{"id":82,"date":"2009-09-10T21:46:52","date_gmt":"2009-09-10T21:46:52","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=82"},"modified":"2009-09-10T22:03:01","modified_gmt":"2009-09-10T22:03:01","slug":"da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=82","title":{"rendered":">>Da guerra, por Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/imagens\/logos\/logolance.jpg\" alt=\"null\" \/><\/p>\n<p><strong>por  JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI<br \/>\nSetembro de 2009<\/strong><\/p>\n<p> Entre 1495 e 1975, as Grandes Pot\u00eancias estiveram em guerra durante 75% do tempo, come\u00e7ando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pac\u00edficos deste per\u00edodo, entre 1816 e 1913, estas  pot\u00eancias fizeram cerca de 100 guerras coloniais. E ao contr\u00e1rio das expectativas, a cada novo s\u00e9culo, as guerras foram mais intensas e violentas do que no s\u00e9culo anterior. (J. Levy, \u201cWar in the modern Great Power System\u201d, Ky Lexington, 1983) Por isso, se poder dizer que as guerras foram a principal atividade dos estados nacionais europeus, durante seus cinco s\u00e9culos de exist\u00eancia, e agora de novo, o s\u00e9culo XXI j\u00e1 come\u00e7ou sob o signo das armas. Mas apesar disto, segue sendo um tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na forma\u00e7\u00e3o, na evolu\u00e7\u00e3o e no futuro do sistema inter-estatal capitalista, que foi \u201cinventado\u201d pelos europeus, nos s\u00e9culos XVI e XVII, e s\u00f3 se transformou num fen\u00f4meno universal, no s\u00e9culo XX. Talvez, porque seja muito doloroso aceitar que as guerras n\u00e3o s\u00e3o m fen\u00f4meno excepcional, nem decorrem de uma \u201cnecessidade econ\u00f4mica\u201d. Ou porque seja muito dif\u00edcil de entender que elas seguir\u00e3o existindo, mesmo que n\u00e3o ocorram enfrentamentos at\u00f4micos entre as Grandes Pot\u00eancias, porque  elas n\u00e3o precisam ser travadas para cumprir seu \u201cpapel\u201d dentro do sistema inter-estatal. Basta que sejam planejadas de forma complementar e competitiva.<\/p>\n<p>     A primeira vista, tudo isto parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o come\u00e7o desta hist\u00f3ria, e se entende que o sistema mundial em que vivemos, foi uma conquista progressiva dos primeiros estados nacionais europeus. E desde os seus primeiros passos, este sistema nunca mais deixou de se expandir, \u201cliderado\u201d pelo crescimento competitivo e imperial de suas Grandes Pot\u00eancias, que lutam permanentemente para manter ou avan\u00e7ar sua posi\u00e7\u00e3o relativa dentro do sistema. Por isto, tem raz\u00e3o o cientista pol\u00edtico norte-americano, John Mearsheimer, quando diz que \u201cas Grandes Pot\u00eancias t\u00eam um comportamento agressivo n\u00e3o porque elas queiram, mas porque elas t\u00eam que buscar acumular mais poder se quiserem maximizar suas probabilidades de sobreviv\u00eancia, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder \u00e0s custas dos seus rivais&#8230;\u201d. (Mearsheimer, \u201cThe tragedy of the great powers\u201d, 2001: 21).  <\/p>\n<p>      Neste processo competitivo, a guerra, ou a amea\u00e7a da guerra, foi o principal instrumento estrat\u00e9gico utilizado pelos estados nacionais, para  acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potencias vencedoras &#8211; que se transformaram em \u201cl\u00edderes\u201d do sistema &#8211; foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monop\u00f3lico das \u201ctecnologias sens\u00edveis\u201d, de uso militar. Por sua vez, esta competi\u00e7\u00e3o pela ponta tecnol\u00f3gica, e pelo controle monop\u00f3lico dos demais recursos b\u00e9licos, deu origem \u00e0 uma din\u00e2mica autom\u00e1tico e progressivo, de prepara\u00e7\u00e3o cont\u00ednua para as guerras. Numa disputa que aponta todo o tempo, na dire\u00e7\u00e3o de um  imp\u00e9rio \u00fanico e universal. Mas, paradoxalmente, este imp\u00e9rio n\u00e3o poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado sem que o  sistema mundial perca sua capacidade conjunta de seguir se expandindo. Por que? Porque a