{"id":69,"date":"2009-05-15T13:33:47","date_gmt":"2009-05-15T13:33:47","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=69"},"modified":"2009-05-15T13:54:52","modified_gmt":"2009-05-15T13:54:52","slug":"todo-cidadao-tem-uma-tia-xereta-que-e-um-porre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=69","title":{"rendered":">>Todo cidad\u00e3o tem uma TIA xereta que \u00e9 um porre, por Mario S Mieli"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/imagens\/logos\/logomanha.jpg\" alt=\"null\" \/><br \/>\n<strong>Mario S. Mieli<\/strong><\/p>\n<p>Lembra daquela tia metida que chegava em sua casa e ficava metendo o bedelho em tudo que n\u00e3o lhe dizia respeito? Sim, aquela mesma, que revistava \u00e0s escondidas os criados-mudos, os arm\u00e1rios e as gavetas de sua casa para ver se podia encontrar alguma prova incriminat\u00f3ria, algum ind\u00edcio de contraven\u00e7\u00e3o, alguma caveira escondida que poderia ser usada, um dia, contra voc\u00ea? <\/p>\n<p>Aquela que espichava o olho para ler a carta que n\u00e3o era para ela, que alongava o pesco\u00e7o para ouvir a conversa da sala ao lado, que arfava o nariz para detectar cheiros e odores suspeitos, que disfar\u00e7ava como carinho o toque subrept\u00edcio e dissimulado, \u00fatil para lhe permitir uma avalia\u00e7\u00e3o t\u00e1til das superf\u00edcies inimigas? <\/p>\n<p>Sim, aquela, que fazia a ronda da casa, simplesmente para verificar se \u201cestava tudo em ordem\u201d, \u201ctudo segundo os conformes\u201d, encontrando sempre uma fin\u00edssima camada de p\u00f3 em cima da c\u00f4moda, ou achando que a cama n\u00e3o estava t\u00e3o bem feita, ou que a cozinha poderia estar mais asseada? Sim, aquela que fazia todo o tour dom\u00e9stico s\u00f3 para verificar se voc\u00ea estava usando de fato aquele abomin\u00e1vel presentinho de Natal que ela lhe tinha dado, ou se voc\u00ea estava escondendo algum tesouro proibido debaixo da cama?<\/p>\n<p>Lembra da imut\u00e1vel pose de caga-regras que ela assumia, ficando at\u00e9 com torcicolo de tanto olhar para tudo e para todos com insolente superioridade, sempre de cima para baixo, nunca deixando de manifestar seu profundo desprezo e desd\u00e9m por tudo que via e ouvia? Ela era o pr\u00f3prio mist\u00e9rio da maldit\u00edssima trindade da reprova\u00e7\u00e3o, condena\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o encarnadas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Lembra que seu comportamento n\u00e3o era s\u00f3 falta de afabilidade e simpatia, mas mal\u00e9vola impetuosidade em sua arrog\u00e2ncia, vaidade e atrevimento? Ah! Que vontade de fazer figura tinha aquela tia! E que figurinha ma\u00e7ante e inoportuna conseguia encenar sempre, infalivelmente! <\/p>\n<p>Quando mal se aproximava, at\u00e9 os bichinhos da casa se escondiam e as plantinhas do quintal desvaneciam. As flores murchavam, o ar ficava insuportavelmente denso, ocorriam sinistros acidentes e incalcul\u00e1veis imprevistos. O prot\u00f3tipo da tia baixo-astral.