{"id":665,"date":"2011-11-25T00:13:04","date_gmt":"2011-11-25T00:13:04","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=665"},"modified":"2011-11-25T00:16:59","modified_gmt":"2011-11-25T00:16:59","slug":"tempo-e-dinheiro-franco-berardi-bifo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=665","title":{"rendered":">> TEMPO E DINHEIRO &#8211; Franco Berardi &#8220;Bifo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>TEMPO E DINHEIRO<\/p>\n<p>POR: FRANCO BERARDI &#8220;BIFO&#8221;<br \/>\nFONTE: Kafka.eu de 24 de nov. De 2011<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><\/p>\n<p><\/br><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/t_15_07_2011.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/t_15_07_2011.jpg\" alt=\"\" title=\"t_15_07_2011\" width=\"350\" height=\"411\" class=\"aligncenter size-full wp-image-668\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/t_15_07_2011.jpg 350w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/t_15_07_2011-255x300.jpg 255w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Pensemos nestas frases:<br \/>\n\u201cD\u00ea-me um tempo.\u201d<br \/>\n\u201cVoc\u00ea est\u00e1 perdendo tempo.\u201d<br \/>\n\u201cPoupem tempo.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o frases insensatas que podemos entender s\u00f3 metaforicamente, que, n\u00e3o apenas pressup\u00f5em a ideia de que o tempo seja algo que se possa dar ou tirar, implicando seja tamb\u00e9m algo que podemos ganhar ou perder, possuir ou estocar. E sobre esse tipo de absurdo est\u00e1 baseada toda a economia, um maquin\u00e1rio cujo fim \u00e9 a coisifica\u00e7\u00e3o e a acumula\u00e7\u00e3o do tempo. O que colocamos no banco, quando depositamos uma quantia de dinheiro? Tempo. De certa forma, depositamos o nosso tempo passado ou o nosso tempo futuro. O nosso tempo ou aquele dos outros, no caso em que se perten\u00e7a \u00e0 classe capitalista e que nos dedicamos, precisamente, a destituir os outros de seu respectivo tempo.  A transforma\u00e7\u00e3o que levou o capitalismo burgu\u00eas ao semiocapitalismo atual implica uma mudan\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre dinheiro, linguagem e tempo. Quando falamos de bancos, estamos falando de lugares onde se deposita e se poupa o tempo. Mas o modo de faz\u00ea-lo est\u00e1 associado \u00e0s mudan\u00e7as na hist\u00f3ria do capitalismo, como \u00e0 hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es entre capitalismo e vida, subjetividade e individualidade. Torna-se dif\u00edcil sermos sistem\u00e1ticos a prop\u00f3sito do tempo e, portanto, renunciamos \u00e0 sistematicidade.  O grande mist\u00e9rio da fase financeira do capitalismo est\u00e1 enraizado justamente nisso: o dinheiro que coloco no banco me d\u00e1 a possibilidade de comprar um futuro? E essa pergunta encerra um segredo ou um enigma? <\/p>\n<p>Sabem qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre um segredo e um enigma? Um segredo \u00e9 uma coisa que est\u00e1 escondida em algum lugar. \u00c9 preciso saber o c\u00f3digo, achar a chave certa, e o segredo deixar\u00e1 de s\u00ea-lo, se transformar\u00e1 na verdade.  O enigma \u00e9 diferente porque h\u00e1 uma chave que \u00e9 preciso encontrar, a chave n\u00e3o est\u00e1 em lugar nenhum, como tampouco a verdade. Assim, quando falamos de capitalismo financeiro, quando falamos da rela\u00e7\u00e3o entre tempo, futuro, d\u00edvida, estamos falando de um segredo ou de um enigma? Creio que estamos falando de um enigma, porque ningu\u00e9m sabe nada do futuro, ningu\u00e9m sabe o que se esconde no tempo futuro de quem se endividou e, portanto, o \u00fanico meio para resolver o enigma \u00e9 a viol\u00eancia. Ou voc\u00ea paga ou elimino voc\u00ea. Ou voc\u00ea me d\u00e1 o seu tempo presente em troca do tempo futuro, ou deixo voc\u00ea na mis\u00e9ria. