{"id":90,"date":"2009-12-16T14:00:23","date_gmt":"2009-12-16T14:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=90"},"modified":"2009-12-16T14:59:54","modified_gmt":"2009-12-16T14:59:54","slug":"entrevista-com-najla-dos-passos-autora-da-tese-%e2%80%9ca-revista-veja-e-a-invencao-do-%e2%80%98mst-terrorista%e2%80%99%e2%80%9d-por-ihu-on-line","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=90","title":{"rendered":">>Entrevista com Najla dos Passos, autora da tese \u201cA revista Veja e a inven\u00e7\u00e3o do \u2018MST terrorista\u2019\u201d, por IHU On-Line"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/imagens\/logos\/logoimediartivismo.jpg\" alt=\"null\" \/><br \/>\n<strong>Desvendar as formas com que a \u201ccultura de opress\u00e3o\u201d aos movimentos populares opera no Brasil \u00e9 o objetivo da  disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u201cA revista Veja e a inven\u00e7\u00e3o do \u2018MST terrorista\u2019\u201d, de Najla dos Passos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sobre a imagem do MST constru\u00edda pela m\u00eddia brasileira, mais especificamente pela revista Veja, e a representa\u00e7\u00e3o do movimento pela sociedade civil, Najla conversou, por e-mail, com a IHU On-Line.<\/strong> <\/p>\n<p><em><strong>Najla dos Passos \u00e9 graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Linguagens pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). J\u00e1 atuou como professora da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Universidade de Cuiab\u00e1 (UNIC). Atualmente, trabalha com assessoria de imprensa em Bras\u00edlia (DF).<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> \u2013 Voc\u00ea faz um resgate hist\u00f3rico dos trabalhadores que lutavam por terra que vem desde o descobrimento. Qual a imagem que o povo sem-terra teve nesses momentos hist\u00f3ricos, como quando os portugueses chegaram ao Brasil, depois com a vinda dos portugueses etc.? <\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos <\/strong>&#8211; As classes dominantes no Brasil sempre foram extremamente h\u00e1beis em utilizar o repert\u00f3rio cultural dispon\u00edvel nas suas respectivas \u00e9pocas para desumanizar os mais pobres, os exclu\u00eddos. Quando os portugueses chegaram ao Brasil e encontraram os \u00edndios vivendo fartamente e sem conceber a ideia de que a terra n\u00e3o era um bem comum, usaram todo o arsenal poss\u00edvel no repert\u00f3rio cultural da \u00e9poca para convencer o mundo de que eles eram selvagens, atrasados, bo\u00e7ais&#8230; que n\u00e3o eram seres humanos. Com isso, justificavam a pr\u00e1tica de exterm\u00ednio que utilizavam contra aqueles que n\u00e3o se deixavam catequizar, n\u00e3o aceitavam a nova ordem estabelecida.  O pior \u00e9 que muito dessa vis\u00e3o distorcida dos \u00edndios sobrevive at\u00e9 hoje: quantos ainda os associam \u00e0 pregui\u00e7a, ao atraso, \u00e0 inabilidade para o trabalho?<\/p>\n<p>Da mesma forma, os negros africanos foram tratados como \u201cobjetos animalescos\u201d, sempre associados ao perigo e \u00e0 selvageria. Quando resistiam \u00e0 escravid\u00e3o, tornavam-se, como os \u00edndios, objeto de repress\u00e3o impiedosa. \u00c9 interessante notar que os termos bando, quadrilha e mesmo terror j\u00e1 eram amplamente utilizados pelos jornais da \u00e9poca para transform\u00e1-los em coisas. Data desta \u00e9poca, tamb\u00e9m, as primeiras refer\u00eancias ao discurso de que o trabalho na terra \u00e9 indigno dos homens cultos, letrados, dotados de civilidade. Decorr\u00eancia disso \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o da ideia de que a foice, mais do que um instrumento de trabalho, \u00e9 uma arma. Ideia que corrobora com a associa\u00e7\u00e3o largamente difundida at\u00e9 nossos dias da rela\u00e7\u00e3o entre trabalhador rural e criminalidade. <\/p>\n<p>Infelizmente, nem mesmo a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica