{"id":3580,"date":"2013-04-24T00:55:49","date_gmt":"2013-04-24T00:55:49","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=3580"},"modified":"2013-04-24T03:15:17","modified_gmt":"2013-04-24T03:15:17","slug":"o-poder-de-abstracao-e-o-seu-antagonismo-sobre-as-psicopatologias-do-capitalismo-cognitivo-por-matteo-pasquinelli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=3580","title":{"rendered":">> O poder de abstra\u00e7\u00e3o e o seu antagonismo. Sobre as psicopatologias do capitalismo cognitivo, por Matteo Pasquinelli"},"content":{"rendered":"<p><\/br><br \/>\n<strong>O poder de abstra\u00e7\u00e3o e o seu antagonismo. Sobre as psicopatologias do capitalismo cognitivo<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Por: Matteo Pasquinelli<\/strong><br \/>\n<strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.uninomade.org\/la-potenza-di-astrazione-e-il-suo-antagonismo\/\">uninomade 28\/03\/2013 <\/a><br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/MatteoPasquinelliParAnneHelmond.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/MatteoPasquinelliParAnneHelmond.jpg\" alt=\"\" title=\"MatteoPasquinelliParAnneHelmond\" width=\"500\" height=\"333\" class=\"alignright size-full wp-image-3581\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/MatteoPasquinelliParAnneHelmond.jpg 500w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/MatteoPasquinelliParAnneHelmond-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\nMatteo Pasquinelli por Anne Helmond<br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201cA vida fende a mat\u00e9ria, elabora e contrai a mat\u00e9ria, dando vida \u00e0s virtualidades contidas no material em dire\u00e7\u00f5es desconhecidas. A vida emerge como devir-conceito, devir-pensamento ou, no caso da consci\u00eancia, como devir-c\u00e9rebro.\u201d \u2014 Elisabeth Grosz[1]<br \/>\n <\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/CriseCapital_codbarras.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/CriseCapital_codbarras.jpg\" alt=\"\" title=\"CriseCapital_codbarras\" width=\"564\" height=\"316\" class=\"alignright size-full wp-image-3582\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/CriseCapital_codbarras.jpg 564w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/CriseCapital_codbarras-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 564px) 100vw, 564px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nO debate filos\u00f3fico-pol\u00edtico dos \u00faltimos anos, pelo menos nas latitudes do pensamento franc\u00eas e italiano, foi caracterizado por uma oscila\u00e7\u00e3o conceitual que focalizou, de tempos em tempos, o trabalho imaterial ou o trabalho afetivo, a economia do conhecimento ou a economia do desejo, o cognitivo ou o biopol\u00edtico. Nenhuma agenda de pesquisa ou pol\u00edtica ficou imune a essa oscila\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes recitando de modo pol\u00eamico um polo contra o outro. Depois de um per\u00edodo de trabalho voltado \u00e0 economia da consci\u00eancia, por exemplo, uma maior aten\u00e7\u00e3o era dada ao \u2018trabalho afetivo\u2019 (voltando a redescobrir aquilo que o feminismo j\u00e1 tinha tentado politizar nos anos 70), enquanto as biotecnologias ocupavam o palco central do debate sobre as novas formas de poder. Com frequ\u00eancia, acontecia de se ouvirem queixas contra um paradigma cognitivo que se esquecia da   materialidade biol\u00f3gica e gen\u00e9tica do corpo, da sua libido, dos seus afetos, etc. Em alguns, como em Lazzarato, a \u2018noopol\u00edtica\u2019  foi ent\u00e3o proposta como extens\u00e3o do espa\u00e7o do biopoder para chegar a cobrir tamb\u00e9m as novas formas do imagin\u00e1rio coletivo e das tecnologias do conhecimento.[2] Mas s\u00f3 recentemente come\u00e7ou-se a entender de modo correto a import\u00e2ncia das neuroci\u00eancias nas pesquisas do obreirismo e do p\u00f3s-estruturalismo.[3]<br \/>\n<\/br><br \/>\nNa minha apresenta\u00e7\u00e3o, procurarei parar esta oscila\u00e7\u00e3o e voltar a um paradigma mon\u00edstico, no qual essa oposi\u00e7\u00e3o entre corpo e mente, entre \u2018bios\u2019 e \u2018noos\u2019, possa finalmente desaparecer \u2014 como sempre vimos essa oposi\u00e7\u00e3o desaparecer nas obras de Spinoza, Merleau-Ponty, Canguilhem, Foucault, Deleuze e Guattari. Procurarei, em particular,  desconstruir a genealogia do conceito de biopol\u00edtica, escavando na \u2018Lebensphilosophie\u2019 alem\u00e3, onde \u2018o vivente\u2019 quase nunca ocorre separado das dimens\u00f5es de conhecimento e abstra\u00e7\u00e3o. Tentarei demonstrar em particular como na origem da intui\u00e7\u00e3o foucaultiana de biopoder se encontre a pesquisa do neurologista alem\u00e3o Kurt Goldstein e as suas ideias de \u2018comportamento abstrato\u2019 e \u2018poder normativo\u2019 do organismo (vide o primeiro livro de Foucault, de 1954, \u201cMaladie mentale et personnalit\u00e9\u201d \u2013 Doen\u00e7a mental e personalidade).