{"id":4361,"date":"2013-12-13T05:16:43","date_gmt":"2013-12-13T05:16:43","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=4361"},"modified":"2013-12-13T05:31:25","modified_gmt":"2013-12-13T05:31:25","slug":"se-mandela-tivesse-realmente-vencido-ele-nao-seria-visto-como-um-heroi-universal-por-slavoj-zizek","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=4361","title":{"rendered":">> Se Mandela tivesse realmente vencido, ele n\u00e3o seria visto como um her\u00f3i universal, por Slavoj \u017di\u017eek"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/cabo-da-boa-esperanca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/cabo-da-boa-esperanca-300x225.jpg\" alt=\"cabo-da-boa-esperanca\" width=\"300\" height=\"225\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4363\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/cabo-da-boa-esperanca-300x225.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/cabo-da-boa-esperanca-73x55.jpg 73w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/cabo-da-boa-esperanca-60x45.jpg 60w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/cabo-da-boa-esperanca.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nCabo da Boa Esperan\u00e7a<\/p>\n<p><strong>Se Nelson Mandela tivesse realmente vencido, ele n\u00e3o seria visto como um her\u00f3i universal. Mandela deve ter morrido como um homem amargo.<br \/>\nPara honrar seu legado, dever\u00edamos nos focalizar nas promessas n\u00e3o cumpridas a que sua lideran\u00e7a deu origem. <\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/South-African-President-N-008.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/South-African-President-N-008-300x180.jpg\" alt=\"South African President Nelson Mandela\" width=\"300\" height=\"180\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4365\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/South-African-President-N-008-300x180.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/South-African-President-N-008-91x55.jpg 91w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/South-African-President-N-008.jpg 460w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nPhotograph: Media24\/Gallo Images\/Getty Images<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/slavoj-zizek.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/slavoj-zizek.jpg\" alt=\"slavoj-zizek\" width=\"90\" height=\"128\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4366\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/slavoj-zizek.jpg 90w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/slavoj-zizek-38x55.jpg 38w\" sizes=\"auto, (max-width: 90px) 100vw, 90px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Por: Slavoj \u017di\u017eek<br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2013\/dec\/09\/if-nelson-mandela-really-had-won\">The Guardian<\/a> 09\/12\/2013<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/p>\n<p>Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas de sua vida, Nelson Mandela foi celebrado como um modelo de como liberar um pa\u00eds do jugo colonial sem sucumbir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do poder ditatorial e do postulado anticapitalista. Em poucas palavras, Mandela n\u00e3o era Robert Mugabe, e a \u00c1frica do Sul permaneceu uma democracia multipartid\u00e1ria com uma imprensa livre e uma economia vibrante bem integrada no mercado global e imune aos precipitados experimentos socialistas. Agora, com sua morte, sua estatura de s\u00e1bio santificado parece confirmada para a eternidade: n\u00e3o h\u00e1 filmes de Hollywood sobre ele \u2013 ele foi personificado por Morgan Freeman que, tamb\u00e9m, por sinal, representou o papel de Deus em outro filme; astros do rock e l\u00edderes religiosos, esportistas e pol\u00edticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, est\u00e3o todos unidos em sua beatifica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Entretanto, ser\u00e1 que essa \u00e9  a hist\u00f3ria toda? Dois fatos fundamentais permanecem obliterados por essa vis\u00e3o celebrat\u00f3ria. Na \u00c1frica do Sul, a <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2013\/jun\/24\/anc-faustian-pact-mandela-fatal-error\">miser\u00e1vel