alterou esse estado de \u201ccoisas\u201d. Os sertanejos que se rebelaram contra a mis\u00e9ria e a falta de oportunidade que assolavam o campo tamb\u00e9m foram marginalizados pelo discurso dominante. O melhor exemplo \u00e9, sem d\u00favida, o tratamento destinado aos sertanejos de Canudos, at\u00e9 porque isso se deu em uma \u00e9poca de grande evolu\u00e7\u00e3o dos recursos necess\u00e1rios para a confec\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o dos jornais. Os pobres camponeses foram tratados como animais retr\u00f3grados que \u201cmanchavam\u201d a constru\u00e7\u00e3o do Brasil moderno, livre, republicano. Foi a\u00ed que a constru\u00e7\u00e3o cultural da dicotomia entre a cidade\/civiliza\u00e7\u00e3o versus campo\/atraso, que a imprensa hoje faz parecer t\u00e3o moderna e atual, firmou-se como premissa do discurso republicano. Mesmo os imigrantes brancos que vieram tentar a sorte no Brasil foram tratados de forma pejorativa e discriminat\u00f3ria, mostrando que a quest\u00e3o de classe, neste aspecto, sobrep\u00f5e-se \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero e ra\u00e7a, por exemplo.  <\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Um dos questionamentos de sua disserta\u00e7\u00e3o \u00e9 no que se baseia o discurso que considera o MST terrorista. Como voc\u00ea acha que a m\u00eddia brasileira construiu esse estere\u00f3tipo?<\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos &#8211;<\/strong> A postura da m\u00eddia convencional de equiparar o MST a organiza\u00e7\u00f5es terroristas sempre me pareceu t\u00e3o leviana, que fiquei sinceramente intrigada com o tema. Como jornalista, acompanhei por muitos anos, trabalhando para a pr\u00f3pria imprensa convencional, o processo de ocupa\u00e7\u00e3o de terras, os conflitos agr\u00e1rios, as a\u00e7\u00f5es do MST. Conhecia a processo suficientemente bem para ter clareza que o MST \u00e9 um movimento pac\u00edfico, desarmado, disposto a utilizar muitos dos tr\u00e2mites democr\u00e1ticos a que temos acesso na nossa sociedade. Com a minha pesquisa, descobri que foi justamente nesses elementos j\u00e1 cristalizados na nossa cultura que essa associa\u00e7\u00e3o absurda se baseava. As imagens se repetem: \u00e9 o sem-terra perigoso, indom\u00e1vel, sempre \u201carmado\u201d com foices, o analfabeto bo\u00e7al, ignorante e atrasado que impede o pa\u00eds de se desenvolver, modernizar-se e tornar-se o t\u00e3o sonhado pa\u00eds do futuro&#8230; s\u00e3o loucos insanos, como os terroristas isl\u00e2micos, pintados como fan\u00e1ticos dispostos a impedir a modernidade global at\u00e9 mesmo com a pr\u00f3pria vida, se necess\u00e1rio for. O MST, de v\u00edtima, passou a ser apontado como a principal causa da viol\u00eancia no campo, como o respons\u00e1vel por crimes de toda natureza, foi associado a fac\u00e7\u00f5es criminosas urbanas como o PCC, acusado de fanatizar as crian\u00e7as, incentivando-as a adotar posturas ideol\u00f3gicas consideradas atrasadas, como o comunismo e o socialismo, e, enfim, considerado o respons\u00e1vel por colocar em xeque toda a ordem democr\u00e1tica estabelecida no Brasil. <\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> E pela Veja, especificamente?<\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos &#8211; <\/strong>A Revista Veja \u00e9 um fen\u00f4meno editorial sem precedentes. \u00c9 a quarta revista mais vendida do mundo, apesar de ser editada em um pa\u00eds que ainda envergonha pelo n\u00famero de analfabetos totais e funcionais. Pela sua penetra\u00e7\u00e3o, for\u00e7a pol\u00edtica e mesmo pelo seu tempo maior de elabora\u00e7\u00e3o, funciona como uma esp\u00e9cie de usina ideol\u00f3gica da classe dominante, na qual s\u00e3o testadas as ideias que depois ser\u00e3o difundidas pelo restante da m\u00eddia comprometida com o capital. Desde que foi criada, no per\u00edodo mais duro da Ditadura