[4]<br \/>\n<\/br><br \/>\nO paradigma cognitivo ser\u00e1 assim derrubado: \u00e9 para compreender e aferrar as ra\u00edzes do \u2018corpo\u2019 que recome\u00e7amos por uma ontologia da \u2018mente\u2019. \u00c9 no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da estrutura do \u2018bios\u2019 (e de toda a mat\u00e9ria) que reencontramos o \u2018noos\u2019. O cognitivo ser\u00e1 assim compreendido n\u00e3o como alguma coisa que vem simplesmente \u2018depois\u2019 da evolu\u00e7\u00e3o da nua vida (e talvez s\u00f3 para oprimi-la), mas como alguma coisa que inerva essas \u2018sagradas bistecas\u2019 desde a sua constitui\u00e7\u00e3o (como nos lembra Elizabeth Grosz na cita\u00e7\u00e3o inicial). Assim, enfim, pode-se verdadeiramente ilustrar o \u2018c\u00e9rebro\u2019 como primeiro modelo e terreno do biopoder&#8230; e indo mais profundamente nessa genealogia&#8230; \u2018o poder de abstra\u00e7\u00e3o\u2019 pode ser verdadeiramente iluminado como n\u00facleo original daquilo que inspirou o paradigma do biopoder. Revelar as \u2018ra\u00edzes neurol\u00f3gicas\u2019 da no\u00e7\u00e3o de biopol\u00edtica nos ajudar\u00e1 a esclarecer as oposi\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias mencionadas acima e, sobretudo, a descrever diferentemente as chamadas psicopatologias do capitalismo cognitivo. Aten\u00e7\u00e3o: essa n\u00e3o \u00e9 um volta ao logocentrismo. N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o convite a entrar definitivamente na era do neur\u00f4nio (n\u00e3o menos perigosa que aquela do \u00e1tomo).<br \/>\n<\/br><br \/>\nA minha contribui\u00e7\u00e3o se divide em cinco partes: nas tr\u00eas primeiras me concentrarei no conceito de abstra\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 neurologia, \u00e0 economia politica e \u00e0 ontologia: ou seja, as no\u00e7\u00f5es de \u2018comportamento abstrato\u2019 em Goldstein, \u2018trabalho abstrato\u2019 em Marx e \u2018m\u00e1quina abstrata\u2019 em Deleuze e Guattari. A abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 entendida aqui como capacidade do todo imanente de criar entre planos diferentes e de anul\u00e1-los, como capacidade de territorializar e desterritorializar, como capacidade de projetar as nossas identidades al\u00e9m do recinto do eu, contra o ambiente que nos circunda e para al\u00e9m, em dire\u00e7\u00e3o ao cosmo infinito. No sentido de Deleuze e Guattari: abstra\u00e7\u00e3o = esquizofrenia. O poder de abstra\u00e7\u00e3o deve ser entendido como a capacidade de diferencia\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria neuronal, ou seja, como produ\u00e7\u00e3o de bifurca\u00e7\u00f5es ulteriores dos fluxos de percep\u00e7\u00e3o, conhecimento e mem\u00f3ria (como na diferencia\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o j\u00e1 descrita por Merleau-Ponty).[5] Na quarta parte mostrarei como uma recente descoberta da neurologia \u2014 os neur\u00f4nios-espelho \u2014 tenha implica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m para a filosofia pol\u00edtica e como esses resultados s\u00e3o discutidos por Virno, e como a no\u00e7\u00e3o de abstra\u00e7\u00e3o possa, por sua vez, ilumin\u00e1-los de uma maneira diversa. Em conclus\u00e3o, contra um certo tom fatalista corrente, proporei inverter a abordagem ao problema das psicopatologias do capitalismo cognitivo partindo novamente da \u2018neuropedagogia\u2019 proposta por Thomas Metzinger.<br \/>\n <\/br><br \/>\n<strong>1. Goldstein e o poder de abstra\u00e7\u00e3o do organismo.<\/strong><br \/>\nGostaria de come\u00e7ar com um breve perfil para trazer o exemplo de um ponto nodal da hist\u00f3ria do pensamento no qual o \u2018bios\u2019 e \u2018noos\u2019 ainda estavam coligados. Para isso, quero tra\u00e7ar uma genealogia heterodoxa da no\u00e7\u00e3o de biopoder e, em particular, da no\u00e7\u00e3o de \u2018normatividade biopol\u00edtica\u2019 (genealogia heterodoxa, mas na minha opini\u00e3o mais precisa, por exemplo, daquela defendida por Agamben em \u201cChe cos\u2019\u00e8 un dispositivo?\u201d (O que \u00e9 um dispositivo?). A ideia de \u2018normatividade biopol\u00edtica\u2019 \u00e9 introduzida por Foucault em seu curso de 1975 \u2018Os Anormais\u2019: nesse curso, Foucault prop\u00f5e estudar o poder n\u00e3o mais como disciplina do corpo, mas como dispositivo de normaliza\u00e7\u00e3o, como inven\u00e7\u00e3o de novas normas sociais.[6] A \u2018normaliza\u00e7\u00e3o\u2019 da sociedade francesa,  que Foucault quer analisar tomando como base a deixa de Canguilhem, \u00e9 o ato criativo de um poder que inventa e plasma novas normas nos setores da ind\u00fastria, da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, da educa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica. A Norma e o Normal foram palavras chave dessa consolida\u00e7\u00e3o institucional: \u00e9 exatamente naqueles anos, por exemplo, que a \u2018\u00c9cole Normale\u2019 foi institu\u00edda. Tamb\u00e9m a primeira defini\u00e7\u00e3o de \u2018dispositivo biopol\u00edtico\u2019 (dada por Foucault justamente naquele curso) se refere a esta genealogia: Foucault descreve essa nova forma de poder como um \u201cdispositivo de normaliza\u00e7\u00e3o\u201d. A ideia de \u2018normatividade biopol\u00edtica\u2019 de Foucault foi mais precisamente inspirada pela ideia de \u2018normatividade s\u00f3cio-biol\u00f3gica\u2019 discutida pelo seu professor Canguilhem em \u201cO Normal e o Patol\u00f3gico\u201d: obra sobre as defini\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e doen\u00e7a na hist\u00f3ria da medicina e das ci\u00eancias da vida.[7] O curiosos \u00e9 que toda a pesquisa de Canguilhem sobre a normatividade se inspira na ideia de \u2018normatividade biol\u00f3gica\u2019 de  Kurt Goldstein, neurologista da primeira metade do s\u00e9culo XX.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/picture_foucault_michel_extract.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/picture_foucault_michel_extract.jpg\" alt=\"\" title=\"picture_foucault_michel_extract\" width=\"498\" height=\"291\" class=\"alignright size-full wp-image-3583\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/picture_foucault_michel_extract.jpg 498w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/picture_foucault_michel_extract-300x175.