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual, nesse momento, gregos, portugueses, espanh\u00f3is e irlandeses devem pagar dinheiro aos bancos alem\u00e3es: para evitar de sair da Uni\u00e3o Europeia e n\u00e3o ficarem marginalizados. Mas o problema \u00e9 que para pagar a d\u00edvida junto aos bancos alem\u00e3es, s\u00e3o obrigados a se empobrecerem, a renunciar \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, a uma vida c\u00f4moda.  Um enigma, trata-se sem d\u00favida de um enigma. <\/p>\n<p><strong>Valores flutuantes<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se consegue descobrir a verdade do capitalismo financeiro porque o truque essencial do capitalismo financeiro \u00e9 justamente este: a verdade desapareceu, desvaneceu. N\u00e3o existe mais. N\u00e3o existe agora nenhuma verdade, mas s\u00f3 uma troca de signos, uma desterritorializa\u00e7\u00e3o do significado. Em \u201cA troca simb\u00f3lica e a morte\u201d, Baudrillard afirma que todo o sistema se baseia na indetermina\u00e7\u00e3o. Sobre ela est\u00e1 apoiado o deslocamento que nos levou do capitalismo industrial ao semiocapitalismo, onde a indetermina\u00e7\u00e3o substitui a rela\u00e7\u00e3o fixa entre tempo de trabalho e valor da mercadoria e, desse modo, toda a regula\u00e7\u00e3o da troca cai no sistema aleat\u00f3rio dos valores flutuantes.<br \/>\nO capitalismo financeiro baseia-se essencialmente na perda de cada rela\u00e7\u00e3o entre tempo e valor. Nas primeiras p\u00e1ginas de \u201cO Capital\u201d, Marx explica que o valor \u00e9 tempo, acumula\u00e7\u00e3o de tempo. Tempo objetivado, tempo que se transformou em coisas, em mercadorias, em valor. Aten\u00e7\u00e3o: para determinar o valor n\u00e3o vale qualquer esp\u00e9cie de tempo, mas sim a m\u00e9dia de tempo de que a sociedade necessita para produzir uma determinada mercadoria. Se voc\u00ea \u00e9 pregui\u00e7oso ou r\u00e1pido demais, n\u00e3o conta. O que conta no momento de se determinar o valor \u00e9 a m\u00e9dia do tempo necess\u00e1rio para produzir um determinado bem. Isso acontecia nos belos tempo de antanho, quando era poss\u00edvel determinar o tempo de que se precisava para produzir alguma coisa. Depois as coisas mudaram: de repente, algo aconteceu na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e nos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o que modificou as rela\u00e7\u00f5es entre tempo, trabalho e valor.<br \/>\nChegou o momento em que o trabalho deixa de ser a atividade f\u00edsica muscular da produ\u00e7\u00e3o industrial. Chega de produtos materiais, agora passaria a haver somente signos; chega de produzir coisas tang\u00edveis, vis\u00edveis, materiais, agora era preciso produzir alguma coisa que fosse essencialmente semi\u00f3tica. Quando se deseja estabelecer a m\u00e9dia do tempo necess\u00e1rio para produzir um objeto material, a opera\u00e7\u00e3o que precisa ser feita \u00e9 muito simples: quanto tempo de trabalho f\u00edsico \u00e9 necess\u00e1rio para transformar o material naquele produto.   \u00c9 f\u00e1cil estabelecer o tempo para produzir um objeto material, baseando-se em determinadas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Mas procurem estabelecer o tempo necess\u00e1rio para se produzir uma ideia. Procurem fixar o tempo necess\u00e1rio para produzir um projeto, um estilo, uma inova\u00e7\u00e3o.  Experimentem, e ver\u00e3o que, quando o processo de produ\u00e7\u00e3o se torna semi\u00f3tico, a rela\u00e7\u00e3o entre tempo de trabalho e valor, imprevisivelmente evapora, se volatiliza. Baudrillard foi o primeiro pensador que compreendeu e descreveu essa mudan\u00e7a.