{"id":85,"date":"2009-11-21T20:49:37","date_gmt":"2009-11-21T20:49:37","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=85"},"modified":"2009-11-21T20:53:58","modified_gmt":"2009-11-21T20:53:58","slug":"os-palestinos-da-amazonia-por-carlos-latuff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=85","title":{"rendered":">>Os Palestinos da Amaz\u00f4nia, por Carlos Latuff"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/imagens\/logos\/logolance.jpg\" alt=\"null\" \/><br \/>\n<strong>Cansados de esperar por uma reforma agr\u00e1ria que nunca chega, camponeses<br \/>\nfazem a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria&#8221; na Amaz\u00f4nia.<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A convite do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO),<br \/>\npassei uma semana na companhia de lavradores nos acampamentos da Liga dos<br \/>\nCamponeses Pobres (LCP), no interior do estado de Rond\u00f4nia. Nestes meus<br \/>\ndias ao lado dos alde\u00f5es, tive a honra de comer de sua comida, participar<br \/>\nde suas conversas, de sua rotina, tomar conhecimento de suas necessidades,<br \/>\nde suas demandas e seus sonhos. Povo forte, que sofre o diabo, mas que n\u00e3o<br \/>\ntem medo dele.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/KJvC7t67Wsg&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/KJvC7t67Wsg&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>Por duas vezes passei a noite numa cabana de palha, onde vivem seu Abel e<br \/>\nsua esposa Zilda. Reservaram uma cama pra mim, me receberam com todo<br \/>\ncarinho e gentileza. Mesmo na simplicidade daquela choupana, havia uma<br \/>\nextrema preocupa\u00e7\u00e3o em me agradar, na melhor tradi\u00e7\u00e3o de hospitalidade do<br \/>\nhomem do campo. Acordava-se bem cedo, ainda escuro. &#8220;Bom dia, dormiu<br \/>\nbem?&#8221;. Escova de dentes na m\u00e3o, rumo ao rio que beira a cabana. No moedor<br \/>\na manivela, os gr\u00e3os de caf\u00e9 eram preparados para o desjejum. O leite<br \/>\nfervia no fog\u00e3o a lenha. A mesa posta, os copos, os talheres, o sil\u00eancio<br \/>\nera discretamente interrompido tanto por mim quanto pelos p\u00e1ssaros. Daqui<br \/>\na pouco seu Abel j\u00e1 estava seguindo para a ro\u00e7a, pra cortar lenha, pra<br \/>\ncapinar a terra, irrigar as mudas, trabalho \u00e1rduo para transformar seu<br \/>\npequeno peda\u00e7o de selva em lar. Os lavradores humildes precisam de bem<br \/>\npouco para viver uma vida digna, e nem mesmo isso lhes \u00e9 permitido. Com o<br \/>\nargumento do combate ao desmatamento, o IBAMA persegue e aplica multas<br \/>\naltas aos que vivem da agricultura de subsist\u00eancia, usam da Pol\u00edcia<br \/>\nFederal, da For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a e mesmo tropas do Ex\u00e9rcito para<br \/>\nsufocar as comunidades, como no caso de Rio Pardo, onde barreiras foram<br \/>\nerguidas nas entradas e sa\u00eddas, pessoas e ve\u00edculos revistados, postos de<br \/>\ncombust\u00edvel do acampamento removidos, um rigor que n\u00e3o tem sido aplicado<br \/>\naos latifundi\u00e1rios, que transformam vastas extens\u00f5es de floresta nativa em<br \/>\npasto ou monocultura.