{"id":4961,"date":"2014-02-11T03:19:09","date_gmt":"2014-02-11T03:19:09","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=4961"},"modified":"2014-02-11T03:25:02","modified_gmt":"2014-02-11T03:25:02","slug":"deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=4961","title":{"rendered":">> &#8220;Deus n\u00e3o morreu. Ele tornou-se Dinheiro&#8221;. Entrevista com Giorgio Agamben"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bblood-money.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bblood-money.jpg\" alt=\"bblood-money\" width=\"550\" height=\"396\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4963\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bblood-money.jpg 550w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bblood-money-300x215.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bblood-money-76x55.jpg 76w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bblood-money-135x98.jpg 135w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>&#8220;Deus n\u00e3o morreu. Ele tornou-se Dinheiro&#8221;. Entrevista com Giorgio Agamben<\/strong><br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/512966-giorgio-agamben\">ihu.unisinos<\/a><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina &#8211; UFSC<\/p>\n<p>&#8220;O capitalismo \u00e9 uma religi\u00e3o, e a mais feroz, implac\u00e1vel e irracional religi\u00e3o que jamais existiu, porque n\u00e3o conhece nem reden\u00e7\u00e3o nem tr\u00e9gua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia \u00e9 o trabalho e cujo objeto \u00e9 o dinheiro&#8221;, afirma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/506810-quando-a-religiao-do-dinheiro-devora-o-futuro-artigo-de-giorgio-agamben\">Giorgio Agamben<\/a>, em entrevista concedida a <strong>Peppe Salv\u00e0<\/strong> e publicada por <a href=\"http:\/\/www.ragusanews.com\/articolo\/28021\/giorgio-agamben-intervista-a-peppe-sava-amo-scicli-e-guccione\">Ragusa News<\/a>, 16-08-2012.<\/p>\n<p><strong>Giorgio Agamben<\/strong> \u00e9 um dos maiores fil\u00f3sofos vivos. Amigo de <strong>Pasolini<\/strong> e de <strong>Heidegger<\/strong>, <strong>Giorgio Agamben<\/strong> foi definido pelo <strong>Times<\/strong> e por <strong>Le Monde<\/strong> como uma das dez mais importantes cabe\u00e7as pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo per\u00edodo de f\u00e9rias em Scicli, na Sic\u00edlia, It\u00e1lia, onde concedeu a entrevista.<\/p>\n<p>Segundo ele, &#8220;a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democr\u00e1tica, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em <strong>Atenas<\/strong>&#8220;. Assim, &#8220;a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que at\u00e9 agora hav\u00edamos definido com a express\u00e3o, de resto pouco clara em si mesma, \u201cvida pol\u00edtica\u201d, afima <strong>Agamben<\/strong>.<\/p>\n<p>Eis a entrevista.<\/p>\n<p><strong>O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a \u00fanica sa\u00edda tanto da cat\u00e1strofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na It\u00e1li. A convoca\u00e7\u00e3o de Monti era a \u00fanica sa\u00edda, ou poderia, pelo contr\u00e1rio, servir de pretexto para impor uma s\u00e9ria limita\u00e7\u00e3o \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCrise\u201d e \u201ceconomia\u201d atualmente n\u00e3o s\u00e3o usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restri\u00e7\u00f5es que as pessoas n\u00e3o t\u00eam motivo algum para aceitar. \u201dCrise\u201d hoje em dia significa simplesmente \u201cvoc\u00ea deve obedecer!\u201d. Creio que seja evidente para todos que a chamada \u201ccrise\u201d j\u00e1 dura dec\u00eanios e nada mais \u00e9 sen\u00e3o o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.<\/p>\n<p>Para entendermos o que est\u00e1 acontecendo, \u00e9 preciso tomar ao p\u00e9 da letra a id\u00e9ia de <strong>Walter Benjamin<\/strong>, segundo o qual o capitalismo \u00e9, realmente, uma religi\u00e3o, e a mais feroz, implac\u00e1vel e irracional religi\u00e3o que jamais existiu, porque n\u00e3o conhece nem reden\u00e7\u00e3o nem tr\u00e9gua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia \u00e9 o trabalho e cujo objeto \u00e9 o dinheiro.  