{"id":774,"date":"2011-12-11T11:31:54","date_gmt":"2011-12-11T11:31:54","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=774"},"modified":"2011-12-11T12:40:17","modified_gmt":"2011-12-11T12:40:17","slug":"a-fabrica-do-homem-endividado-maurizio-lazzarato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=774","title":{"rendered":">> A f\u00e1brica do homem endividado, por Maurizio Lazzarato"},"content":{"rendered":"<p><strong>A f\u00e1brica do homem endividado<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Por: Maurizio Lazzarato<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o em italiano: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/254650_197053600352007_142396325817735_557145_8372933_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/254650_197053600352007_142396325817735_557145_8372933_n.jpg\" alt=\"\" title=\"254650_197053600352007_142396325817735_557145_8372933_n\" width=\"360\" height=\"285\" class=\"aligncenter size-full wp-image-775\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/254650_197053600352007_142396325817735_557145_8372933_n.jpg 360w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/254650_197053600352007_142396325817735_557145_8372933_n-300x237.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nNa Europa, a luta de classes, assim como aconteceu em outras regi\u00f5es do mundo, manifesta-se e se concentra hoje em dia em torno da d\u00edvida.  A crise da d\u00edvida amea\u00e7a tamb\u00e9m os Estados Unidos e o mundo anglo-sax\u00e3o, pa\u00edses onde teve origem n\u00e3o s\u00f3 o \u00faltimo colapso financeiro, como tamb\u00e9m e sobretudo o neoliberalismo. A rela\u00e7\u00e3o credor-devedor, que define a rela\u00e7\u00e3o de poder espec\u00edfica das finan\u00e7as, intensifica os mecanismos da explora\u00e7\u00e3o e do dom\u00ednio de modo transversal, porque n\u00e3o faz nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre trabalhadores e desocupados, consumidores e produtores, ativos e inativos. Todos s\u00e3o \u201cdevedores\u201d, culpados e respons\u00e1veis frente ao capital, que se manifesta como o Grande Credor, o Credor universal. Uma das maiores quest\u00f5es pol\u00edticas do neoliberalismo \u00e9 ainda, como ilustra sem ambiguidade a \u201ccrise\u201d atual, a da propriedade, j\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o credor-devedor exprime uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7a entre propriet\u00e1rios (do capital) e n\u00e3o propriet\u00e1rios (do capital). Por meio da d\u00edvida p\u00fablica, a sociedade inteira est\u00e1 endividada, coisa que n\u00e3o impede mas, ao contr\u00e1rio, exacerba \u201cas desigualdades\u201d, e que j\u00e1 \u00e9 hora de cham\u00e1-las \u201cdiferen\u00e7as de classe\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images-2.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images-2.jpeg\" alt=\"\" title=\"images-2\" width=\"254\" height=\"199\" class=\"aligncenter size-full wp-image-776\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nAs ilus\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas desses \u00faltimos quarenta anos desmoronam uma ap\u00f3s a outra, tornando ainda mais brutais as pol\u00edticas neoliberais. A New Economy, a sociedade da informa\u00e7\u00e3o, o capitalismo cognitivo, s\u00e3o todos sol\u00faveis na economia da d\u00edvida. Nas democracias que \u201ctriunfaram\u201d do comunismo, pouqu\u00edssimas pessoas (algum funcion\u00e1rio do FMI, da Europa, do Banco Central Europeu, e algum pol\u00edtico) decidem por todos segundo os interesses de uma minoria. A imensa maioria dos europeus \u00e9 expropriada tr\u00eas vezes pela economia da d\u00edvida: expropriada de um j\u00e1 fraco poder pol\u00edtico concedido pela democracia representativa; expropriada de uma parte cada vez maior da riqueza que as lutas passadas tinham subtra\u00eddo da acumula\u00e7\u00e3o capitalista; expropriada sobretudo do futuro, ou seja, do tempo, como poss\u00edvel e, portanto, como decis\u00e3o, como escolha.