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><\/a><br \/>\nMichel Foucault<br \/>\n<\/br><br \/>\nHoje, talvez, Goldstein foi esquecido, mas n\u00e3o foi uma figura exot\u00e9rica na hist\u00f3ria do pensamento. Primo de Ernst Cassirer, estava na chefia do departamento de  neurologia do hospital Moabit de Berlim, quando foi preso pela Gestapo e expulso da Alemanha. Seu livro mais importante \u201cDer Aufbau des Organismus\u201d (A estrutura do organismo) foi ditado em ex\u00edlio, em Amsterdam, em 1934, em apenas cinco semanas, antes de zarpar para Nova York.[8] A obra de Goldstein foi uma das inspira\u00e7\u00f5es fundamentais para Merleau-Ponty, que j\u00e1 o cita uma centena de vezes em \u201cA estrutura do comportamento\u201d (1942, at\u00e9 no t\u00edtulo) e em \u201cFenomenologia da percep\u00e7\u00e3o\u201d (1945). O pr\u00f3prio Foucault abre o seu primeiro livro \u201cMaladie mentale et personnalit\u00e9\u201d (Doen\u00e7a mental e personalidade)  (1954), com uma cr\u00edtica pontual \u00e0s defini\u00e7\u00f5es de Goldstein de doen\u00e7a mental e medicina org\u00e2nica (criticando em particular as no\u00e7\u00f5es de \u2018abstra\u00e7\u00e3o\u2019, \u2018anormalidade\u2019, \u2018ambiente\u2019). Em uma bizarra coincid\u00eancia, o \u00faltimo testo p\u00fablico e autorizado por Foucault \u00e9 a nova vers\u00e3o da introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa de \u201cO Normal e o Patol\u00f3gico\u201d de Canguilhem, onde Foucault, ainda nas pegadas de Goldstein, afirma: \u201cA vida \u00e9 aquilo que \u00e9 capaz de erro\u201d.[9]<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm Goldstein \u2018o poder normativo\u2019 \u00e9 a capacidade de cada organismo (e, especificamente, do c\u00e9rebro humano) de inventar e modificar as pr\u00f3prias normas, os h\u00e1bitos internos e externos, as regras e os comportamentos, para melhor se adaptar ao ambiente circundante, em particular nos casos de doen\u00e7a e eventos traum\u00e1ticos, naquelas condi\u00e7\u00f5es que colocam em perigo a unidade do organismo. A originalidade de Goldstein \u00e9 conceber a doen\u00e7a e tudo aquilo que \u00e9 considerado socialmente \u2018psicopatol\u00f3gico\u2019 e \u2018anormal\u2019 como manifesta\u00e7\u00f5es de um processo normativo positivo. Assim, verdadeiramente \u2018doente\u2019 \u00e9 o organismo que n\u00e3o mostra capacidade de inven\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o de novas normas: o organismo que, paradoxalmente, n\u00e3o \u00e9 capaz de cometer erros. Em Goldstein, as psicopatologias revelam o poder normativo do organismo, mas esse poder \u00e9 reconhecido por Goldstein, com claros ecos espinozianos, na \u2018capacidade de abstra\u00e7\u00e3o\u2019 do c\u00e9rebro. As psicopatologias s\u00e3o somente a tentativa do nosso corpo de inventar novas normas, de reagir \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es do ambiente, de proteger o nosso corpo impelindo-o al\u00e9m dos pr\u00f3prios limites, al\u00e9m dos h\u00e1bitos consolidados. O poder de abstra\u00e7\u00e3o em Goldstein \u00e9 uma visceral extens\u00e3o do organismo, assim como o s\u00e3o as suas psicopatologias.<br \/>\n <\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/fuga-di-cervelli5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/fuga-di-cervelli5-300x195.jpg\" alt=\"\" title=\"fuga-di-cervelli5\" width=\"300\" height=\"195\" class=\"alignright size-medium wp-image-3584\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/fuga-di-cervelli5-300x195.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/fuga-di-cervelli5.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>2. Marx e o poder de abstra\u00e7\u00e3o do capitalismo. <\/strong><br \/>\nComo conectar essa defini\u00e7\u00e3o de abstra\u00e7\u00e3o que encontramos nas neuroci\u00eancias com as no\u00e7\u00f5es de abstra\u00e7\u00e3o e trabalho cognitivo que encontramos na teoria do capitalismo cognitivo? Poder\u00edamos citar Marx quando escrevia de um modo um pouco teol\u00f3gico, mas decididamente antinaturalista que \u00e9 a anatomia do ser humano que cont\u00e9m a chave da anatomia do macaco, e n\u00e3o vice-versa&#8230; Certamente n\u00e3o \u00e9 essa a sede apropriada para repetir as an\u00e1lises amplamente conhecidas sobre o \u2018general intellect\u2019, sobre o conhecimento e a linguagem como for\u00e7as produtivas. Mudando de ponto de observa\u00e7\u00e3o e escala dimensional, gostaria simplesmente de sugerir de olhar para a abstra\u00e7\u00e3o seja como movimento geral do capitalismo seja como movimento geral da resist\u00eancia contra ele. A respeito do poder de abstra\u00e7\u00e3o em Marx, Hardt e Negri escrevem, numa passagem muito clara de \u201cCommonwealth\u201d:<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>\u201cA abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial seja ao funcionamento do capital seja \u00e0 cr\u00edtica a ele. O ponto de partida de Marx em O Capital \u00e9, efetivamente, a sua an\u00e1lise do trabalho abstrato como o fundamento determinante do valor de troca das mercadorias. O trabalho na sociedade capitalista, explica Marx, deve ser abstra\u00eddo dos trabalhos concretos do alfaiate, do encanador, do maquinista para poder ser considerado como trabalho em geral, independentemente de sua aplica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.  