<\/p>\n<p>O hist\u00f3rico de viol\u00eancia naquela \u00e1rea j\u00e1 vem de longe. No Brasil Col\u00f4nia,<br \/>\no vale do Guapor\u00e9 foi palco de disputas imperialistas entre Portugal e<br \/>\nEspanha, que s\u00f3 terminaram com as demarca\u00e7\u00f5es de terra acordadas pelo<br \/>\nTratado de Madrid em 1750. No s\u00e9culo 18 com o ciclo da minera\u00e7\u00e3o e<br \/>\nparticularmente no final do s\u00e9culo 19 com o ciclo da borracha, uma grande<br \/>\nleva de migrantes de diversas partes do Brasil foram atra\u00eddos para a<br \/>\nregi\u00e3o, causando conflitos agr\u00e1rios com a vizinha Bol\u00edvia, que foram<br \/>\nresolvidos em 1903 com o Tratado de Petr\u00f3polis. Em 1943, como resultado do<br \/>\ndesmembramento de \u00e1reas dos estados do Amazonas e Mato Grosso, foi criado<br \/>\npor Get\u00falio Vargas o Territ\u00f3rio Federal de Guapor\u00e9, tendo sido rebatizado<br \/>\npara Rond\u00f4nia em 1956, em homenagem ao Marechal C\u00e2ndido Rondon, militar<br \/>\nque entre 1910 e 1940 comandou expedi\u00e7\u00f5es de Cuiab\u00e1 at\u00e9 o Amazonas para<br \/>\ninstalar linhas telegr\u00e1ficas e levar a boa e velha civiliza\u00e7\u00e3o branca para<br \/>\no seio dos povos ind\u00edgenas. Rond\u00f4nia torna-se estado em 1982.<br \/>\nA Liga dos Camponeses Pobres surgiu em agosto de 1995, quando<br \/>\ntrabalhadores rurais que ocupavam terras da Fazenda Santa Elina, na cidade<br \/>\nde Corumbiara, resistiram ao brutal despejo promovido por policiais e<br \/>\njagun\u00e7os, resultando na morte de 11 pessoas (em n\u00fameros oficiais),<br \/>\nincluindo a menina Vanessa de apenas 6 anos, no que ficou conhecido como o<br \/>\n&#8220;Massacre de Corumbiara&#8221;. De l\u00e1 pra c\u00e1, cansados de esperar por uma<br \/>\nreforma agr\u00e1ria que nunca chega, os camponeses e suas fam\u00edlias decidiram<br \/>\npromover a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria&#8221; no peito e na ra\u00e7a. S\u00e3o eles os acusados<br \/>\npela revista Isto \u00c9 de serem sanguin\u00e1rios guerrilheiros ligados<br \/>\n(adivinhem) as FARC.<\/p>\n<p>O que pude presenciar durante minha visita aos acampamentos foram<br \/>\ntrabalhadores rurais e suas fam\u00edlias armados, isso sim, de uma for\u00e7a de<br \/>\nvontade poderosa, capaz de enfrentar os rigores da Amaz\u00f4nia Ocidental. O<br \/>\nclima equatorial, extremamente quente e \u00famido, onde o sol inclemente<br \/>\ncastiga a carne, as doen\u00e7as tropicais como a leshmaniose e a mal\u00e1ria, que<br \/>\npor aquelas bandas s\u00e3o t\u00e3o comuns quanto um resfriado, animais selvagens<br \/>\ncomo on\u00e7as, porcos-do-mato e serpentes venenosas, um risco sempre<br \/>\npresente, oculto pela densa vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o os rigores da selva amaz\u00f4nica os maiores inimigos do povo do<br \/>\ncampo. S\u00e3o os fazendeiros milion\u00e1rios e seus ex\u00e9rcitos particulares<br \/>\nformados por assassinos de aluguel e policiais, cujas a\u00e7\u00f5es criminosas s\u00e3o<br \/>\nsustentadas por pol\u00edticos locais e a imprensa corrupta, que alimentada com<br \/>\nverbas publicit\u00e1rias e mesmo mat\u00e9rias pagas, tenta demonizar a justa<br \/>\nresist\u00eancia dos pequenos agricultores. Os matadores s\u00e3o conhecidos por<br \/>\ntodos, andam tranquilamente pelas ruas, por vezes ostensivamente armados.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o raras as execu\u00e7\u00f5es a luz do dia, a vista de todos. Qualquer um que<br \/>\ntenha coragem de, por exemplo, denunciar os pistoleiros num programa de<br \/>\nr\u00e1dio, corre o s\u00e9rio risco de ser assassinado assim que por os p\u00e9s pra<br \/>\nfora da emissora. Conceitos como direitos humanos e cidadania inexistem<br \/>\nnos cant\u00f5es de Rond\u00f4nia, onde a pistolagem \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o consagrada<br \/>\npela sociedade. Numa corrida de taxi em Ariquemes, junto com mais tr\u00eas<br \/>\npassageiros, passei a viagem que durou cerca de 45 minutos ouvindo<br \/>\nanimadas hist\u00f3rias de fazendeiros, pol\u00edticos e mortes encomendadas. Uma<br \/>\ndelas reproduzo aqui.