{"id":68,"date":"2009-05-15T12:57:40","date_gmt":"2009-05-15T12:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=68"},"modified":"2009-05-15T13:54:23","modified_gmt":"2009-05-15T13:54:23","slug":"transicoes-assimilacionistas%e2%80%93-sessao-de-transgenese-no-multicultural-unisex-beauty-institute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=68","title":{"rendered":">>Transi\u00e7\u00f5es Assimilacionistas\u2013Sess\u00e3o de Transg\u00eanese no Multicultural Unisex Beauty Institute, por Mario S Mieli"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/imagens\/logos\/logomanha.jpg\" alt=\"null\" \/><br \/>\n<strong>por Mario S. Mieli<\/strong><\/p>\n<p>Nas cidades multi-\u00e9tnicas, geralmente prosperam as atividades que instigam \u00e0 reciclagem do imigrante, acelerando o infinito processo de torn\u00e1-lo o quanto antes mais conforme \u00e0 \u00e9tica e \u00e0 est\u00e9tica paradoxalmente globalizadas e locais. <\/p>\n<p>Nem sempre o rec\u00e9m-chegado \u00e9 consciente do desejo de se parecer o mais poss\u00edvel com os outros eus do lugar. E nem sempre quer assimilar-se, ou t\u00e3o depressa, ou t\u00e3o completamente. Mas geralmente, at\u00e9 a pequena vaidade de manter pelo menos alguns de seus tra\u00e7os \u00e9tnicos pr\u00f3prios ou de guardar os rituais de sua tribo de origem \u00e9 implacavelmente varrida com o gosto e as circunst\u00e2ncias culturais diferentes do primeiro caf\u00e9 que toma, ou sobretudo, com o primeiro corte de cabelo a que o indiv\u00edduo se submete, passando de sujeito a objeto.<\/p>\n<p>Basta ver como entram e como saem os multi-\u00e9tnicos fregueses do Multicultural Unisex Beauty Institute, nome pretensioso de um estabelecimento, misto de sal\u00e3o de beleza e barbearia, de Nova York. Um confronto do tipo oferecido pelas fotos \u201cantes\u201d e \u201cdepois\u201d de passar pelo Sal\u00e3o daria um ensaio hilariante sobre os efeitos da afeta\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria nos sujeitos globalizados em objetos. Na primeira vez que visitam o Instituto de Cabeleireiros e Barbeiros, entram como clientes \u00fanicos e diversificados provenientes dos cinco continentes do globo e ao sa\u00edrem, partem todos com o mesmo corte, primeiro passo do inevit\u00e1vel processo de assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada ao look local pasteurizado. <\/p>\n<p>E \u00e9, provavelmente, no pr\u00f3prio sal\u00e3o que descobrem pela primeira vez que, diferentemente do resto do mundo, nas escolas dos Estados Unidos se aprende que os continentes do mundo s\u00e3o seis e n\u00e3o cinco \u2013 por aqui, as Am\u00e9ricas s\u00e3o dois continentes e n\u00e3o um &#8211; quem sabe um antigo truquezinho para dissociar e diferenciar definitivamente as Am\u00e9ricas Central e do Sul daquela do Norte (ningu\u00e9m sabe, e quem sabe n\u00e3o acredita firmemente que o M\u00e9xico esteja mesmo no lado Norte das Am\u00e9ricas, bem aqu\u00e9m do canal do Panam\u00e1\u2026). Miami \u00e9 a fronteira mental que separa na realidade a prosperidade do Norte up here da paup\u00e9rie do Sul down there, apesar e, quem sabe, sobretudo devido \u00e0 soi-disant globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 outros aspirantes convictos da assimila\u00e7\u00e3o integral chegam munidos de planos detalhados e espec\u00edficos para a c\u00e9lere promo\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria transg\u00eanese. <\/p>\n<p>E isso o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Quantos e quantas chegam franzinos e mal-nutridos, excessivamente peludos e morenos para os padr\u00f5es setentrionais e num instante transcendental potencializado, gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica de anabolizantes e \u00e1gua oxigenada e depila\u00e7\u00e3o obsessiva, d\u00e3o a primeira impress\u00e3o de se terem amoldado, camaleonicamente, \u00e0 paisagem humana prevalecente. <\/p>\n<p>Outras vezes, \u00e9 o contrato de trabalho que especifica aquilo que dever\u00e1 ser assimilado, dissimilado ou dissimulado.  