Esse trabalho abstrato, uma vez condensado nas mercadorias, \u00e9 a subst\u00e2ncia comum que todas elas compartilham, que consente aos seus valores de serem universalmente comensur\u00e1veis, e que definitivamente permite ao dinheiro funcionar como equivalente geral. [\u2026] A abstra\u00e7\u00e3o, todavia, \u00e9 vista por Marx com ambival\u00eancia. Sim, o trabalho abstrato e o sistema de troca s\u00e3o mecanismos para a extra\u00e7\u00e3o de mais-valia e para manter o controle capitalista, mas o conceito de trabalho abstrato [&#8230;] \u00e9 o que torna poss\u00edvel se pensar na classe oper\u00e1ria. Sem trabalho abstrato n\u00e3o h\u00e1 classe oper\u00e1ria!\u201d [10]<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Esse devir abstrato do capitalismo \u00e9 um processo, de fato, todo material: gostaria de fornecer um outro exemplo para explicar porque o capitalismo cognitivo n\u00e3o \u00e9 um simples dom\u00ednio do conhecimento mas, como explica Vercellone, uma \u2018nova divis\u00e3o do trabalho\u2019, bifurca\u00e7\u00e3o ulterior dos fluxos de energia e informa\u00e7\u00e3o, trabalho vivo e saber vivo. A hist\u00f3ria do capitalismo \u00e9 lida, por exemplo, por Vercellone, ao longo de tr\u00eas frases: subsun\u00e7\u00e3o formal (capitalismo manufatureiro), subsun\u00e7\u00e3o real (capitalismo industrial), \u2018general intellect\u2019 (capitalismo cognitivo).[11] A produ\u00e7\u00e3o capitalista parece, assim, seguir movimentos de desterritorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o: a revolu\u00e7\u00e3o industrial reterritorializa a divis\u00e3o do trabalho na produ\u00e7\u00e3o ao interior da f\u00e1brica, enquanto o capitalismo cognitivo desterritorializa ainda uma vez a divis\u00e3o do trabalho em toda a sociedade. A cadeia l\u00f3gica descrita por Vercellone entre antagonismo, divis\u00e3o do trabalho, m\u00e1quinas e \u2018general intellect\u2019 descreve uma esp\u00e9cie de \u2018m\u00e1quina geral abstrata\u2019. A divis\u00e3o do trabalho \u00e9 justamente esse processo de abstra\u00e7\u00e3o. O que gostaria de sugerir aqui, en passant, \u00e9 que o poder de abstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que pertence s\u00f3 ao capitalismo, como uma esp\u00e9cie de entidade maligna acima de n\u00f3s, mas, pelo contr\u00e1rio, deveria ser concebido como faculdade que pertence a todos n\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1 qualquer estado de natureza pr\u00e9-abstra\u00e7\u00e3o ao qual se possa voltar. Como Goldstein e parte do pensamento alem\u00e3o demonstraram, se algo como \u2018a natureza\u2019 existe, n\u00e3o se trata de nada mais que uma tens\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao abstrato. De modo muito parecido, Hardt e Negri enfatizam que sem abstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se tem classe oper\u00e1ria e que sem abstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se produz comum.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>3. A ontologia da abstra\u00e7\u00e3o em Deleuze e Guattari.<\/strong><br \/>\nO problema da abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 central tamb\u00e9m para Deleuze e Guattari, apesar da \u00eanfase dada nos \u00faltimos anos ao lado \u2018desejante\u2019 de sua ontologia. Em seu esfor\u00e7o de enfatizar uma nova l\u00f3gica materialista, Deleuze e Guattari absorveram e transformaram os problemas da metaf\u00edsica tradicional ao interior do conceito de \u2018m\u00e1quina abstrata\u2019. Como sabido, o termo \u2018m\u00e1quina\u2019 serve para indicar aqui um processo perfeitamente imanente de abstra\u00e7\u00e3o, ou seja, a conex\u00e3o e acoplagem de planos ontologicamente diferentes, tamb\u00e9m radicalmente e remotamente diferentes. A m\u00e1quina abstrata \u00e9, em sua ontologia, um conceito universal, justamente introduzido para atravessar e resolver \u201cmil plat\u00f4s\u201d de problemas. Deleuze e Guattari escrevem:<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><br \/>\n&#8220;O plano de consist\u00eancia da Natureza \u00e9 como uma imensa m\u00e1quina abstrata, todavia real e individual, cujos peda\u00e7os s\u00e3o os encadeamentos ou os indiv\u00edduos, cada um dos quais reagrupa uma infinidade de part\u00edculas sob uma infinidade de rela\u00e7\u00f5es mais ou menos compostas.&#8221;[12]<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A m\u00e1quina abstrata introduz uma ruptura definitiva no interior da tradi\u00e7\u00e3o hol\u00edstica da abstra\u00e7\u00e3o conforme herdada pelo idealismo alem\u00e3o. A no\u00e7\u00e3o de m\u00e1quina abstrata pode ser \u00fatil hoje para explicar o conceito de abstra\u00e7\u00e3o seja dentro do paradigma do capitalismo cognitivo seja no paradigma da biopol\u00edtica. A m\u00e1quina abstrata indica o poder produtivo da abstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o como algo banalmente \u2018imaterial\u2019, mas como inven\u00e7\u00e3o capaz de \u2018abs-trair\u2019 dos pr\u00f3prios substratos. Nisso se reconhece tamb\u00e9m a natureza do pensamento: a capacidade de produzir novos encadeamentos, e depois a possibilidade de negar os encadeamentos produzidos, de rescindi-los, ou de repeti-los ao infinito.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201cA m\u00e1quina abstrata \u00e9 desestratificada, desterritorializada per se; nem tem forma pr\u00f3pria (muito menos subst\u00e2ncia) e n\u00e3o faz nenhuma distin\u00e7\u00e3o em si entre conte\u00fado e express\u00e3o, ainda que fora de si presida tal distin\u00e7\u00e3o e a distribuia em estratos, dom\u00ednios e territ\u00f3rios. Uma m\u00e1quina abstrata em si n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica nem corp\u00f3rea, n\u00e3o mais de quanto seja semi\u00f3tica; \u00e9 diagram\u00e1tica (n\u00e3o conhece nem mesmo a distin\u00e7\u00e3o entre o artificial e natural)&#8221;.