<br \/>\nBaudrillard escreveu \u201cA troca simb\u00f3lica e a morte\u201d em 1976. Mas alguns anos antes, o presidente dos EUA Richard Nixon tinha feito algo que mudou o mundo. Naquela \u00e9poca, os presidentes dos EUA eram verdadeiros profetas, n\u00e3o por serem capazes de predizer o futuro, mas porque eram suficientemente potentes para pod\u00ea-lo determinar, ou melhor, eram suficientemente potentes para poder imprimir a vontade do capitalismo americano no futuro do mundo. Nixon fez algo que teve consequ\u00eancias cruciais: fez com que o d\u00f3lar sa\u00edsse do sistema monet\u00e1rio estipulado em 1994 em Bretton Woods. Em outras palavras, decidiu o fim de um sistema baseado em uma rela\u00e7\u00e3o fixa entre as v\u00e1rias moedas e, a partir daquele momento, o d\u00f3lar foi isentado de qualquer rela\u00e7\u00e3o fixa. Independente, aut\u00f4nomo, ou \u2013 melhor \u2013 aleat\u00f3rio, flutuante e indeterminado. Aleat\u00f3rio \u00e9 aquilo que n\u00e3o se pode prever, que n\u00e3o se pode estabelecer ou determinar de modo algum. O latim usa a palavra \u201cratio\u201d para definir a rela\u00e7\u00e3o fixa, o modelo, a medida. Na linguagem filos\u00f3fica, ratio \u00e9 a medida universal fundamental para a compreens\u00e3o das coisas: a raz\u00e3o. Com a decis\u00e3o de Nixon, o modelo de refer\u00eancia foi terminado.  A unidade de medida n\u00e3o existia mais. E n\u00e3o existia mais a possibilidade de estabelecer, em m\u00e9dia, a quantidade de tempo necess\u00e1ria para produzir um bem. Naturalmente, isso significava que o presidente Nixon tinha decidido que a viol\u00eancia deveria tomar o lugar da medida. Por que, em condi\u00e7\u00f5es de aleatoriedade, o que \u00e9 que, de outra forma, condiciona a decis\u00e3o final? Qual elemento ou processo determina o valor? A for\u00e7a, a viol\u00eancia. Qual \u00e9 a maneira de decidir alguma coisa, por exemplo, decidir o valor do d\u00f3lar nos mercados internacionais? A viol\u00eancia, naturalmente. D\u00ea um tempo. A coincid\u00eancia entre financeiriza\u00e7\u00e3o do capitalismo e viol\u00eancia n\u00e3o obedece a uma conjuntura casual ou extempor\u00e2nea. \u00c9 algo totalmente estrutural. N\u00e3o existe economia financeira sem viol\u00eancia, porque a viol\u00eancia se torna o \u00fanico meio pelo qual se tomam decis\u00f5es, quando n\u00e3o h\u00e1 instrumentos de medida.  <\/p>\n<p><strong>Semio-infla\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Da mesma maneira, gostaria de falar de semio-infla\u00e7\u00e3o, aquele tipo de infla\u00e7\u00e3o que tem lugar no campo da informa\u00e7\u00e3o, da compreens\u00e3o do significado e das consequ\u00eancias. William Burroughs nos diz que a infla\u00e7\u00e3o consiste essencialmente no fato de que, com o passar do tempo, \u00e9 necess\u00e1ria uma maior quantidade de \u2018mais\u2019 dinheiro paar comprar sempre menos coisas. Com o termo semio-infla\u00e7\u00e3o quero dizer que \u00e9 necess\u00e1rio um n\u00famero sempre maior de signos, de palavras, de informa\u00e7\u00e3o, para obter sempre menos significado. Nesse caso tamb\u00e9m se trata de um problema de acelera\u00e7\u00e3o. Quando Marx falava de produtividade e de mais-valia relativa, falava disso tamb\u00e9m: de acelera\u00e7\u00e3o, de aumento da velocidade. Marx afirma que quando se quer obter um aumento na produtividade, o que implica, por sua vez, um aumento da mais-valia, \u00e9 preciso acelerar o ritmo de trabalho. Mas chega um momento em que a velocidade pula para outra dimens\u00e3o. Baudrillard falaria de h\u00edper-acelera\u00e7\u00e3o; Virilio, de velocidade absoluta. <\/p>\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o da produtividade no \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o industrial equivale a intensificar o ritmo da m\u00e1quina, de modo que os trabalhadores sejam obrigados a agir mais rapidamente durante a manipula\u00e7\u00e3o de objetos f\u00edsicos. Quando a ferramenta principal da produ\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ser a m\u00e1quina lingu\u00edstica e a principal for\u00e7a produtiva \u00e9 o trabalho cognitivo, ent\u00e3o a acelera\u00e7\u00e3o entra em uma outra fase, em outra dimens\u00e3o. Aumentar a produtividade no \u00e2mbito do semiocapitalismo equivale essencialmente a provocar uma acelera\u00e7\u00e3o na infosfera. No \u00e2mbito do semiocapitalismo, quando se quer intensificar a produtividade, \u00e9 necess\u00e1rio acelerar a infosfera, o meio gra\u00e7as ao qual a informa\u00e7\u00e3o circula e estimula o c\u00e9rebro dos agentes semioprodutivos. O que acontece, ent\u00e3o, na cabe\u00e7a daquelas pessoas, na cabe\u00e7a social? O procedimento mental requer tempo. Pensemos no que significa o prestar aten\u00e7\u00e3o.  A aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a ativa\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas no c\u00e9rebro, mas tamb\u00e9m de rea\u00e7\u00f5es emocionais, afetivas. A aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se intensificar ilimitadamente, e esse \u00e9 o motivo pelo qual a \u201cnova economia\u201d entrou em colapso no fim dos anos \u201990, depois de um longo per\u00edodo de acelera\u00e7\u00e3o e intensifica\u00e7\u00e3o constantes. <\/p>\n<p>No come\u00e7o da d\u00e9cada passada, em 2000, a crise das empresas tecnol\u00f3gicas foi consequ\u00eancia da super-explora\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro social. Depois da explos\u00e3o da bolha da Internet, come\u00e7ou a sair um monte de livros sobre a economia da aten\u00e7\u00e3o. Improvisamente, os economistas se deram conta de que o mercado do semiocapitalismo \u00e9 o mercado da aten\u00e7\u00e3o. O mercado e a aten\u00e7\u00e3o se transformaram na mesma coisa.  Na realidade, a crise do ano 2000 foi uma crise de superprodu\u00e7\u00e3o no campo da aten\u00e7\u00e3o. Marx falava de crise devido \u00e0 superprodu\u00e7\u00e3o: se s\u00e3o produzidas unidades demasiadas de uma determinada mercadoria, as pessoas n\u00e3o poder\u00e3o comprar tudo e as mercadorias ficar\u00e3o encalhadas nas lojas. Ent\u00e3o, o capitalista que n\u00e3o deve produzir mais, despede os oper\u00e1rios, e a situa\u00e7\u00e3o geral, como bem sabemos, piora Mas o que \u00e9 a crise de superprodu\u00e7\u00e3o dentro da moldura do semiocapitalismo? A superprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 um efeito da rela\u00e7\u00e3o entre a quantidade de bens semi\u00f3ticos produzidos pelos trabalho cognitivo e a quantidade de tempo de que dispomos.  <\/p>\n<p>A quantidade de tempo de aten\u00e7\u00e3o de que disp\u00f5e a sociedade n\u00e3o \u00e9 ilimitada, posto que a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se intensificar al\u00e9m de certos limites. Podemos aceler\u00e1-la at\u00e9 um certo ponto, por exemplo, tomamos anfetaminas, intensificando, assim, nossa aten\u00e7\u00e3o. Existem t\u00e9cnicas e drogas que nos permitem ser mais produtivos no campo da aten\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 sabemos onde leva tudo isso.  A d\u00e9cada dos anos \u201990 foi a \u00e9poca das pequenas empresas da \u201cintelig\u00eancia coletiva\u201d, a \u00e9poca da produtividade em constante aumento, do entusiasmo pela produ\u00e7\u00e3o, da euforia dos trabalhadores do conhecimento, dos knowledge workers e dos agentes financeiros. Mas foram tamb\u00e9m os anos da Prozac-mania. N\u00e3o podemos compreender o que Alan Greenspan definiu como &#8220;exuber\u00e2ncia irracional&#8221; se n\u00e3o levamos em conta o simples fato de que milh\u00f5es de trabalhadores do conhecimento a consumaram toneladas de coca\u00edna, anfetaminas e Prozac durante toda uma d\u00e9cada. Isso pode funcionar durante um certo tempo; depois acaba. E, subitamente, de um dia para o outro, depois da excita\u00e7\u00e3o e da acelera\u00e7\u00e3o, chagou o apocalipse.  <\/p>\n<p><strong>Black out<\/strong><\/p>\n<p>Certamente todos voc\u00eas se lembrar\u00e3o da noite da virada do s\u00e9culo, quando est\u00e1vamos esperando o \u201cefeito\u201d do ano 2.000. Naquela noite, eu estava sentado \u00e0 frente da tev\u00ea, esperando o blackout definitivo, mas n\u00e3o aconteceu nada. Absolutamente nada. Eu tinha acreditado no vatic\u00ednio de que, aquela noite de fim de ano seria a \u00faltima da vida moderna e, ao contr\u00e1rio, nada aconteceu. Todavia, a expectativa de um colapso geral estava no ar. Como explicar toda essa expectativa? O colapso n\u00e3o estava no efeito 2.000, mas na queda da excita\u00e7\u00e3o provocada pelo Prozac no c\u00e9rebro dos trabalhadores do conhecimento em todo o mundo. Quando Greenspan observava uma certa exuber\u00e2ncia irracional dos mercados, n\u00e3o falava de economia ou, pelo menos, n\u00e3o s\u00f3 de economia. Falava da perda do efeito do Prozac, do fim dos efeitos da coca\u00edna no c\u00e9rebro de milh\u00f5es de trabalhadores cognitivos. E depois, o que aconteceu? O passo seguinte foi a crise de superprodu\u00e7\u00e3o do semiocapitalismo. No primeiro ano do novo s\u00e9culo o problema foi a percep\u00e7\u00e3o de um colapso iminente.  