Deus n\u00e3o morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco \u2013 com os seus cinzentos funcion\u00e1rios e especialistas &#8211; assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o cr\u00e9dito (at\u00e9 mesmo o cr\u00e9dito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a f\u00e9 \u2013 a escassa, incerta confian\u00e7a \u2013 que o nosso tempo ainda traz consigo. Al\u00e9m disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religi\u00e3o, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atr\u00e1s: \u201csalvar o euro a qualquer pre\u00e7o\u201d. Isso mesmo, \u201csalvar\u201d \u00e9 um termo religioso, mas o que significa \u201ca qualquer pre\u00e7o\u201d? At\u00e9 ao pre\u00e7o de \u201csacrificar\u201d vidas humanas? S\u00f3 numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirma\u00e7\u00f5es t\u00e3o evidentemente absurdas e desumanas.<\/p>\n<p><strong>A crise econ\u00f4mica que amea\u00e7a levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condi\u00e7\u00e3o de crise de toda a modernidade?<\/strong><\/p>\n<p>A crise atravessada pela Europa n\u00e3o \u00e9 apenas um problema econ\u00f4mico, como se gostaria que fosse vista, mas \u00e9 antes de mais nada uma crise da rela\u00e7\u00e3o com o passado. O conhecimento do passado \u00e9 o \u00fanico caminho de acesso ao presente. \u00c9 procurando compreender o presente que os seres humanos \u2013 pelo menos n\u00f3s, europeus \u2013 s\u00e3o obrigados a interrogar o passado.  Eu disse \u201cn\u00f3s, europeus\u201d, pois me parece que, se admitirmos que a palavra \u201cEuropa\u201d tenha um sentido,  ele, como hoje aparece  como evidente, n\u00e3o pode ser nem pol\u00edtico, nem religioso e menos ainda econ\u00f4mico,  mas talvez consista nisso, no fato de que  o homem europeu \u2013 \u00e0 diferen\u00e7a, por exemplo, dos asi\u00e1ticos e dos americanos, para quem a hist\u00f3ria  e o passado tem um significado completamente diferente \u2013 pode ter acesso \u00e0 sua verdade unicamente atrav\u00e9s de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O passado n\u00e3o \u00e9, pois, apenas um patrim\u00f4nio de bens e de tradi\u00e7\u00f5es, de mem\u00f3rias e de saberes, mas tamb\u00e9m e sobretudo um componente antropol\u00f3gico essencial do homem europeu, que s\u00f3 pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi.  Da\u00ed nasce a rela\u00e7\u00e3o especial que os pa\u00edses europeus (a <strong>It\u00e1lia<\/strong>, ou melhor, a <strong>Sic\u00edlia<\/strong>, sob este ponto de vista \u00e9 exemplar)  t\u00eam com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas cidades, \u00e0s suas obras de arte, \u00e0 sua paisagem: n\u00e3o se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e dispon\u00edveis; trata-se, isso sim,  da pr\u00f3pria realidade da Europa, da sua indispon\u00edvel sobreviv\u00eancia. Neste sentido, ao destru\u00edrem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores n\u00e3o nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa pr\u00f3pria identidade. A pr\u00f3pria express\u00e3o \u201cbens culturais\u201d \u00e9 enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse poss\u00edvel liquidar e por \u00e0 venda a pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, um fil\u00f3sofo que tamb\u00e9m era um alto funcion\u00e1rio da Europa nascente, <strong>Alexandre Koj\u00e8ve<\/strong>, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua hist\u00f3ria e j\u00e1 n\u00e3o tinha nada diante de si a n\u00e3o ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade p\u00f3s-hist\u00f3rica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerim\u00f4nias do ch\u00e1, esvaziadas, por\u00e9m, de qualquer significado hist\u00f3rico). Entre uma <strong>Am\u00e9rica do Norte<\/strong> integralmente re-animalizada e um <strong>Jap\u00e3o<\/strong> que s\u00f3 se mant\u00e9m humano ao pre\u00e7o de renunciar a todo conte\u00fado hist\u00f3rico, a <strong>Europa<\/strong> poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da hist\u00f3ria, porque \u00e9 capaz de confrontar-se com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria na sua totalidade e capaz de alcan\u00e7ar, a partir deste confronto, uma nova vida.