vida da maioria de pobres fica em grande parte a mesma coisa que era durante o apartheid<\/a>, e a ascens\u00e3o dos direitos civis e pol\u00edticos \u00e9 contrabalan\u00e7ada pela crescente inseguran\u00e7a, viol\u00eancia e crime. A mudan\u00e7a principal \u00e9 que a velha classe dominante branca est\u00e1 acompanhada da nova elite negra. Segundo, o povo se lembra do velho Congresso Nacional Africano que prometeu n\u00e3o somente o fim do apartheid, como tamb\u00e9m mais justi\u00e7a social, at\u00e9 mesmo um tipo de socialismo. Esse CNA muito mais radical foi gradualmente obliterado de nossa mem\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 de se admirar que a ira est\u00e1 aumentando entre os sul-africanos negros pobres. <\/p>\n<p>Nesse sentido, a \u00c1frica do Sul \u00e9 s\u00f3 uma vers\u00e3o da hist\u00f3ria recorrente da esquerda contempor\u00e2nea. Um l\u00edder ou partido \u00e9 eleito com entusiasmo universal, prometendo um \u201cnovo mundo\u201d \u2013 mas da\u00ed, mais cedo ou mais tarde, eles trope\u00e7am com o dilema fundamental: ser\u00e1 que se pode ousar  tocar nos mecanismos capitalistas, ou ser\u00e1 melhor decidir \u201cjogar o jogo\u201d? Se algu\u00e9m incomodar esses mecanismos, ser\u00e1 logo \u201cpunido\u201d pelas perturba\u00e7\u00f5es do mercado, pelo caos econ\u00f4mico e todo o resto.  Por isso \u00e9 demasiado simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: ser\u00e1 que ele tinha escolha? A guinada em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo era mesmo uma op\u00e7\u00e3o real? <\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil ridicularizar Ayn Rand, mas h\u00e1 um gr\u00e3o de verdade no famoso \u201chino ao dinheiro\u201d em seu livro <a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/magazine-19280545\">Atlas Shrugged<\/a> (A Revolta de Atlas): \u201cAt\u00e9, e a menos que voc\u00ea descubra que o dinheiro \u00e9 a raiz de todo o bem, voc\u00ea est\u00e1 pedindo a sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o. Quando o dinheiro deixa de se tornar o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, ent\u00e3o esses homens se tornam os instrumentos de outros homens. Sangue, chicotes e rev\u00f3lveres ou d\u00f3lares. Fa\u00e7a sua escolha \u2013 n\u00e3o h\u00e1 outra. N\u00e3o teria Marx dito algo semelhante em sua famosa f\u00f3rmula de como, no universo de mercadorias, \u201cas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas assumem o disfarce de rela\u00e7\u00f5es entre as coisas\u201d?   <\/p>\n<p>Na economia de mercado, as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas podem parecer como rela\u00e7\u00f5es de liberdade e igualdade mutuamente reconhecidas: a domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais diretamente decretada e n\u00e3o \u00e9 mais vis\u00edvel como tal. O que \u00e9 problem\u00e1tico \u00e9 a premissa subjacente de Rand: que a \u00fanica escolha \u00e9 entre rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o diretas ou indiretas, sendo que qualquer outra alternativa \u00e9 descartada como ut\u00f3pica. Todavia, dever\u00edamos, n\u00e3o obstante, ter em mente que o momento de verdade naquilo que \u00e9, de outra forma, uma rid\u00edcula reivindica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de Rand: a grande li\u00e7\u00e3o do socialismo de estado foi, de fato, que a direta aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada e das trocas reguladas pelo mercado, se faltarem as formas concretas de regula\u00e7\u00e3o social do processo de produ\u00e7\u00e3o, necessariamente ressuscita rela\u00e7\u00f5es diretas de servid\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. Se meramente abolirmos o mercado (inclusive a explora\u00e7\u00e3o de mercado) sem substitui-lo com uma adequada forma de organiza\u00e7\u00e3o comunista da produ\u00e7\u00e3o e troca,  ent\u00e3o volta a domina\u00e7\u00e3o com vingan\u00e7a, e com ela, a explora\u00e7\u00e3o direta.  <\/p>\n<p>A regra geral \u00e9 que quando come\u00e7a uma revolta contra um regime meio-democr\u00e1tico opressivo, como foi o caso no Oriente M\u00e9dio em 2011, \u00e9 f\u00e1cil mobilizar grandes multid\u00f5es com slogans que s\u00f3 podem ser caracterizados como agrados para a multid\u00e3o \u2013 pela democracia, contra a corrup\u00e7\u00e3o, por exemplo. Mas da\u00ed, nos aproximamos gradualmente de escolhas mais dif\u00edceis, quando nossa revolta \u00e9 bem sucedida em seu objetivo direto, e chegamos a compreender o que realmente nos incomodava (nossa n\u00e3o-liberdade, humilha\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o social, falta de perspectiva de uma vida decente) continua sob novo disfarce. Nesse ponto, a ideologia dominante mobiliza seu inteiro arsenal para nos impedir de alcan\u00e7ar essa conclus\u00e3o radical. Come\u00e7am por nos dizer que a liberdade democr\u00e1tica traz sua pr\u00f3pria responsabilidade, que isso vem com um pre\u00e7o, que ainda n\u00e3o estamos maduros se esperarmos muito da democracia. Dessa forma, eles nos culpam pelo nosso fracasso: numa sociedade livre, nos dizem, somos todos capitalistas investindo em nossas pr\u00f3prias vidas, decidindo alocar mais para nossa educa\u00e7\u00e3o do que nos divertirmos, se quisermos ter sucesso. <\/p>\n<p>Num n\u00edvel mais diretamente pol\u00edtico, a pol\u00edtica externa dos EUA elaborou uma estrat\u00e9gia detalhada de como exercer o controle de danos recanalizando a revolta popular em aceit\u00e1veis restri\u00e7\u00f5es parlamentares-capitalistas \u2013 como foi feito com sucesso na \u00c1frica do Sul depois da queda do regime do apartheid, nas Filipinas depois da queda do Marcos, na Indon\u00e9sia depois da queda do Suharto, assim como em outros lugares. Nessa precisa conjuntura, pol\u00edticas emancipat\u00f3rias radicais enfrentam o seu maior desafio: como levar as coisas adiante depois que o primeiro est\u00e1gio entusi\u00e1stico findou, como dar o pr\u00f3ximo passo sem sucumbir \u00e0 cat\u00e1strofe da tenta\u00e7\u00e3o \u201ctotalit\u00e1ria\u201d \u2013 em poucas palavras, como ir al\u00e9m de Mandela sem se tornar Mugabe. <\/p>\n<p>Se quisermos permanecer fi\u00e9is ao legado de Mandela, dever\u00edamos esquecer as l\u00e1grimas de crocodilo celebrat\u00f3rias e nos centrar nas promessas n\u00e3o cumpridas a que sua lideran\u00e7a deu origem. Podemos conjeturar com seguran\u00e7a que, por conta de sua moral indubit\u00e1vel e grandeza pol\u00edtica, ele era no final de sua vida, tamb\u00e9m um velho amargo, bem consciente de como seu pr\u00f3prio triunfo pol\u00edtico e sua eleva\u00e7\u00e3o a her\u00f3i universal era a m\u00e1scara de uma derrota amarga. Sua gl\u00f3ria universal \u00e9 tamb\u00e9m um sinal de que ele realmente n\u00e3o incomodou a ordem global do poder. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/mandela-480.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/mandela-480-300x200.gif\" alt=\"mandela-480\" width=\"300\" height=\"200\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4369\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/mandela-480-300x200.gif 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/mandela-480-82x55.gif 82w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n\u00a9 2013 Guardian News and Media<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabo da Boa Esperan\u00e7a Se Nelson Mandela tivesse realmente vencido, ele n\u00e3o seria visto como um her\u00f3i universal. Mandela deve ter morrido como um homem amargo. Para honrar seu legado, dever\u00edamos nos focalizar nas promessas n\u00e3o cumpridas a que sua lideran\u00e7a deu origem. Photograph: Media24\/Gallo Images\/Getty Images Por: Slavoj \u017di\u017eek Fonte: The Guardian 09\/12\/2013 Tradu\u00e7\u00e3o: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[2373,2374,2376,70,2375,58,2378,95,2324,595,2377],"class_list":["post-4361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lance-de-dados","tag-africa-do-sul","tag-apartheid-racial-e-apartheid-economico","tag-ayn-rand","tag-capitalismo","tag-como-levar-adiante-o-legado-de-mandela","tag-comunismo","tag-dinheiro","tag-mario-s-mieli","tag-nelson-mandela","tag-slavoj-zizek","tag-socialismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4361"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4370,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4361\/revisions\/4370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}