[13]<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/uomo-computer-505x254.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/uomo-computer-505x254.jpg\" alt=\"\" title=\"uomo-computer-505x254\" width=\"505\" height=\"254\" class=\"alignright size-full wp-image-3585\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/uomo-computer-505x254.jpg 505w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/uomo-computer-505x254-300x150.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de m\u00e1quina abstrata em Deleuze e Guattari pode tornar-se \u00fatil, ent\u00e3o, para mediar entre economia pol\u00edtica e ci\u00eancias cognitivas: compreendendo, por\u00e9m, a m\u00e1quina abstrata como a capacidade de fugir dos limites impostos pelo c\u00e9rebro e pelo organismo, como expans\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a uma mem\u00f3ria externa que compreender\u00e1 todo o cosmo como extens\u00e3o da mente.<br \/>\n<\/br><br \/>\n\u00c9 fato conhecido como a filosofia de Deleuze e Guattari ainda seja entendida, com frequ\u00eancia, como uma banal celebra\u00e7\u00e3o de fluxos infinitos de desejo: trata-se claramente de um elemento crucial \u2013 a infinita subst\u00e2ncia universal \u2013 mas sem m\u00e1quinas abstratas em sua ontologia n\u00e3o se d\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de qualquer sistema nem de a\u00e7\u00e3o inovadora. A rela\u00e7\u00e3o entre organismo e abstra\u00e7\u00e3o, o org\u00e2nico e o abstrato, atravessa tamb\u00e9m a quest\u00e3o est\u00e9tica e \u00e9 mais uma vez um texto do debate alem\u00e3o que est\u00e1 no centro de sua aten\u00e7\u00e3o.   Veja-se, nesse caso, o coment\u00e1rio deles sobre o livro de Worringer \u201cAbstra\u00e7\u00e3o e Empatia\u201d, onde a arte primitiva, a primeira arte do g\u00eanero humano, a arte que deveria estar mais pr\u00f3xima de um suposto estado de natureza, nasce justamente como \u2018linha abstrata\u2019.[14]<br \/>\n <\/br><br \/>\n<strong>4. A casca \u2018socialista\u2019 e os neur\u00f4nios-espelho.<\/strong><br \/>\nEssa panor\u00e2mica n\u00e3o registra uma mera resson\u00e2ncia conceitual entre autores diversos. Existe uma genealogia mais profunda comum \u00e0s ci\u00eancias cognitivas e \u00e0 filosofia pol\u00edtica que aqui n\u00e3o temos  espa\u00e7o para expor. Charles Wolfe  escreveu a prop\u00f3sito um importante ensaio dedicado \u00e0 fascinante hist\u00f3ria da chamada \u2018casca socialista\u2019, ou seja, a ideia de mente coletiva e de c\u00e9rebro coletivo ao longo daquela tradi\u00e7\u00e3o que vai de Espinoza a Marx, at\u00e9  Vygotski no in\u00edcio do s\u00e9culo vinte, e chega at\u00e9 Negri e Virno nos nossos dias.[15]  Aqui, gostaria s\u00f3 de citar um outro exemplo desse encontro entre ci\u00eancias cognitivas e filosofia pol\u00edtica, ou seja, o modo no qual Virno comentou a pesquisa sobre os neur\u00f4nios-espelho.<br \/>\n<\/br><br \/>\nOs neur\u00f4nios-espelho foram descobertos nos anos 90 por uma equipe formada por Giacomo Rizzolatti, Vittorio Gallese e outros pesquisadores da Universidade de Parma. O experimento consistia em implantar eletrodos no c\u00f3rtex (N.doT.: do latim \u201ccasca\u201d) pr\u00e9-motor ventral do c\u00e9rebro de alguns macacos (\u00e1rea F5) e em come\u00e7ar a registrar as atividades dos neur\u00f4nios daquela determinada \u00e1rea enquanto os macacos estavam ocupados com a\u00e7\u00f5es bem espec\u00edficas. O time de pesquisadores descobriu que um particular circuito de neur\u00f4nios, ativados durante a execu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es manuais finalizadas, como por exemplo, agarrar uma banana ou manipular objetos, se ativava tamb\u00e9m quando o macaco observava as mesmas a\u00e7\u00f5es manuais serem realizadas por um outro indiv\u00edduo. Esses neur\u00f4nios se ativam do mesmo modo, seja realizando uma a\u00e7\u00e3o que vendo a mesma a\u00e7\u00e3o ser realizada por outro macaco (ou ser humano). Outros estudos sucessivos demonstraram a atividade dos neur\u00f4nios-espelho tamb\u00e9m entre os humanos. A import\u00e2ncia dessa descoberta ainda precisa ser explorada: n\u00e3o \u00e0 toa Ramachandran afirmou que os neur\u00f4nios-espelho est\u00e3o para a psicologia assim como a descoberta do DNA est\u00e1 para a biologia.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm um ensaio de 2004, Virno comenta a aplica\u00e7\u00e3o de Gallese da descoberta dos neur\u00f4nios-espelho \u00e0 compreens\u00e3o do comportamento social e da empatia humana.[16] Virno assume a descri\u00e7\u00e3o de Gallese dos neur\u00f4nios-espelho como prova de uma base natural\u00edstica comum a toda a natureza humana, como prova de uma esfera de inter-subjetividade pr\u00e9-individual que se sup\u00f5e seja anterior \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de cada linguagem e da identidade cultural dos animais humanos.