<\/p>\n<p>E diante de tanta cagan\u00e7a azeda emanada daquela constante cara de tia-maria, quantas atitudes cagarolas e cagalhonas o resto da fam\u00edlia demonstrava\u2026 Sem querer, tinham fetichizado a tiazinha m\u00e1-humorada, e ela tinha se tornado um verdadeiro \u00edcone de inte\u00e7\u00f5es malfazejas. Tinha virado uma tia-tot\u00eamica. <\/p>\n<p>A bruxa dos contos de fada tinha se materializado na tia-zica, e ai de quem n\u00e3o comesse de suas ma\u00e7\u00e3s contaminadas. Nefastas. Agourentas. Verdadeiros encostos imposs\u00edveis de embuchar e de desembruxar. Mas porque era compuls\u00f3rio comer as ma\u00e7\u00e3s da tia? <\/p>\n<p>Ora, em nome do \u201crespeito aos mais velhos\u201d, em nome da \u201cpaz e da harmonia familiar\u201d, mas no fundo, no fundo, para impedir a todos de amadurecer, perpetrando geneticamente o sentimento do medo em rela\u00e7\u00e3o aos que se outorgam a procura\u00e7\u00e3o das almas dos antepassados. A Tia exalava os perp\u00e9tuos comandos do: N\u00e3o responder! N\u00e3o argumentar! N\u00e3o polemizar! Contrariar a tia era um pecado mortal.<\/p>\n<p>Todos tinham que entuchar as ma\u00e7\u00e3s envenenadas da tia. Algumas ma\u00e7\u00e3s vinham na forma de tortas de afrontas. Outras recicladas em sucos completamente enturvados e com prazo de validade vencido. Outras ainda metamorfoseavam-se em carregados strudels que entufavam o est\u00f4mago e entupiam a alma. O famoso strudel da tia\u2026 Mas tudo devia ser engolido a seco, sem contesta\u00e7\u00e3o, e incorporado sem queixas, nem que fosse por entuba\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o melindr\u00e1-la. <\/p>\n<p>A tia era muito mais que xereta. Era cag\u00fceta, espi\u00e3, delatora. <\/p>\n<p>Seu maior prazer? Imiscuir-se onde n\u00e3o era chamada. Sua maior especialidade? Colocar os uns contra os outros. Seu tempo e passa-tempo? Viver confabulando, tramando, urdindo intrigas. As maquina\u00e7\u00f5es da tia eram verdadeiras semeaduras de indisposi\u00e7\u00f5es, conspira\u00e7\u00f5es de desaven\u00e7as, cabalas de animosidades. Tia dedo-duro. Tia Al-ca-g\u00fceta!<\/p>\n<p>Para ela, nada escapava ao seu pat\u00e9tico controle de cagag\u00e9simo grau. Mas, na realidade, nada faria qualquer diferen\u00e7a em seu ros\u00e1rio deslavado de mentiradas, em seu bafo de parenta fraudolenta, em sua mente de doente demente.<\/p>\n<p>E a\u00ed? Fazia muito tempo que voc\u00ea n\u00e3o pensava na tia? Ou ser\u00e1 que estava achando ter-se finalmente livrado do seu fantasma?<\/p>\n<p>Mas que desvario! Que ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>A TIA est\u00e1 de volta e mais por cima e mal-assombrada do que nunca!!! E fez sua re-estr\u00e9ia em vers\u00e3o aprimorada, com upgrade total! Reciclada, vitaminada, capacitada e muito mais TIA do que nunca!!! <\/p>\n<p>A TIA, que \u00e9 a irm\u00e3 predileta do Big Brother, foi convidada para ser, simplesmente, a madrinha da Sociedade de Controle! E, para variar, seu timing \u00e9 perfeito. A TIA aproveitou o pretexto da guerra contra o terrorismo para virar projeto pentag\u00f4nico e est\u00e1, nada mais nada menos, dando cria a um banco de dados internacional para, finalmente, botar uma coleirinha eletr\u00f4nica permanente em todos n\u00f3s. (Sim, priminhos e priminhas, agora ela virou a TIA de n\u00f3s todos!) <\/p>\n<p>\u00c9 claro que, como tudo o que a TIA faz, seu projeto \u00e9 secreto, sigiloso, misterioso, ardiloso. Mas o que se sabe com certeza \u00e9 que a TIA quer coletar todo o tipo de informa\u00e7\u00f5es sobre todos n\u00f3s, para ter um controle total e absoluto de nossas vidinhas. A TIA almeja o verdadeiro controle e supervis\u00e3o universais. <\/p>\n<p>Para conseguir tal proeza, a TIA tem aprofundado uma amizade antiga e prof\u00edcua com a Ci\u00eancia, a Tecnologia e a Pol\u00edtica, velhas comadres sempre prontas a ajudar mesmo quem n\u00e3o precisa ou n\u00e3o quer a sua ajuda. Foi tricotando juntas que, justamente, vislumbraram uma agenda mais nova e mais atualizada para os nossos mundinhos globalizados.