Militar, contou com grande aporte de capital estrangeiro e sempre defendeu os interesses do neoliberalismo norte-americano acima de quaisquer outros. N\u00e3o por acaso, elegeu o MST como o principal inimigo do avan\u00e7o neoliberal no Brasil, desde o in\u00edcio dos anos 1990, e n\u00e3o mediu esfor\u00e7os para recha\u00e7\u00e1-lo, direcionando a postura do restante da m\u00eddia neoliberal em rela\u00e7\u00e3o ao Movimento. A diferen\u00e7a \u00e9 que, at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Lula, a Veja associava o MST ao comunismo, ao perigo vermelho. Mas depois que o Brasil elegeu um presidente de esquerda, precisou buscar um novo discurso para refor\u00e7ar os aspectos negativos do Movimento. E o encontrou justamente no discurso da Guerra contra o Terror, capitaneado pelos Estados Unidos, ap\u00f3s os eventos de 11 de setembro de 2001.<\/p>\n<p>Mas, convenhamos, que nem mesmo para Veja \u00e9 tarefa f\u00e1cil transformar um movimento pac\u00edfico e querido dos brasileiros em organiza\u00e7\u00e3o terrorista. A revista precisou visitar a fundo o imagin\u00e1rio cultural do brasileiro para descobrir meios de sustentar essa acusa\u00e7\u00e3o. E qual seria a figura dessa nossa hist\u00f3ria sem fortes tradi\u00e7\u00f5es terroristas que melhor se adequaria \u00e0 imagem desses fan\u00e1ticos religiosos atrasados, incapazes de entender as premissas do progresso? A Veja foi muito esperta em resgatar Ant\u00f4nio Conselheiro, personagem hist\u00f3rico que foi pe\u00e7a-chave na revolta de Canudos e que teve sua imagem amplamente deturpada pela m\u00eddia de sua \u00e9poca. Da falsa imagem de um Ant\u00f4nio Conselheiro fan\u00e1tico e insano, propagada pelo discurso hegem\u00f4nico, a revista reconstruiu a figura de uma das mais fortes lideran\u00e7as do MST, estendendo, assim, para ele, as caracter\u00edsticas negativas atribu\u00eddas ao l\u00edder sertanejo do final do s\u00e9culo XIX.  Fundamentada nos preconceitos pr\u00f3prios da ci\u00eancia da \u00e9poca contra os brasileiros pobres e simples do sert\u00e3o, eternizados pela obra Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, a revista re-significou os sem-terra \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a dos conselheiristas, j\u00e1 mascarados e massacrados pela ret\u00f3rica propagada pela imprensa e pelos intelectuais do s\u00e9culo XIX. De brasileiros humildes e v\u00edtimas de um Estado omisso, os sem-terra, tal como os sertanejos de Canudos, foram transformados em representantes da \u201csub-ra\u00e7a brasileira\u201d que, \u00e0 margem da ordem e do progresso da civiliza\u00e7\u00e3o letrada, constituem a imagem do Brasil baderneiro e atrasado, combatido pelas for\u00e7as hegem\u00f4nicas que, desde a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, dizem querer um pa\u00eds moderno e civilizado, mesmo que apenas para uma parcela \u00ednfima da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Quais s\u00e3o os principais elementos apontados na acusa\u00e7\u00e3o ao MST?<\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos <\/strong>&#8211; S\u00e3o tanto elementos residuais da tradi\u00e7\u00e3o do pensamento colonial, imperialista e republicano brasileiro, alguns j\u00e1 citados, como tamb\u00e9m elementos emergentes, pr\u00f3prios da cultura do capitalismo tardio, como o p\u00e2nico generalizado da viol\u00eancia e do terrorismo, apropriado com o prop\u00f3sito de imputar o rep\u00fadio absoluto \u00e0 simples ideia da exist\u00eancia do MST. Procurando carimbar o movimento como uma organiza\u00e7\u00e3o baderneira e beligerante, a revista chega ao extremo de divulgar uma liga\u00e7\u00e3o jamais comprovada entre lideran\u00e7as do MST e do PCC, a organiza\u00e7\u00e3o criminosa criada por presidi\u00e1rios paulistas, respons\u00e1vel por alguns dos mais impressionantes epis\u00f3dios de viol\u00eancia urbana no Brasil dos \u00faltimos