{"id":38,"date":"2008-10-12T19:08:47","date_gmt":"2008-10-12T19:08:47","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=38"},"modified":"2008-10-12T22:17:11","modified_gmt":"2008-10-12T22:17:11","slug":"karl-marx-manda-lembrancas-por-cesar-benjamin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=38","title":{"rendered":">>Karl Marx manda lembran\u00e7as, por C\u00e9sar Benjamin"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/imagens\/logos\/logolance.jpg\" alt=\"null\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/imagens\/logodossiewallstreet.jpg\" alt=\"null\" \/><br \/>\n<strong>Fonte: <em>Folha de S. Paulo<\/em> (20\/9)<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que estamos vendo n\u00e3o \u00e9 erro nem acidente. Mais uma vez, os Estados tentar\u00e3o salvar o capitalismo da a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos capitalistas. Em meados do s\u00e9culo 19, Karl Marx j\u00e1 havia revelado como este jogo se d\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p>As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. N\u00e3o se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstra\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam &#8220;comportamento racional&#8221;. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofistica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transforma\u00e7\u00e3o foi Karl Marx. Em meados do s\u00e9culo 19, ele destacou tr\u00eas tend\u00eancias da sociedade que ent\u00e3o desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transforma\u00e7\u00e3o de mais bens, materiais ou simb\u00f3licos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espa\u00e7o geogr\u00e1fico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais popula\u00e7\u00f5es dele participassem; no limite, esse espa\u00e7o seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as &#8220;necessidades do est\u00f4mago&#8221; s\u00e3o poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados \u00e0 fantasia, que \u00e9 ilimitada. Para aumentar a pot\u00eancia produtiva e expandir o espa\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o, essa sociedade realizaria uma revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica incessante. Para incluir o m\u00e1ximo de popula\u00e7\u00f5es no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expans\u00e3o, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obst\u00e1culo externo a deteria.<\/p>\n<p>Havia, por\u00e9m, obst\u00e1culos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produ\u00e7\u00e3o, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. S\u00f3 assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. \u00c9 um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor \u00e9 acumular capital sem retir\u00e1-lo da condi\u00e7\u00e3o de riqueza abstrata, fazendo o pr\u00f3prio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D &#8211; D&#8221; essa forma de acumula\u00e7\u00e3o e viu que ela teria peso crescente. \u00c0 medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valoriza\u00e7\u00e3o sem trabalho \u00e9 fict\u00edcia. E o potencial civilizat\u00f3rio do sistema come\u00e7aria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais seria um agente organizador da sociedade.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria s\u00e9rios riscos, pois sua pot\u00eancia t\u00e9cnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais for\u00e7as sociais predominassem, essa pot\u00eancia t\u00e9cnica expandida poderia ser colocada a servi\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o (abolindo-se os trabalhos cansativos, mec\u00e2nicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do esp\u00edrito) ou da barb\u00e1rie (com o desemprego e a intensifica\u00e7\u00e3o de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.<\/p>\n<p>O que estamos vendo n\u00e3o \u00e9 erro nem acidente. Ao vencer os advers\u00e1rios, o sistema p\u00f4de buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predomin\u00e2ncia da acumula\u00e7\u00e3o D &#8211; D&#8221;. Abandonou as media\u00e7\u00f5es de que necessitava no per\u00edodo anterior, quando contesta\u00e7\u00f5es, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados est\u00e3o a\u00ed. Mais uma vez, os Estados tentar\u00e3o salvar o capitalismo da a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos capitalistas. Karl Marx manda lembran\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>*CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicenten\u00e1ria de Aragua (Venezuela), \u00e9 autor de &#8220;Bom Combate&#8221; (Contraponto, 2006).<\/strong><em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Folha de S. Paulo (20\/9) O que estamos vendo n\u00e3o \u00e9 erro nem acidente. Mais uma vez, os Estados tentar\u00e3o salvar o capitalismo da a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos capitalistas. Em meados do s\u00e9culo 19, Karl Marx j\u00e1 havia revelado como este jogo se d\u00e1. As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. 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