vit\u00f3ria e a constitui\u00e7\u00e3o de um imp\u00e9rio mundial seria sempre a vit\u00f3ria de um estado nacional espec\u00edfico. Daquele estado que fosse capaz de impor sua vontade e monopolizar o poder, at\u00e9 o limite do desaparecimento dos seus competidores. Se isto acontecesse, entretanto, acabaria a competi\u00e7\u00e3o entre os estados, e neste caso, os estados n\u00e3o teriam como seguir aumentando o seu pr\u00f3prio poder. Ou seja, neste sistema inter-estatal inventado pelos europeus, a exist\u00eancia de advers\u00e1rios \u00e9 indispens\u00e1vel para que haja expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de poder, e a prepara\u00e7\u00e3o cont\u00ednua para a guerra \u00e9 o fator que ordena o pr\u00f3prio sistema. Assim mesmo, como a \u201cpot\u00eancia l\u00edder\u201d tamb\u00e9m precisa seguir acumulando poder, para manter sua posi\u00e7\u00e3o relativa, ela mesma acaba atropelando as institui\u00e7\u00f5es e os acordos internacionais que  ajudou a criar num momento anterior Ela \u00e9 quem tem maior poder relativo dentro do sistema, e por isto, ela \u00e9 que acaba sendo, quase sempre, a grande desestabilizadora de qualquer ordem internacional estabelecida.<\/p>\n<p>     Agora bem, a prepara\u00e7\u00e3o para a guerra, e as pr\u00f3prias guerras, nunca impediram a complementaridade econ\u00f4mica e a integra\u00e7\u00e3o comercial e financeira, entre todos os estados envolvidos nos conflitos. Pelo contr\u00e1rio, a mutua depend\u00eancia econ\u00f4mica sempre foi uma pe\u00e7a essencial da pr\u00f3pria competi\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, predominou o conflito, \u00e0s vezes a complementaridade, mas foi esta \u201cdial\u00e9tica\u201d que se transformou no verdadeiro motor pol\u00edtico-econ\u00f4mico do sistema inter-estatal capitalista, e no grande segredo da vit\u00f3ria europ\u00e9ia, sobre o resto do mundo, a partir do s\u00e9culo XVII.<br \/>\n     Entre 1650 e 1950, a Inglaterra participou de 110 guerras aproximadamente, dentro e fora da Europa, ou seja, em m\u00e9dia, uma \u00e0 cada tr\u00eas anos  E entre 1783 e 1991, os Estados Unidos participaram de cerca de 80 guerras, dentro e fora da Am\u00e9rica, ou seja, em m\u00e9dia, tamb\u00e9m, uma a cada tr\u00eas anos. ((M. Coldfelter, \u201cWarfare and armed conflicts\u201d, MacFarland, Londres, 2002). Como resultado, neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, os Estados Unidos tem acordos militares com cerca de 130 pa\u00edses, ao redor do mundo, e mant\u00e9m mais de 700 bases militares, fora do seu territ\u00f3rio. E assim mesmo, devem seguir se expandindo &#8211; independente de qual seja o seu governo &#8211; sem precisar ferir necessariamente o Direito Internacional, e sem precisar dar explica\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m. Por isto, soa absolutamente c\u00f4mica e desnecess\u00e1ria a justificativa de que as novas bases militares dos EUA, na Col\u00f4mbia, tem a ver com o combate ao narcotr\u00e1fico e a guerrilha local, assim como os argumentos que associam a instala\u00e7\u00e3o do escudo anti-m\u00edsseis dos EUA, na fronteira com a R\u00fassia, com o controle e  bloqueio de foguetes iranianos. Como soa rid\u00edcula, neste contexto, a evoca\u00e7\u00e3o do \u201cprinc\u00edpio b\u00e1sico da n\u00e3o inger\u00eancia\u201d, na defesa das decis\u00f5es colombianas, polacas ou checas. Neste \u201cjogo\u201d n\u00e3o h\u00e1 limites e por mais lament\u00e1vel que seja, os \u201cneutros\u201d s\u00e3o  irrelevantes ou sucumbem, e s\u00f3 lhes restam duas alternativas, para os  que n\u00e3o aceitam aliar-se ou submeter-se \u00e0 potencia expansiva: no caso dos mais fracos, protestar; e no caso dos demais, defender-se. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI Setembro de 2009 Entre 1495 e 1975, as Grandes Pot\u00eancias estiveram em guerra durante 75% do tempo, come\u00e7ando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pac\u00edficos deste per\u00edodo, entre 1816 e 1913, estas pot\u00eancias fizeram cerca de 100 guerras coloniais. 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