anos. Parecendo desconhecer o fato de que o MST \u00e9 efeito, e n\u00e3o causa das mazelas de um pa\u00eds marcado por uma desigualdade \u00edmpar e, por isso, violento, a Veja omite e adultera o discurso de sustenta\u00e7\u00e3o do movimento dos sem-terra, at\u00e9 o limite de classific\u00e1-lo como intolerante e avesso \u00e0 ci\u00eancia, como ficou bastante claro na cobertura do epis\u00f3dio de ocupa\u00e7\u00e3o da Aracruz. Como se a ci\u00eancia, como qualquer outra forma de discurso, n\u00e3o fosse apropriada pelas for\u00e7as hegem\u00f4nicas para respaldar seus objetivos de manuten\u00e7\u00e3o do status quo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como esta constru\u00e7\u00e3o influencia na imagem que os brasileiros t\u00eam do movimento? <\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos &#8211;<\/strong> Em 1998, o IBOPE apurou que 80% dos brasileiros eram favor\u00e1veis \u00e0 reforma agr\u00e1ria e apenas 12% eram contr\u00e1rios.  Em 2003, uma nova pesquisa realizada pelo mesmo instituto revelou que 41% dos entrevistados se declararam \u2018totalmente contra\u2019 os sem-terra e outros 13% \u2018parcialmente contra\u2019.  Os que se diziam \u2018totalmente a favor\u2019 ou \u2018parcialmente a favor\u2019 somavam 40%. 65% desaprovaram as formas com que o movimento agia, contra 30% dos ouvidos que aprovaram. O trabalho da imprensa neoliberal, portanto, influencia sim a imagem que o brasileiro faz do movimento. Mas n\u00e3o a determina por completo, como muitos te\u00f3ricos da comunica\u00e7\u00e3o julgam capaz. A a\u00e7\u00e3o de outras for\u00e7as sociais, nesse caso contra-hegem\u00f4nicas, impede que essa ideia, embora dominante, torne-se unanimidade. Por isso a import\u00e2ncia do trabalho de divulga\u00e7\u00e3o e de den\u00fancia dos jornalistas, militantes e intelectuais nos jornais populares, sindicais, na imprensa p\u00fablica, nas universidades, nos f\u00f3runs sociais etc.  <\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Sua reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9 que o MST, entra governo e sai governo, permanece ofendido pela imprensa neoliberal. O governo Lula foi uma decep\u00e7\u00e3o para o movimento?<\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos &#8211;<\/strong> N\u00e3o posso, de forma alguma, falar pelo movimento. E sei que a quest\u00e3o \u00e9 bastante controversa, inclusive dentro do pr\u00f3prio MST. Mas \u00e9 imposs\u00edvel negar que, hoje, a concretiza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria no Brasil permanece como uma utopia distante, e o futuro do MST como uma inc\u00f3gnita. O governo Lula, apesar das rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas com os sem-terra, nada fez para efetivar a reforma agr\u00e1ria que o movimento tanto anseia. A contribui\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o do PT ao setor foi t\u00e3o \u00ednfima que Jo\u00e3o Pedro Stedile chegou a declarar, em entrevista \u00e0 imprensa, que Lula operou uma verdadeira \u201ccontrarreforma agr\u00e1ria\u201d no campo brasileiro. A m\u00e9dia de fam\u00edlias assentadas por ano foi inferior, inclusive, do que as beneficiadas com um peda\u00e7o de terra durante o governo Fernando Henrique Cardoso. E nada de infraestrutura, nem de libera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito rural. Por outro lado, h\u00e1 companheiros que apontam a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no campo e o aumento da renda dos trabalhadores rurais por meio de programas sociais como o Bolsa Fam\u00edlia, como avan\u00e7os dos governos Lula&#8230; Uma coisa, por\u00e9m, \u00e9 certa. A ofensiva da imprensa neoliberal contra o MST continua intensa, mude ou n\u00e3o o governo e a conjuntura.  \u00c9 poss\u00edvel concluir tamb\u00e9m, a partir dessa pesquisa que, ao contr\u00e1rio do que a revista Veja apregoa em nome das for\u00e7as hegem\u00f4nicas, n\u00e3o \u00e9 o MST que \u00e9 anacr\u00f4nico e atrasado, mas sim a elite brasileira comprometida com o ide\u00e1rio neoliberal. Afinal, \u00e9 essa elite que precisa se ancorar em um discurso ultrapassado, insustent\u00e1vel cientificamente, j\u00e1 largamente desgastado pela imprensa de s\u00e9culos atr\u00e1s, em tentativas desesperadas de combater a luta dos trabalhadores em geral, nominados por ela de \u201cclasses perigosas\u201d, em uma rep\u00fablica proclamada pelo alto. <\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como a \u00f3tica do materialismo cultural de Raymond Williams \u00e9 tratada neste estudo?<\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos &#8211;<\/strong> Considero Williams um autor fant\u00e1stico, justamente porque ele amplia a vis\u00e3o marxista mais tradicional de que a cultura \u00e9 apenas um reflexo das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas estabelecidas, seguindo a trilha aberta antes por Gramsci e Bakhtin. Para o autor, a cultura \u00e9 uma arena em que for\u00e7as divergentes se confrontam na disputa pelo espa\u00e7o hegem\u00f4nico. N\u00e3o est\u00e1 associada apenas \u00e0 doutrina\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o, t\u00e3o ressaltada pelos autores que se fixam no estudo da ideologia. E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 apenas uma experi\u00eancia particular, uma investida art\u00edstica. \u00c9, sim, todo um modo de vida, influenciado e re-significado, inclusive, pelas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es de seu tempo hist\u00f3rico. \u00c9 um instrumental que nos permite, por exemplo, entender porque nem todos os brasileiros consideram o MST uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista, apesar da grande ofensiva da imprensa.  Permite-nos tamb\u00e9m entender como elementos residuais, ligados \u00e0s mais antigas tradi\u00e7\u00f5es, podem se fazer atuais e presentes para re-significar situa\u00e7\u00f5es novas, considerando e legitimando o estudo das concep\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, da hist\u00f3ria das ideias, das cren\u00e7as cient\u00edficas e mesmo das teses intelectuais. E, a partir deste entendimento, permite-nos criar novas formas de lutar para reverter esse quadro. <\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Porque a data de 11 de setembro \u00e9 um marco para o seu trabalho?<\/p>\n<p><strong>Najla dos Passos &#8211;<\/strong> O 11 de setembro inaugura a chamada Guerra contra o Terror que, com a desculpa de exterminar o terrorismo do mundo, cria novos mecanismos e elementos para desumanizar o diferente, impor preconceitos e exaltar supremacias. \u00c9 o epis\u00f3dio que inaugura, para utilizar as palavras de Williams, a principal \u201cestrutura de sentimento\u201d (ou a caracter\u00edstica mais particular) da nossa gera\u00e7\u00e3o: uma gera\u00e7\u00e3o assustada, com um medo irracional de um perigo que, muitas vezes, ela n\u00e3o consegue identificar racionalmente, e acaba direcionando-o, com a ajuda h\u00e1bil da imprensa, ao pobre, ao negro, ao sem-terra, ao favelado, aos \u201cde baixo\u201d, como definiria Williams. Uma gera\u00e7\u00e3o t\u00e3o bombardeada por imagens e informa\u00e7\u00f5es que acaba perdendo suas refer\u00eancias de realidade e, acuada, come\u00e7a a acreditar que a causa da viol\u00eancia est\u00e1 nos assentamentos, nas periferias, nas favelas, e n\u00e3o em um sistema econ\u00f4mico que exclui cada vez mais, que destr\u00f3i o meio ambiente, que produz a guerra. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desvendar as formas com que a \u201ccultura de opress\u00e3o\u201d aos movimentos populares opera no Brasil \u00e9 o objetivo da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u201cA revista Veja e a inven\u00e7\u00e3o do \u2018MST terrorista\u2019\u201d, de Najla dos Passos. 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