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images-1.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images-1.jpeg\" alt=\"\" title=\"images-1\" width=\"215\" height=\"234\" class=\"aligncenter size-full wp-image-777\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nA sucess\u00e3o das crises financeiras fez emergir violentamente uma figura subjetiva que j\u00e1 estava presente, mas que ocupa agora o conjunto do espa\u00e7o p\u00fablico: o \u201chomem devedor\u201d. As figuras subjetivas que o neoliberalismo tinha prometido (\u201ctodos acionistas\u201d, \u201ctodos propriet\u00e1rios\u201d, \u201ctodos empreendedores\u201d) se transformam e nos conduzem na dire\u00e7\u00e3o existencial do homem devedor e culpado de sua sorte. \u00c9 portanto urgente propor uma genealogia e uma cartografia da f\u00e1brica econ\u00f4mica e subjetiva que o produz.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images1.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images1.jpeg\" alt=\"\" title=\"images\" width=\"225\" height=\"225\" class=\"aligncenter size-full wp-image-778\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images1.jpeg 225w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/images1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nDa precedente crise financeira que explodiu com a bolha da internet, o capitalismo abandonou as narra\u00e7\u00f5es \u00e9picas que tinha elaborado em torno dos \u201cpersonagens conceituais\u201d do empreendedor, dos criativos, do trabalhador cognitivo ou do trabalhador independente, \u201corgulhoso de ser o pr\u00f3prio patr\u00e3o\u201d que, perseguindo exclusivamente os pr\u00f3prios interesses pessoais, trabalha para o bem de todos.  A implica\u00e7\u00e3o subjetiva e o trabalho \u2018sobre si mesmo\u2019,  apregoados pela ret\u00f3rica da administra\u00e7\u00e3o a partir dos anos 80, transformaram-se numa injun\u00e7\u00e3o para \u2018tomar sobre si\u2019 os custos e os riscos da cat\u00e1strofe econ\u00f4mica e financeira. A popula\u00e7\u00e3o deve tomar o encargo de tudo o que as empresas e o Estado assistencial \u201cexteriorizam\u201d sobre a sociedade e, em primeiro lugar, o encargo da d\u00edvida.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><\/br><br \/>\nPara os patr\u00f5es, as m\u00eddias, os homens pol\u00edticos e os especialistas, as causas da situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o devem ser procuradas nem nas pol\u00edticas monet\u00e1rias e fiscais, que aumentam o d\u00e9ficit, operando uma transfer\u00eancia maci\u00e7a de riqueza para os mais ricos e as empresas, nem na sucess\u00e3o de crises financeiras que, depois de terem praticamente desaparecido durante os primeiros trinta anos do p\u00f3s-guerra, repetem-se com regularidade extorquindo volumes de dinheiro exorbitantes da popula\u00e7\u00e3o, para evitar o que chamamos de uma \u201ccrise sist\u00eamica\u201d. As verdadeiras causas dessas crises repetidas se encontrariam nas exig\u00eancias excessivas dos governados (especialmente aqueles do sul da Europa) que querem viver como \u201ccigarras\u201d e na corrup\u00e7\u00e3o das elites que, na realidade, sempre desempenharam um papel na divis\u00e3o internacional do trabalho e do poder.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/dia-do-trabalho-tarcila.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/dia-do-trabalho-tarcila.jpg\" alt=\"\" title=\"dia-do-trabalho-tarcila\" width=\"470\" height=\"339\" class=\"aligncenter size-full wp-image-779\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/dia-do-trabalho-tarcila.jpg 470w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/dia-do-trabalho-tarcila-300x216.