[17] Nessa perspectiva, descreve-se uma empatia comum aos indiv\u00edduos de uma mesma esp\u00e9cie antes do desenvolvimento da faculdade lingu\u00edstica. Simplificando, se poderia dizer que para Virno a empatia com base neurol\u00f3gica identificada nos neur\u00f4nios-espelho vem antes da capacidade de pensamento e abstra\u00e7\u00e3o. Os neur\u00f4nios-espelho s\u00e3o \u00fateis para Virno para delinear uma teoria da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica baseada na intersubjetividade coletiva que \u00e9 atravessada e cortada s\u00f3 sucessivamente pela ambival\u00eancia da linguagem e pela viol\u00eancia da nega\u00e7\u00e3o l\u00f3gica (o exemplo citado por Virno \u00e9 o de entender como o nazista possa dizer ao judeu, ao cigano, ao comunista: \u201cVoc\u00ea \u2018n\u00e3o\u2019 \u00e9 um ser humano\u201d). Virno coloca, ent\u00e3o, o comum como uma estrutura j\u00e1 dada na natureza humana, de maneira a quase querer demonstrar neurologicamente a no\u00e7\u00e3o de pr\u00e9-individual estudada com Simondon. Mas, como lembra Gallese, estamos ainda num territ\u00f3rio especulativo: poderia ocorrer que se descubram neur\u00f4nios que se ativam de modos e em contextos completamente diferentes, portanto, talvez seja melhor n\u00e3o \u2018naturalizar\u2019 com demasiada pressa as hip\u00f3teses pol\u00edticas em fun\u00e7\u00e3o de dados de laborat\u00f3rio. Efetivamente, os pr\u00f3prios resultados dos experimentos com os neur\u00f4nios-espelho podem ser explicados de um modo totalmente diferente.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Primat\u00f3logos e antrop\u00f3logos concordam com o fato de que os neur\u00f4nios-espelho s\u00e3o resultado da evolu\u00e7\u00e3o: n\u00e3o s\u00e3o muitos os animais capazes de imita\u00e7\u00e3o como os animais antropomorfos. Os neur\u00f4nios-espelho s\u00e3o uma faculdade que o nosso organismo de animal humano desenvolveu gradualmente. Mas de que maneira? Por muito tempo, seguramente, os macacos antropomorfos tinham neur\u00f4nios que se ativavam de modo independente ou sonolento quando uma a\u00e7\u00e3o era executada e quando viam a mesma a\u00e7\u00e3o ser executada por um outro macaco (basta pensar aos macacos que levam anos para imitar e aprender a repetir uma a\u00e7\u00e3o descoberta por um membro de seu mesmo grupo). E da\u00ed, um dia, uma conex\u00e3o direta, um encadeamento de neur\u00f4nios \u00e9 estabelecido com mais certeza e firmeza. Atrav\u00e9s dos neur\u00f4nios-espelho, um belo dia conseguimos conectar dois circuitos neurol\u00f3gicos muito diferentes um do outro. Mas desse modo a empatia entre seres humanos, por exemplo, deve ser descrita como o resultado do poder de abstra\u00e7\u00e3o do meu organismo, que \u00e9 capaz de associar a algum outro aquilo que previamente era poss\u00edvel considerar e \u2018sentir\u2019 s\u00f3 como meu. Se Virno nota um comum pr\u00e9-individual, aqui a evolu\u00e7\u00e3o parece sugerir um comum p\u00f3s-individual, tens\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o do nosso poder de abstra\u00e7\u00e3o. O animal humano \u00e9 bem malvado, mas \u00e9 tamb\u00e9m o \u00fanico animal que inventou o Estado do Bem Estar Social. Resumindo, nessa releitura do ensaio de Virno,  acredito \u2018no poder de abstra\u00e7\u00e3o como \u00fanica via ao comum\u2019, e n\u00e3o vice-versa, ou seja, o comum como base da nossa capacidade de agir e pensar. O comum, tamb\u00e9m na neurologia naqual Virno procurou bases materialistas, parece sempre como inven\u00e7\u00e3o, como uma proje\u00e7\u00e3o e encadeamento do \u2018conatus\u2019, e nunca como algo j\u00e1 dado. Essa crucial ambival\u00eancia nos ajuda tamb\u00e9m a ler as chamadas psicopatologias do capitalismo cognitivo<br \/>\n<\/br><br \/>\n <a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/videodrome_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/videodrome_2.jpg\" alt=\"\" title=\"videodrome_2\" width=\"600\" height=\"450\" class=\"alignright size-full wp-image-3586\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/videodrome_2.jpg 600w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/videodrome_2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>5. Neuropedagogia vs. Psicopatologia. <\/strong><br \/>\nSe proponho aqui a no\u00e7\u00e3o de abstra\u00e7\u00e3o em um novo di\u00e1logo entre neuroci\u00eancias e filosofia pol\u00edtica \u00e9 para tentar inverter uma percep\u00e7\u00e3o difundida das psicopatologias e para enquadr\u00e1-las a partir do ponto de vista do poder da abstra\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o mais do ponto de vista de um sujeito nu, ou seja, do ponto de vista de uma mera ret\u00f3rica da aliena\u00e7\u00e3o. O capitalismo cognitivo deveria talvez ser definido como a explora\u00e7\u00e3o da nossa pot\u00eancia de abstra\u00e7\u00e3o, compreendida como poder cognitivo do nosso organismo, for\u00e7a viva que inventa quotidianamente novas normas e pr\u00e1ticas, for\u00e7a viva que nos serve  quotidianamente para projetar a nossa m\u00edsera identidade al\u00e9m de n\u00f3s mesmos, for\u00e7a viva que \u00e9 capaz de construir empatia e comum, e que obviamente \u00e9 capaz de manipular mercadorias, instrumentos, m\u00e1quinas e informa\u00e7\u00f5es. Desenvolvemos as t\u00edpicas psicopatologias do capitalismo cognitivo (dist\u00farbios da aten\u00e7\u00e3o, crises nervosas, p\u00e2nico, paranoia, egomania, rivalidade, racismo) quando perdemos o nosso poder de abstra\u00e7\u00e3o, ou seja, o poder de reinventar continuamente e alegremente o nosso \u2018bios\u2019, e n\u00e3o ao contr\u00e1rio, quando \u201cusamos demais o c\u00e9rebro, em detrimento do corpo\u201d como desejaria uma vulgata comum.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm Goldstein, a falha do poder de abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 o que produz um comportamento catastr\u00f3fico, isto \u00e9, um colapso nervoso muito parecido ao que Bifo e Marazzi usam para descrever as rea\u00e7\u00f5es de p\u00e2nico ao bombardeio midi\u00e1tico do semiocapitalismo. Mas em Goldstein, quase como nos romances de Ballard, as psicopatologias s\u00e3o sempre um sintoma \u2018positivo\u2019, s\u00e3o sempre um \u00edndice de uma for\u00e7a positiva do organismo no seu cont\u00ednuo antagonismo com o ambiente. Assim, a verdadeira quest\u00e3o \u00e9 como defender ou expandir o poder de abstra\u00e7\u00e3o da nossa mente, e n\u00e3o pensar que o nosso corpo sofra porque esquecido nos seus afetos, como quando afirmamos com Bifo que a doen\u00e7a social corrente \u00e9 a de \u201cum general intellect em busca do pr\u00f3prio corpo\u201d.  