<\/p>\n<p><strong>A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela rela\u00e7\u00e3o entre poder pol\u00edtico e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual \u00e9 o ponto de media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre os dois p\u00f3los?<\/strong><\/p>\n<p>Minhas investiga\u00e7\u00f5es mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separa\u00e7\u00e3o entre vida nua  (a vida biol\u00f3gica, que, na <strong>Gr\u00e9cia<\/strong>, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi exclu\u00edda da pol\u00edtica e, ao mesmo tempo,  foi inclu\u00edda e capturada atrav\u00e9s da sua exclus\u00e3o. Neste sentido, a vida nua \u00e9 o fundamento negativo do poder.  Tal separa\u00e7\u00e3o atinge sua forma extrema na biopol\u00edtica moderna, na qual o cuidado e a decis\u00e3o sobre a vida nua se tornam aquilo que est\u00e1 em jogo na pol\u00edtica.  O que aconteceu nos estados totalit\u00e1rios do s\u00e9culo XX reside no fato de que \u00e9 o poder (tamb\u00e9m na forma  da ci\u00eancia) que decide, em \u00faltima an\u00e1lise, sobre o que \u00e9 uma vida humana e sobre o que ela n\u00e3o \u00e9. Contra isso, se trata de pensar numa pol\u00edtica das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separ\u00e1vel da sua forma, que jamais seja vida nua. <\/p>\n<p><strong>O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se p\u00f5e frente  ao mundo da pol\u00edtica tem a ver especificamente com a  condi\u00e7\u00e3o italiana ou \u00e9 de algum modo inevit\u00e1vel?  <\/strong><\/p>\n<p>Acredito que atualmente estamos frente a um fen\u00f4meno novo que vai al\u00e9m do desencanto e da desconfian\u00e7a rec\u00edproca entre os cidad\u00e3os e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o radical das categorias com que est\u00e1vamos acostumados a pensar a pol\u00edtica. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democr\u00e1tica, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em <strong>Atenas<\/strong>. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econ\u00f4mico e funcional \u00e9 provado pelo fato de que foi adotado tamb\u00e9m por aqueles regimes que at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s eram ditaduras. \u00c9 mais simples manipular a opini\u00e3o das pessoas atrav\u00e9s da m\u00eddia e da televis\u00e3o do que dever impor em cada oportunidade as pr\u00f3prias decis\u00f5es com a viol\u00eancia.  As formas da pol\u00edtica por n\u00f3s conhecidas \u2013 o Estado nacional, a soberania, a participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, os partidos pol\u00edticos, o direito internacional \u2013 j\u00e1 chegaram ao fim da sua hist\u00f3ria. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a pol\u00edtica tem hoje a forma de uma \u201ceconomia\u201d, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que at\u00e9 agora hav\u00edamos definido com a express\u00e3o, de resto pouco clara em si mesma, \u201cvida pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p><strong>O estado de exce\u00e7\u00e3o, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o car\u00e1ter de normalidade, mas os cidad\u00e3os ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. \u00c9 poss\u00edvel atenuar esta sensa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos h\u00e1 dec\u00eanios num estado de exce\u00e7\u00e3o que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condi\u00e7\u00e3o normal. O estado de exce\u00e7\u00e3o \u2013 que deveria sempre ser limitado no tempo \u2013 \u00e9, pelo contr\u00e1rio, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democr\u00e1ticos.  