<br \/>\nUm homem pescava num rio. Conseguiu apanhar dois pintados. Amarrou os<br \/>\npeixes na garupa de sua bicicleta e seguiu tranquilamente por uma estrada.<br \/>\nNo meio do caminho foi parado por um fazendeiro e seu jagun\u00e7o numa<br \/>\ncaminhonete.<br \/>\n&#8211; &#8220;Onde voc\u00ea pescou isso?&#8221;, perguntou o fazendeiro.<br \/>\n&#8211; &#8220;Naquele rio logo ali&#8221;, respondeu o sujeito.<br \/>\n&#8211; &#8220;Ent\u00e3o pode deixar por a\u00ed mesmo, que aquele rio \u00e9 meu&#8221;, disse o<br \/>\nfazendeiro, no momento em que o capanga j\u00e1 sa\u00eda do ve\u00edculo de forma<br \/>\namea\u00e7adora. O pescador teve de fugir. Ao comentar esse caso com o pessoal<br \/>\nda LCP, me disseram que ele teve sorte de n\u00e3o ter sido simplesmente<br \/>\nbaleado. Essa \u00e9 somente uma das hist\u00f3rias que explica bem a raz\u00e3o da<br \/>\nrevolta que o campon\u00eas de Rond\u00f4nia traz consigo no peito.<br \/>\nHistoricamente, a reforma agr\u00e1ria no Brasil nunca se deu de maneira<br \/>\nespont\u00e2nea pelos governos, e sim pela press\u00e3o feita pelos movimentos<br \/>\npopulares de luta pela terra, que no caso da LCP, sequer contam com o<br \/>\nINCRA para assentar as fam\u00edlias. Para os integrantes da LCP, n\u00e3o existe o<br \/>\nconceito de &#8220;desapropria\u00e7\u00e3o de terras improdutivas&#8221;, visto que mesmo as<br \/>\nprodutivas, estando em m\u00e3os de ricos fazendeiros, servir\u00e3o invariavelmente<br \/>\naos interesses do agroneg\u00f3cio. Os camponeses da LCP escolhem as grandes<br \/>\nfazendas, as ocupam, erguem lonas, resistem ao ataque de jagun\u00e7os, e<br \/>\ndepois de 2 a 3 meses fazem demarca\u00e7\u00e3o dos lotes, o chamado &#8220;corte<br \/>\npopular&#8221;, inicialmente erguendo cabanas de palha e depois de madeira.<br \/>\nDepois de algum tempo, os acampamentos se assemelham a povoados do velho<br \/>\noeste norte-americano, como no caso de Jacin\u00f3polis, com farm\u00e1cia, escola,<br \/>\nmercado, tudo feito de t\u00e1buas.<br \/>\nDiferente da confort\u00e1vel vida das grandes cidades, onde restaurantes,<br \/>\nlanchonetes e supermercados est\u00e3o logo ali na esquina, nas \u00e1reas de<br \/>\nacampamento o supermercado mais pr\u00f3ximo pode estar a 80km de estradas de<br \/>\nterra acidentadas. \u00c9 natural portanto que os camponeses tenham de ca\u00e7ar<br \/>\npara comer, o que justifica a posse de velhas espingardas que servem<br \/>\ntamb\u00e9m para a defesa contra on\u00e7as e porcos selvagens. Opera\u00e7\u00f5es constantes<br \/>\ndo IBAMA e das pol\u00edcias, tentam tomar estes armamentos r\u00fasticos das m\u00e3os<br \/>\ndos lavradores, impedindo que eles se defendam tanto de animais ferozes<br \/>\nquanto de pistoleiros. O direito a leg\u00edtima defesa tamb\u00e9m lhes \u00e9 negado.<br \/>\nOs camponeses, no entanto, seguem resistindo a estas agress\u00f5es como podem.<br \/>\nFecham estradas, bloqueiam o avan\u00e7o da pol\u00edcia com barricadas, criam seus<br \/>\npr\u00f3prios sistemas de vigil\u00e2ncia e seguran\u00e7a. N\u00e3o se entregam nunca.<\/p>\n<p>S\u00e3o os palestinos da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>* Latuff \u00e9 cartunista.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cansados de esperar por uma reforma agr\u00e1ria que nunca chega, camponeses fazem a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria&#8221; na Amaz\u00f4nia. 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