<\/p>\n<p>Cansada de s\u00f3 espreitar pelas frestas das venezianas e de ouvir atr\u00e1s das portas, a TIA se informatizou completamente. Al\u00e9m de todos os nossos dados pessoais e de todos os nossos documentos, ela agora sabe de praticamente tudo o que fazemos, dizemos e pensamos \u2013 nossos saques e dep\u00f3sitos nos caixas autom\u00e1ticos, as transa\u00e7\u00f5es que efetuamos com nossos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, os livros que compramos nas livrarias, os livros que retiramos nas bibliotecas, a marca de papel higi\u00eanico com o qual limpamos o cu.<\/p>\n<p>A TIA controla todos os telefonemas que damos e recebemos. Em casa, no escrit\u00f3rio, no celular. E ela manda gravar tudo. Tudo bem grampeadinho. Tim tim por tim tim. Pela caixa da TV a cabo, a TIA fica sabendo de todos os programas que vemos e at\u00e9 mesmo quando aumentamos o volume do televisor. A Internet, para a TIA, \u00e9 uma festa. E acha que \u00e9 de sua conta conhecer detalhadamente todos os sites que visitamos, todos e-mails que enviamos e recebemos e quer at\u00e9 se familiarizar com cada tecla que apertamos. Quem diria que a TIA, um dia, teria gostado de surfar, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Sua prancha de surfe preferida foi apelidada de Carnivore. Sua praia preferida? O Projeto Echelon. <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com c\u00e2maras de v\u00eddeo escondidas e sistemas de grava\u00e7\u00e3o sofisticados que a TIA se equipou. Ela passou a ter o gosto da pesquisa, da inova\u00e7\u00e3o. E aprendeu novos pontos de tric\u00f4 com suas caras amigas. Juntas, est\u00e3o se divertindo como loucas, tran\u00e7ando uma variedade de n\u00f3s com seus pauzinhos e agulhas.<\/p>\n<p>Se, antigamente, a TIA se contentava com as impress\u00f5es digitais, os dados fision\u00f4micos, a renova\u00e7\u00e3o das carteirinhas, atualmente a TIA tem acesso a todos os nossos dados m\u00e9dicos, nossos dados biom\u00e9tricos, nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico, nosso DNA. E s\u00e3o sat\u00e9lites onipresentes e onipotentes que d\u00e3o aquela boa espiadela em tudo que fazemos, o que deixa a TIA mais livre para bolar, com suas amigas Ci\u00eancia, Pol\u00edtica e Tecnologia, as novas formas para identificar a nossa \u00edris, registrar os nossos passos, classificar o nosso modo de andar. E cada ligeira oscila\u00e7\u00e3o de nossa parte, devidamente captada por uma ampla gama de sensores multifuncionais, acionar\u00e1 um comando satelitar imediato, pr\u00e9-programado.  <\/p>\n<p>Dessa forma, a TIA nem precisa mais se preocupar em introduzir um \u2018chip\u2019 subcut\u00e2neo em nossos corpinhos f\u00edsicos para detectar a nossa m\u00ednima inten\u00e7\u00e3o, o nosso mais sutil movimento. Ela j\u00e1 nos clonou a todos em homus electr\u00f4nicus, para que o screening, a classifica\u00e7\u00e3o e a resposta automatizada a nossos impulsos sejam bem mais r\u00e1pidos. Ora, a TIA sempre gostou de informa\u00e7\u00e3o, de coleta de dados. Ela s\u00f3 n\u00e3o tinha se vislumbrado no mundo da inform\u00e1tica. Agora, a TIA n\u00e3o s\u00f3 conhece todos os nossos sonhos, como tem todas as nossas senhas. Ali\u00e1s, para ela, viramos todos apenas uma senha. E isso tinha sido desde sempre o seu mais acalentado sonho. E o nosso pesadelo final.