Depois teve o onze de setembro e a guerra se tornou a solu\u00e7\u00e3o para todos os males. O organismo cognitivo coletivo, deprimido por causas econ\u00f4micas e farmacol\u00f3gicas, foi tratado com a terapia anfetam\u00ednica  da guerra administrada pelo louco doutor Bush. O doutor n\u00e3o era propriamente normal, mas os efeitos de sua terapia continuam ainda: a guerra infinita. O  doutor Bush n\u00e3o queria vencer essa guerra, era completamente indiferente, para ele, venc\u00ea-la ou perd\u00ea-la. Era evidente, por outro lado, que, empreender uma guerra num lugar como o Afeganist\u00e3o, com um aliado como o Paquist\u00e3o,  era uma coisa de loucos, era um jeito de procurar a derrota. Mas a quest\u00e3o n\u00e3o era vencer ou perder, mas dar in\u00edcio a uma guerra destinada a n\u00e3o acabar nunca. De fato, a guerra infinita \u00e9 um sinal de um tipo de loucura que tem sua causa na semio-infla\u00e7\u00e3o. Os signos, com o tempo, adquirem cada vez menos significado. O significado tende a desaparecer, o sentido se perde, enquanto a bolha da produ\u00e7\u00e3o de signos vai se inflando ao infinito.  <\/p>\n<p>Em seu livro \u201cData trash\u201d Arthur Kroker conta uma anedota: numa carta dirigida ao linguista Thomas Seboek, Bill Gates escrevia: \u201cO poder consiste em tornar as coisas mais f\u00e1ceis\u201d, palavras que demonstram como Gates entendia perfeitamente a rela\u00e7\u00e3o entre significado e poder. O poder consiste em simplificar as coisas. Steve Jobs e Steve Wozniak tinham criado as interfaces simples da Apple partindo de uma ideia maluca: \u201cinforma\u00e7\u00e3o para as pessoas\u201d. Mas as interfaces simplificadas eram s\u00f3 o princ\u00edpio de um processo verdadeiramente perigoso que levou Gates \u00e0 ideia de \u201csimplificar\u201d para obter poder. Se voc\u00ea faz parecer as coisas mais f\u00e1ceis, a maioria das pessoas, para n\u00e3o dizer quase todo o mundo, seguir\u00e1 o caminha que voc\u00ea indicou. A evolu\u00e7\u00e3o da rede \u00e9 derivada da evolu\u00e7\u00e3o quase totalitarista de um sistema que parte como um processo dif\u00edcil e pessoal de busca, de descoberta e de cria\u00e7\u00e3o, mas acaba sendo um lugar no qual a coisas se tornam f\u00e1ceis. O processo de simplifica\u00e7\u00e3o da rede come\u00e7ou com Windows 95, com o navegador Explorer e depois prosseguiu com Facebook, que facilita at\u00e9 as dific\u00edlimas rela\u00e7\u00f5es de amizade, de amor, e a vida em geral. Basta responder \u00e0 pergunta: voc\u00ea \u00e9 ou n\u00e3o o meu amigo\/a minha amiga? Sim, sou o seu amigo e a amizade \u00e9 carimbada. N\u00e3o \u00e9 preciso procurar a resposta. Ela j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1. <\/p>\n<p>De que precisamos, num contexto de semio-infla\u00e7\u00e3o, quando a infosfera come\u00e7a a ser demasiadamente r\u00e1pida e nossa aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue mais acompanh\u00e1-la? Precisamos de algum dispositivo que facilite as coisas, algum dispositivo que reduza a velocidade da infosfera. \u00c9 um problema de tempo, de acelera\u00e7\u00e3o e desacelera\u00e7\u00e3o, \u00e9 um problema de simplifica\u00e7\u00e3o. O fim da modernidade come\u00e7ou com o colapso do futuro, com Sid Vicious que gritava &#8220;No future&#8221;. <\/p>\n<p>Depois disso, a hist\u00f3ria p\u00f3s-moderna, pelo que sei, esteve e est\u00e1 na hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o de uma m\u00e1quina tecno-lingu\u00edstica