O mesmo conceito de \u201cpsicopatologias do capitalismo cognitivo\u201d corre o risco de se tornar um \u00e1libi com o qual ajudamos o capital a expropriar a unidade mente\/corpo, o \u00e1libi com o qual abdicamos \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o da nossa mente pelos meios de produ\u00e7\u00e3o, acabando preocupados como novi\u00e7os escravos s\u00f3 com a musculatura do nosso corpo, do nosso apetite, da nossa libido, etc&#8230; Como escravos, justamente, porque deixamos a atividade de abstra\u00e7\u00e3o ao capital e passamos a nos preocupar com as necessidades prim\u00e1rias segundo um perfeito esquema disciplinar.  A liberdade do corpo, como at\u00e9 a menor e mais infinitesimal forma de percep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe sem um poder de abstra\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o (como bem descrito por Merleau-Ponty).<br \/>\n<\/br><br \/>\nAssim, a resposta \u00e0s psicopatologias do capitalismo cognitivo n\u00e3o consiste em reivindicar mais corpo, mais afeto, mais libido, mais desejo, e assim por diante, mas mais abstra\u00e7\u00e3o, mas poder de organizar, diferenciar, bifurcar, perceber em detalhe, perceber em detalhe infinitesimal os nossos mesmos sentimentos. Contra esse enrosco fatalista e vitimista sobre a quest\u00e3o das neuropatologias prefiro mostrar um exemplo de sinal contr\u00e1rio, ou seja, o modelo de \u2018neuropedagogia\u2019 proposto recentemente por Thomas Metzinger. Seu livro \u201cEgo Tunnel\u201d explica de modo muito claro como as descobertas comprovam e modificam novas e antigas intui\u00e7\u00f5es sobre a dissolu\u00e7\u00e3o do eu. O eu n\u00e3o \u00e9 mais que o efeito de uma sobreposi\u00e7\u00e3o e estratifica\u00e7\u00e3o de campos diferentes de percep\u00e7\u00e3o e pensamento: Metzinger mostra como podemos nos tornar conscientes e interromper tal estratifica\u00e7\u00e3o m\u00faltipla das nossas percep\u00e7\u00f5es com simples experimentos neurol\u00f3gicos, sess\u00f5es de medita\u00e7\u00e3o ou uso de subst\u00e2ncias nootr\u00f3picas.  Do mesmo modo, obviamente, a hipertrofia do panorama midi\u00e1tico contempor\u00e2neo tamb\u00e9m produz muta\u00e7\u00f5es da estrutura do eu. Vejamos como Metzinger enquadra as psicopatologias contempor\u00e2neas:<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201cA Internet j\u00e1 se tornou parte do nosso modelo-do-Eu. Utilizamos esse modelo como mem\u00f3ria externa, como pr\u00f3tese cognitiva e para a auto-regulamenta\u00e7\u00e3o emocional. [&#8230;] Claramente, a integra\u00e7\u00e3o de centenas de milh\u00f5es de c\u00e9rebros humanos [&#8230;] em novos ambientes midi\u00e1ticos j\u00e1 come\u00e7ou a modificar a pr\u00f3pria estrutura da experi\u00eancia consciente. [\u2026] Hoje, as ind\u00fastrias da publicidade e do entretenimento est\u00e3o atacando os verdadeiros fundamentos da nossa capacidade de experi\u00eancia, empurrando-nos dentro de uma vasta e confusa selva midi\u00e1tica. Podemos notar os previs\u00edveis resultados na epidemia de Transtorno de D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o\/Hiperatividade (Attention Deficit Disorder) nas crian\u00e7as e nos jovens, nas crises nervosas da meia-idade, no aumento dos n\u00edveis de ansiedade de grande parte da popula\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Os novos ambientes parecem criar uma nova forma de vig\u00edlia consciente que se parece com os estados subjetivos enfraquecidos \u2013 um misto de sonho, dem\u00eancia, intoxica\u00e7\u00e3o e infantiliza\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/i314356.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/i314356.jpg\" alt=\"\" title=\"i314356\" width=\"250\" height=\"384\" class=\"alignright size-full wp-image-3587\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/i314356.jpg 250w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/i314356-195x300.jpg 195w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nO que \u00e9, ent\u00e3o a neuropedagodia que Metzinger prop\u00f5e?<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201cA minha proposta para contrastar esse ataque contra as nossas reservas de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o de classes de medita\u00e7\u00e3o nas nossas escolas superiores. Os jovens deveriam passar a ter consci\u00eancia da natureza limitada de sua capacidade de aten\u00e7\u00e3o e deveriam aprender as t\u00e9cnicas para melhorar seu n\u00edvel de consci\u00eancia e maximizar sua capacidade de mant\u00ea-la \u2013 t\u00e9cnicas que ser\u00e3o \u00fateis na luta contra os ladr\u00f5es comerciais da nossa aten\u00e7\u00e3o [&#8230;]. Essas li\u00e7\u00f5es de medita\u00e7\u00e3o deveriam naturalmente estar isentas de qualquer conota\u00e7\u00e3o religiosa \u2013 nada de velas, nada de incenso, nada de sinos. Poderiam fazer parte das aulas de gin\u00e1stica; o c\u00e9rebro tamb\u00e9m \u00e9 uma parte do corpo, uma parte que pode ser treinada e que deve ser seguida com aten\u00e7\u00e3o com cuidado.