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 470px) 100vw, 470px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nEstamos indo na dire\u00e7\u00e3o de um aprofundamento da crise. O bloco de poder neoliberal n\u00e3o pode e n\u00e3o quer \u201cregular\u201d os \u201cexcessos\u201d das finan\u00e7as, porque o seu programa pol\u00edtico \u00e9 sempre aquele representado pelas escolhas e pelas decis\u00f5es que nos levaram \u00e0 \u00faltima crise financeira. Ao contr\u00e1rio, com a chantagem da fal\u00eancia dos d\u00e9bitos \u201csoberanos\u201d (que de soberano tem somente o nome), quer levar at\u00e9 o fim a aplica\u00e7\u00e3o integral do programa  com que sonha desde os anos 70: reduzir os sal\u00e1rios ao n\u00edvel m\u00ednimo, cortar os servi\u00e7os sociais para colocar o bem-estar a servi\u00e7o dos novos \u201cassistidos\u201d (as empresas e os ricos) e privatizar tudo aquilo que ainda n\u00e3o foi vendido aos privados.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><\/br><br \/>\nN\u00e3o faltam instrumentos te\u00f3ricos, conceitos, enunciados, para analisar n\u00e3o tanto as finan\u00e7as, mas a economia da d\u00edvida que a compreende e a transcende, assim como sua pol\u00edtica e seus dispositivos de sujei\u00e7\u00e3o.  A crise que estamos vivendo nos imp\u00f5e redescobrir a rela\u00e7\u00e3o credor-devedor elaborada pelo Anti-\u00c9dipo de Deleuze e Guattari. Publicado em 1972, antecipando teoricamente o deslocamento da iniciativa do capital que se produzir\u00e1 alguns anos depois, permite-nos, \u00e0 luz de uma leitura de Nietzsche da Genealogia da moral e da teoria marxiana da moeda, de reativar duas hip\u00f3teses. Antes de mais nada, a hip\u00f3tese segundo a qual o paradigma social n\u00e3o \u00e9 definido pela troca (econ\u00f4mica e\/ou simb\u00f3lica), mas pelo cr\u00e9dito. Na base da rela\u00e7\u00e3o social n\u00e3o est\u00e1 a igualdade (da troca), mas a assimetria do d\u00e9bito\/cr\u00e9dito que precede, hist\u00f3rica e teoricamente, a da produ\u00e7\u00e3o e do trabalho assalariado. Em segundo lugar, a hip\u00f3tese segundo a qual a d\u00edvida \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica indissoci\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o do sujeito devedor e de sua \u201cmoralidade\u201d. A economia da d\u00edvida deve acrescentar ao trabalho no sentido cl\u00e1ssico do termo um \u201ctrabalho sobre si mesmo\u201d, de modo que economia e \u201c\u00e9tica\u201d funcionem conjuntamente. A economia da d\u00edvida faz coincidir a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. As categorias cl\u00e1ssicas da sequ\u00eancia revolucion\u00e1ria dos s\u00e9culos XIX e XX \u2013 trabalho, social e pol\u00edtico \u2013 s\u00e3o atravessadas pela d\u00edvida e amplamente redefinidas por ela. \u00c9 portanto necess\u00e1rio aventurar-se em territ\u00f3rio inimigo e analisar a economia da d\u00edvida e a produ\u00e7\u00e3o do homem devedor, para procurar construir algum tipo de arma que nos servir\u00e1 para conduzir as lutas que se anunciam. Porque a crise, longe de terminar, amea\u00e7a estender-se. <\/p>\n<p> <\/br><\/p>\n<p><\/br><br \/>\nEste trecho constitui o par\u00e1grafo introdut\u00f3rio do livro de Maurizio Lazzarato, La fabrique de l\u2019homme endett\u00e9. Essai sur la condition n\u00e9olib\u00e9rale, Editions Amsterdam, 2011. (A f\u00e1brica do homem endividado. Ensaio sobre a condi\u00e7\u00e3o neoliberal) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e1brica do homem endividado Por: Maurizio Lazzarato Tradu\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o em italiano: Mario S. Mieli Na Europa, a luta de classes, assim como aconteceu em outras regi\u00f5es do mundo, manifesta-se e se concentra hoje em dia em torno da d\u00edvida. 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