Carmen Miranda, por exemplo, obrigada a usar turbante e a falar com eterno sotaque hispano carregado quando se apresentava em p\u00fablico, para manter sempre a mesma imagem, certa vez, em famoso programa de televis\u00e3o, o apresentador J. Carson lhe pediu para tirar o turbante, para provar que tinha cabelos. Carmen disse que n\u00e3o podia, devido ao seu contrato com a Fox. Depois de muita insist\u00eancia, retirou o turbante e mostrou a sua bela cabeleira. Acrescentou, contudo, num ingl\u00eas fluido e sem sotaque: \u201cVejam, apesar desses serem os meus cabelos, essa n\u00e3o \u00e9 a minha cor original. O contrato tamb\u00e9m me obrigava a clarear os meus cabelos bem morenos. E terminou com o inteligente trocadilho: Mas como Banana is My Business\u2026Nice to bleech you!)<\/p>\n<p>Um estudante de medicina de Santo Domingo que conheci numa festa tinha os cabelos e os olhos castanhos e muitos pelos na m\u00e3o. Ao rev\u00ea-lo em outra festa, um ano depois, vi que tinha os cabelos aloirados, os olhos azuis e nenhum pelo nas m\u00e3os ou bra\u00e7os. Perguntei o que tinha acontecido, porque tinha resolvido mudar a colora\u00e7\u00e3o de olhos e cabelos. O ex-estudante-agora-m\u00e9dico-graduado, n\u00e3o deixando de se mostrar indignado com a minha pergunta ignorante, respondendo: \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o sabe que as pessoas respeitam mais os m\u00e9dicos com cabelos claros e olhos azuis? N\u00e3o ligo para o meu visual. Mas me ligo naquilo que o cliente se liga. Por isso botei as lentes de contacto. Para ter mais clientes. Para ser mais respeitado como profissional.\u201d E prosseguiu seu argumento recitando as porcentagens reveladas pelas sondagens mais recentes sobre quanto porcento da popula\u00e7\u00e3o confia mais em m\u00e9dicos com olhos azuis, em confronto com os m\u00e9dicos de olhos negros ou castanhos\u2026 como \u00e9 mais f\u00e1cil conseguir bons empregos e fazer carreira com esses tra\u00e7os f\u00edsicos\u2026 e que, no fundo, essa n\u00e3o deixa de ser a maior das liberdades\u2026 poder recorrer da muscula\u00e7\u00e3o compulsiva at\u00e9 \u00e0 cirurgia est\u00e9tica, se preciso, para se conformar aos \u201cpr\u00f3prios ideais\u201d sen\u00e3o de beleza, pelo menos de apar\u00eancia\u2026<\/p>\n<p>Nesse bater de olhos, o assimilado convicto j\u00e1 mudou o pr\u00f3prio apelido, nome e sobrenome, tradi\u00e7\u00f5es e genealogia. E um ex\u00e9rcito aparentemente extinto de Marias e Joanas da Silva j\u00e1 se auto-rebatizaram de Jennifer e Jessica, e quem sabe, agora, Britney\u2026 Smith\u2026 acompanhando a mudan\u00e7a de nome com a ado\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e involunt\u00e1ria de tiques e toques culturais locais, como a recusa de amamentar em p\u00fablico ou o olhar para algu\u00e9m que fuma com a mesma express\u00e3o de desd\u00e9m e compaix\u00e3o que se reservava aos leprosos na Idade M\u00e9dia. Benzinho vira sweety, cora\u00e7\u00e3o passa a ser darling e o que era quente agora \u00e9 cool.<\/p>\n<p>Tanta programa\u00e7\u00e3o assimilacionista tamb\u00e9m envolve um incondicional empenho neurolingu\u00edstico para que a transi\u00e7\u00e3o pare\u00e7a consubstanciada. <\/p>\n<p>\u00c9 bastante comum, quando se manifestam com descuido e irrever\u00eancia e um portugu\u00eas sem sotaque a Maria ou o Jo\u00e3o verdadeiros por tr\u00e1s das Jennifers ou dos Joes programaticamente modificados, que a Jennifer ou o Joe assimilados repitam a mesma frase que acabou de ser dita pela Maria ou pelo Jo\u00e3o dissimulados, s\u00f3 que com uma for\u00e7ada anglo de pron\u00fancia. Ser\u00e1 que \u00e9 a Maria e o Jo\u00e3o revisitando, inoportunos, e sotaqueando da pr\u00f3pria Jennifer e do Joe? <\/p>\n<p>Ou, como diz uma amiga minha, mais tentam se desbrasilizar \u00e0 for\u00e7a e sangue frio, mais transparece a falsa desenvoltura e motilidade do verdadeiro caipira desembara\u00e7ado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Mario S. Mieli Nas cidades multi-\u00e9tnicas, geralmente prosperam as atividades que instigam \u00e0 reciclagem do imigrante, acelerando o infinito processo de torn\u00e1-lo o quanto antes mais conforme \u00e0 \u00e9tica e \u00e0 est\u00e9tica paradoxalmente globalizadas e locais. 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