que penetra de todos os \u00e2ngulos da nossa vida quotidiana, em todos os espa\u00e7os do c\u00e9rebro social. A tecno-lingu\u00edstica \u00e9 a m\u00e1quina que fornece a linguagem aos seres humanos e que os substitui na produ\u00e7\u00e3o da linguagem, como sugeria Rose Goldsen em 1975 quando afirmou que \u201cestamos criando uma nova gera\u00e7\u00e3o de seres humanos que aprender\u00e3o mais palavras de uma m\u00e1quina que da pr\u00f3pria m\u00e3e\u201d. <\/p>\n<p>Essa gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 se encontra entre n\u00f3s. A primeira gera\u00e7\u00e3o que aprendeu mais palavras com uma m\u00e1quina que com a pr\u00f3pria m\u00e3e tem um problema concernente a rela\u00e7\u00e3o entre  palavras e corpo, entre palavras e afetividade. Esse fen\u00f4meno, com o qual se separa o aprendizado da linguagem atrav\u00e9s do corpo da m\u00e3e, e do corpo em geral, modifica a pr\u00f3pria linguagem e modifica as rela\u00e7\u00f5es entre linguagem e corporeidade. Conforme aquilo que nos \u00e9 dado saber, durante a hist\u00f3ria do ser humano, o acesso \u00e0 linguagem foi sempre mediado pela confian\u00e7a no corpo materno. A rela\u00e7\u00e3o entre significante e significado foi sempre regulada pelo corpo da m\u00e3e e, de qualquer forma, em termos mais gerais, pelo corpo de uma outra pessoa.  Sei que a palavra \u201c\u00e1gua\u201d quer dizer \u00e1gua porque minha m\u00e3e, e n\u00e3o uma m\u00e1quina, me disse: \u201cIsso \u00e9 \u00e1gua\u201d. Sei que o significante atribui o significado porque a corporeidade, o calor do corpo, o \u201coutro\u201d como calor corporal me iniciou na rela\u00e7\u00e3o entre significante e significado. O que acontece quando a dimens\u00e3o da linguagem e do desejo, quando o acesso \u00e0 linguagem estiver desvinculado do corpo? Quando a rela\u00e7\u00e3o entre significante e significado n\u00e3o \u00e9 estabelecida gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a do corpo, a rela\u00e7\u00e3o afetiva com o mundo come\u00e7a a desmoronar. Talvez a rela\u00e7\u00e3o com o mundo se torna mais funcional, operacional, r\u00e1pida, mas se torna tamb\u00e9m mais fr\u00e1gil. A partir daquele momento, tudo se torna mais inseguro, mais inst\u00e1vel: a partir do momento em que a linguagem \u00e9 removida do corpo.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/escultura-maquina-de-escrever21.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/escultura-maquina-de-escrever21.jpg\" alt=\"\" title=\"escultura-maquina-de-escrever2\" width=\"436\" height=\"580\" class=\"aligncenter size-full wp-image-667\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/escultura-maquina-de-escrever21.jpg 436w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/escultura-maquina-de-escrever21-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><\/a><\/p>\n<p>escultura de Jeremy Mayers<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEMPO E DINHEIRO POR: FRANCO BERARDI &#8220;BIFO&#8221; FONTE: Kafka.eu de 24 de nov. De 2011 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Pensemos nestas frases: \u201cD\u00ea-me um tempo.\u201d \u201cVoc\u00ea est\u00e1 perdendo tempo.\u201d \u201cPoupem tempo.\u201d S\u00e3o frases insensatas que podemos entender s\u00f3 metaforicamente, que, n\u00e3o apenas pressup\u00f5em a ideia de que o tempo seja algo que se possa dar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[171,173,122,95,170,169,168,172],"class_list":["post-665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lance-de-dados","tag-baudrillard","tag-capitalismo-financeiro","tag-franco-berardi-bifo","tag-mario-s-mieli","tag-semio-inflacao","tag-semiocapitalismo","tag-tempo-e-dinheiro","tag-virilio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=665"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/665\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":670,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/665\/revisions\/670"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}