<\/p>\n<p>Biotecnologia? Biopol\u00edtica? Tecnopol\u00edtica? Biom\u00e9trica?<\/p>\n<p>Bobaaaagemmmm! Essas s\u00e3o s\u00f3 algumas das novas malhas entrela\u00e7adas nas sess\u00f5es de ch\u00e1 e tric\u00f4 da TIA com as amigas.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, quem diria que de bedel da fam\u00edlia, hoje em dia a TIA est\u00e1 assim, toda poderosa. E como n\u00e3o podia deixar de ser, ela at\u00e9 j\u00e1 se institucionalizou. Parece que agora, quando algu\u00e9m se dirige a ela dizendo:<\/p>\n<p>\u2013 Oi, TIA!<\/p>\n<p>Ela responde, gloriosa e empolada:<\/p>\n<p>\u2013 TIA?! Total Information Awareness, please!!!  <\/p>\n<p>*    *    *    *<\/p>\n<p><strong>Alguns links e hyperlinks para quem quer provar o \u2018strudel\u2019 da TIA:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.darpa.mil\/iao\/\">http:\/\/www.darpa.mil\/iao\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.darpa.mil\/iao\/TIASystems.htm\">http:\/\/www.darpa.mil\/iao\/TIASystems.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.geocities.com\/totalinformationawareness\/\n\">http:\/\/www.geocities.com\/totalinformationawareness\/<br \/>\n<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.wired.com\/news\/conflict\/0,2100,54342,00.html\">http:\/\/www.wired.com\/news\/conflict\/0,2100,54342,00.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cato.org\/dailys\/12-03-02.html\">http:\/\/www.cato.org\/dailys\/12-03-02.html<\/a><\/p>\n<p><strong>Esses querem comprar uma briga com a TIA:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.warblogging.com\/tia\/\">http:\/\/www.warblogging.com\/tia\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/action.eff.org\/action\/index.asp?step=2&#038;item=2348\">http:\/\/action.eff.org\/action\/index.asp?step=2&#038;item=2348<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.public-i.org\/dtaweb\/report.asp?ReportID=484\">http:\/\/www.public-i.org\/dtaweb\/report.asp?ReportID=484<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.alternet.org\/story.html?StoryID=14656\">http:\/\/www.alternet.org\/story.html?StoryID=14656<\/a><\/p>\n<p><strong>Anima\u00e7\u00e3o do Fiore sobre a TIA:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.villagevoice.com\/issues\/0248\/fiore.php\">http:\/\/www.villagevoice.com\/issues\/0248\/fiore.php<\/a><\/p>\n<p><strong>Carnivore:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.fbi.gov\/hq\/lab\/carnivore\/carnivore2.htm\">http:\/\/www.fbi.gov\/hq\/lab\/carnivore\/carnivore2.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.rhizome.org\/carnivore\/\">http:\/\/www.rhizome.org\/carnivore\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/stopcarnivore.org\/\">http:\/\/stopcarnivore.org\/<\/a><\/p>\n<p><strong>Echelon:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.heise.de\/tp\/english\/inhalt\/te\/6929\/1.html\">http:\/\/www.heise.de\/tp\/english\/inhalt\/te\/6929\/1.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fly.hiwaay.net\/~pspoole\/echelon.html\">http:\/\/fly.hiwaay.net\/~pspoole\/echelon.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.zdnet.co.uk\/news\/specials\/2000\/06\/echelon\/\">http:\/\/www.zdnet.co.uk\/news\/specials\/2000\/06\/echelon\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mario S. 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