Poucos  sabem que as normas introduzidas, em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a, depois do <strong>11 de setembro<\/strong> (na It\u00e1lia j\u00e1 se havia come\u00e7ado a partir dos anos de chumbo) s\u00e3o piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de <strong>Hitler<\/strong>, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exce\u00e7\u00e3o que nunca foi revogado. E certamente ele n\u00e3o dispunha das possibilidades de controle (dados biom\u00e9tricos, videoc\u00e2maras, celulares, cart\u00f5es de cr\u00e9dito) pr\u00f3prias dos estados contempor\u00e2neos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidad\u00e3o um terrorista virtual. Isso n\u00e3o pode sen\u00e3o piorar e tornar imposs\u00edvel  aquela participa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas pra\u00e7as e cujas estradas s\u00e3o controladas por videoc\u00e2maras n\u00e3o \u00e9 mais um lugar p\u00fablico: \u00e9 uma pris\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder pol\u00edtico poder\u00e1 trazer-nos esperan\u00e7as de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro ser\u00e1 melhor do que o presente?<\/strong><\/p>\n<p>Otimismo e pessimismo n\u00e3o s\u00e3o categorias \u00fateis para pensar. Como escrevia <strong>Marx<\/strong> em carta a <strong>Ruge<\/strong>: &#8220;a situa\u00e7\u00e3o desesperada da \u00e9poca em que vivo me enche de esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p><strong>Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclus\u00e3o que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indica\u00e7\u00e3o  de como sair do xequemate no qual a arte contempor\u00e2nea est\u00e1 envolvida.<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de uma homenagem a <strong>Piero Guccione<\/strong> e a <strong>Scicli<\/strong>, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situa\u00e7\u00e3o da arte hoje em dia \u00e9 talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na rela\u00e7\u00e3o com o passado, de que acabamos de falar. O \u00fanico lugar em que o passado pode viver \u00e9 o presente, e se o presente n\u00e3o sente mais o pr\u00f3prio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado \u00e9 a figura eminente, se tornam lugares problem\u00e1ticos. Em uma sociedade  que j\u00e1 n\u00e3o sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a <strong>Cila<\/strong> do museu e a <strong>Caribdis<\/strong> da mercadoriza\u00e7\u00e3o. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que s\u00e3o os museus de arte contempor\u00e2nea,  as duas coisas coincidem.<\/p>\n<p><strong>Duchamp<\/strong> talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem sa\u00edda em que a arte se meteu. O que faz <strong>Duchamp<\/strong> quando inventa o ready-made?  Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanit\u00e1rio, e, introduzindo-o num museu, o for\u00e7a a apresentar-se como obra de arte.  Naturalmente &#8211; a n\u00e3o ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa \u2013 na realidade nada alcan\u00e7a  aqui a presen\u00e7a: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a opera\u00e7\u00e3o art\u00edstica, porque n\u00e3o h\u00e1 de forma alguma uma poiesis, produ\u00e7\u00e3o \u2013 e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um ir\u00f4nico nome falso o vaso sanit\u00e1rio n\u00e3o age como artista, mas, se muito, como fil\u00f3sofo ou cr\u00edtico, ou, conforme gostava de dizer <strong>Duchamp<\/strong>, como \u201calgu\u00e9m que respira\u201d, um simples ser vivo.<\/p>\n<p>Em todo caso, certamente ele n\u00e3o queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadoriza\u00e7\u00e3o.  Voc\u00eas sabem: o que de fato aconteceu \u00e9 que um conluio,  infelizmente ainda ativo, de h\u00e1beis especuladores e de \u201cvivos\u201d transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contempor\u00e2nea nada mais faz do que repetir o gesto de <strong>Duchamp<\/strong>, enchendo com  n\u00e3o-obras e performances a museus, que s\u00e3o meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, que, assim como o dinheiro, j\u00e1 alcan\u00e7aram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o da arte contempor\u00e2nea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu pre\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Deus n\u00e3o morreu. Ele tornou-se Dinheiro&#8221;. Entrevista com Giorgio Agamben Fonte: ihu.unisinos Tradu\u00e7\u00e3o: Selvino J. 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