&#8221;[18]<br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Metzinger reserva o mesmo m\u00e9todo \u00e0 dimens\u00e3o qu\u00edmica da neuropedagogia: uma parte importante da reflex\u00e3o sobre as psicopatologias do capitalismo cognitivo que n\u00e3o podemos desenvolver aqui. Em particular, Metzinger discute o uso popular e recreativo de subst\u00e2ncias como 2CB, mescalina, 2CT7, ketamina, Ritalin e MDMA, aludindo ironicamente ao conceito (na realidade ser\u00edssimo) de \u2018psicofarmacologia cosm\u00e9tica\u2019.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEssas notas muito r\u00e1pidas sobre a neuropedagogia deveriam ser expandidas e ulteriormente comentadas. Aqui podemos s\u00f3 aludir \u00e0 neuropedagogia como exemplo de uma rea\u00e7\u00e3o militante do trabalho vivo \u00e0s psicopatologias do capitalismo cognitivo. De Metzinger dever\u00edamos apreciar a falta de fatalismo e vitimismo: trata-se mais uma vez de reclamar, defender e expandir aquele poder de abstra\u00e7\u00e3o que foi colonizado e expropriado pelo capitalismo. No programa pol\u00edtico de Deleuze e Guattari isso poderia ser traduzido com a ideia de ser mais esquizofr\u00eanicos que o capitalismo, de pensar encadeamentos revolucion\u00e1rios onde ainda n\u00e3o foram pensados, de imaginar novos corpos e encarnar novos g\u00eaneros tamb\u00e9m com a ajuda das mol\u00e9culas da psicofarmacologia. <strong>No fim, trata-se de ser mais cognitivos que o capitalismo cognitivo, n\u00e3o menos.<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/mental.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/mental.jpg\" alt=\"\" title=\"mental\" width=\"220\" height=\"230\" class=\"alignright size-full wp-image-3588\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Texto apresentado na confer\u00eancia \u2018Psychopathologies of Cognitive Capitalism\u2019 (Psicopatologias do Capitalismo Cognitivo), Berlim 7-9 de mar\u00e7o de 2013. <\/strong><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>[1] Elizabeth Grosz, \u201cDeleuze, Ruyer, and Becoming-Brain: The Music of Life\u2019s Temporality\u201d. Parrhesia journal, n. 12, 2012 (nostra traduzione).<br \/>\n[2] Maurizio Lazzarato, La politica dell\u2019evento. Cosenza: Rubbettino, 2004.<br \/>\n[3] Deborah Hauptman e Warren Neidich (a cura di). Cognitive architecture: From Biopolitics to noopolitics. Rotterdam: 010 Publishers, 2010.<br \/>\n[4] Michel Foucault, Maladie mentale et personnalit\u00e9. Paris: PUF, 1954.<br \/>\n[5] Maurice Merleau-Ponty, La Ph\u00e9nom\u00e9nologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945.<br \/>\n[6] Michel Foucault, Les Anormaux. Paris: Gallimard, 1999.<br \/>\n[7] Georges Canguilhem, Le Normal et le Pathologique. Paris: PUF, 1966.<br \/>\n[8] Kurt Goldstein,. Der Aufbau des Organismus. Den Haag: Nijhoff, 1934. Traduzione francese: La structure de l\u2019organisme. Paris: Gallimard, 1952. Traduzione inglese: The Organism. New York: American Book Company, 1939; Zone Books, 1995.<br \/>\n[9] Michel Foucault, \u201cLa vie: l\u2019exp\u00e9rience et la science\u201d. Revue de m\u00e9taphysique et de morale, vol. 90, n. 1, 1985.<br \/>\n[10] Michael Hardt e Antonio Negri, Commonwealth. Harvard University Press, 2009, p. 127 (nostra traduzione).<br \/>\n[11] Carlo Vercellone, \u201cFrom Formal Subsumption to General Intellect: Elements for a Marxist Reading of the Thesis of Cognitive Capitalism\u201d, Historical Materialism, vol. 15, n. 1, 2007.<br \/>\n[12] Deleuze and Guattari. Mille Piani, p. 376.<br \/>\n[13] Deleuze and Guattari. Mille Piani, p. 587.<br \/>\n[14] Wilhelm Worringer. Abstraktion und Einf\u00fchlung. M\u00fcnchen, 1907.<br \/>\n[15] Charles Wolfe, \u201cFrom Spinoza to the socialist cortex: Steps toward the social brain\u201d. In: Deborah Hauptman e Warren Neidich (a cura di). Cognitive architecture: From Biopolitics to noopolitics. Rotterdam: 010 Publishers, 2010.<br \/>\n[16] Vittorio Gallese, \u201cNeuroscienza delle relazioni sociali\u201d. In: Francesco Ferretti (a cura di), La mente degli altri. Roma: Editori Riuniti, 2003. Per una esauriente bibliografia sui neuroni specchio si veda la pagina personale di Vittorio Gallese: ? www.unipr.it\/arpa\/mirror\/english\/staff\/gallese.htm<br \/>\n[17] Paolo Virno, \u201cNeuroni mirror, negazione linguistica, reciproco riconoscimento\u201d. In: Forme di vita, vol. 2\/3. Roma: Derive Approdi, 2004.<br \/>\n[18] Thomas Metzinger, Ego Tunnel. New York, Basic Books, 2009. p. 234-6 (nostra traduzione).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poder de abstra\u00e7\u00e3o e o seu antagonismo. Sobre as psicopatologias do capitalismo cognitivo Por: Matteo Pasquinelli Fonte: uninomade 28\/03\/2013 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Matteo Pasquinelli por Anne Helmond \u201cA vida fende a mat\u00e9ria, elabora e contrai a mat\u00e9ria, dando vida \u00e0s virtualidades contidas no material em dire\u00e7\u00f5es desconhecidas. A vida emerge como devir-conceito, devir-pensamento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,7,9],"tags":[2073,2071,2074,2078,95,74,2072,2075,2076,2070,2077],"class_list":["post-3580","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-biodiversidade-imediata","category-devir","category-lance-de-dados","tag-abstracao","tag-as-psicopatologias-do-capitalismo-cognitivo","tag-capitalismo-cognitivo","tag-deleuze-e-guattari","tag-mario-s-mieli","tag-marx","tag-matteo-pasquinelli","tag-neurociencias","tag-neuropedagogia","tag-o-poder-de-abstracao-e-o-seu-antagonismo","tag-psicopatologias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3580"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3580\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3590,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3580\/revisions\/3590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}