvida\u201d dos nossos Estados possa ser refinanciada a uma taxa pr\u00f3xima de 0%.<br \/>\n<\/br><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 preciso modificar os tratados europeus para colocar em pr\u00e1tica essa ideia: certo, o Banco Central Europeu (BCE) n\u00e3o est\u00e1 autorizado a emprestar aos Estados membros, mas pode emprestar sem limite aos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de cr\u00e9dito (artigo 21.3 do estatuto do sistema europeu dos bancos centrais) e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es internacionais (artigo 23 do mesmo estatuto). Ele pode, portanto, emprestar a uma taxa de 0,01% ao Banco Europeu de Investimentos (BEI) ou \u00e0 Caixa dos Dep\u00f3sitos, e esses, por sua vez, podem emprestar a 0,02% aos Estados que se endividaram, para o reembolso de suas velhas d\u00edvidas.<br \/>\n<\/br><br \/>\nNada impede de atuar esses financiamentos a partir de janeiro! Isso n\u00e3o \u00e9 suficientemente dito: o or\u00e7amento da It\u00e1lia apresenta um excedente prim\u00e1rio. Estaria, assim, em equil\u00edbrio se a It\u00e1lia n\u00e3o tivesse que pagar pelos custos financeiros cada vez mais elevados. \u00c9 preciso deixar que a It\u00e1lia afunde na recess\u00e3o e na crise pol\u00edtica ou devemos aceitar de p\u00f4r um basta aos lucros financeiros? A resposta deveria ser evidente para quem age a favor do bem comum.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO papel que os tratados atribuem ao BCE \u00e9 o de vigiar a estabilidade dos pre\u00e7os. Como \u00e9 que ele pode n\u00e3o reagir quando alguns pa\u00edses verificam os rendimentos de suas obriga\u00e7\u00f5es do Tesouro dobrar ou triplicar em poucos meses? O BCE deve tamb\u00e9m controlar a estabilidade de nossas economias. Como \u00e9 que ele pode deixar de agir quando o pre\u00e7o da d\u00edvida amea\u00e7a nos fazer cair numa recess\u00e3o que, segundo o governador do Banco da Inglaterra, seria \u201cmais grave que aquela de 1930\u201d?<br \/>\n<\/br><br \/>\nSe nos atemos aos tratados, nada impede ao BCE de agir com for\u00e7a para fazer baixar o custo da d\u00edvida. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 obst\u00e1culos que os impe\u00e7am de agir como, pelo contr\u00e1rio, cada elemento o leva nessa dire\u00e7\u00e3o. Se o BCE fosse fiel aos tratados, deveria fazer de tudo para diminuir o custo da d\u00edvida p\u00fablica. \u00c9 opini\u00e3o geral que a infla\u00e7\u00e3o seja a coisa mais inquietante.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm 1989, depois da queda do Muro de Berlim, foi suficiente um m\u00eas para que Helmut Kohl, Fran\u00e7ois Mitterrand e outros chefes de Estado europeus decidissem criar a moeda \u00fanica. Depois de quatro anos de crise, o que \u00e9 que os nossos dirigentes ainda est\u00e3o esperando para dar oxig\u00eanio \u00e0s nossas finan\u00e7as p\u00fablicas? O mecanismo que propomos poderia ser aplicado imediatamente, seja para diminuir o custo da velha d\u00edvida que para financiar os investimentos fundamentais para o nosso futuro, como por exemplo, um plano europeu de economia energ\u00e9tica.<br \/>\n<\/br><br \/>\nAqueles que requerem a negocia\u00e7\u00e3o de um novo tratado europeu t\u00eam raz\u00e3o: com os pa\u00edses que o desejam \u00e9 preciso construir uma Europa pol\u00edtica capaz de agir sobre a globaliza\u00e7\u00e3o: uma Europa verdadeiramente democr\u00e1tica como j\u00e1 propunham Wolfgang Sch\u00e4uble e Karl Lamers em 1994, ou Joschka Fischer em 2000. Ocorre um tratado de converg\u00eancia social e uma verdadeira governan\u00e7a econ\u00f4mica.<br \/>\n<\/br><br \/>\nTudo isso \u00e9 indispens\u00e1vel. Mas nenhum novo tratado poder\u00e1 ser adotado se o nosso continente afundar numa \u201cespiral negativa\u201d e os cidad\u00e3os come\u00e7arem a detestar tudo o que \u00e9 decidido em Bruxelas. \u00c9 urgente enviar aos cidad\u00e3os um sinal muito claro: a Europa n\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os das lobbies financeiras.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEst\u00e1 a servi\u00e7o de seus cidad\u00e3os.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO artigo original em franc\u00eas encontra-se aqui:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.lemonde.fr\/idees\/article\/2012\/01\/02\/pourquoi-faut-il-que-les-etats-payent-600-fois-plus-que-les-banques_1624815_3232.html\">http:\/\/www.lemonde.fr\/idees\/article\/2012\/01\/02\/pourquoi-faut-il-que-les-etats-payent-600-fois-plus-que-les-banques_1624815_3232.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>>> Porque os Estados devem pagar 600 vezes mais que os bancos? 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