{"id":3242,"date":"2013-01-22T19:14:33","date_gmt":"2013-01-22T19:14:33","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=3242"},"modified":"2013-01-22T19:14:33","modified_gmt":"2013-01-22T19:14:33","slug":"o-euro-moeda-alema-por-maurizio-lazzarato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=3242","title":{"rendered":">> O euro, moeda alem\u00e3, por Maurizio Lazzarato"},"content":{"rendered":"<p><\/br><br \/>\n<strong>O euro, moeda alem\u00e3<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Por: Maurizio Lazzarato<br \/>\nFonte: Alfapi\u00f9, <a href=\"http:\/\/www.alfabeta2.it\/2013\/01\/22\/leuro\/\">22 de janeiro de 2013 <\/a><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-capitalism-kills-love-1024x682.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-capitalism-kills-love-1024x682-300x199.jpg\" alt=\"\" title=\"claire-fontaine-capitalism-kills-love-1024x682\" width=\"300\" height=\"199\" class=\"alignright size-medium wp-image-3243\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-capitalism-kills-love-1024x682-300x199.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-capitalism-kills-love-1024x682.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nClaire Fontaine, Capitalism Kills Love (2008)<br \/>\n<\/br><br \/>\nO ordo-capitalismo (1) \u00e9 seguramente uma das inova\u00e7\u00f5es pol\u00edticas principais que est\u00e3o na origem da constru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es europeias. A l\u00f3gica da governabilidade europeia parece constru\u00edda sobre o modelo ordo-liberal. O seu m\u00e9todo de fazer emergir o \u201cEstado\u201d da \u201ceconomia\u201d est\u00e1 sendo aplicado quase ao p\u00e9 da letra. \u00c9 essa a raz\u00e3o pela qual podemos afirmar que o euro \u00e9 uma moeda alem\u00e3. Ela \u00e9 a express\u00e3o da pot\u00eancia econ\u00f4mica alem\u00e3, mas \u00e9 preciso sublinhar que a pot\u00eancia econ\u00f4mica \u00e9 insepar\u00e1vel da reconfigura\u00e7\u00e3o do Estado como \u201cEstado econ\u00f4mico\u201d, como \u201cEstado social\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO euro \u00e9 a express\u00e3o de um novo capitalismo de Estado no qual \u00e9 imposs\u00edvel separar \u201ceconomia e pol\u00edtica\u201d. A propaganda da informa\u00e7\u00e3o e dos especialistas nos faz entender o quanto \u00e9 absurdo o projeto da moeda \u00fanica, do momento que seriam necess\u00e1rias uma autoridade pol\u00edtica, um estado (ou um centro de poder assimil\u00e1vel) e uma comunidade pol\u00edtica para legitimar e fundar uma moeda. O euro operou e opera no sentido contr\u00e1rio, partindo da economia, da\u00ed sua inevit\u00e1vel fraqueza e falha. Esse ponto de vista reproduz an\u00e1lises do capitalismo de Estado do s\u00e9culo XIX e n\u00e3o consegue captar as novidades pressupostas e a din\u00e2mica do capitalismo de Estado da segunda metade do s\u00e9culo XX, inventada e praticada pelos ordo-liberais. A constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 escrita pela economia, como diria Schmitt, o Estado \u00e9 criado pela economia, como diriam os ordo-liberais.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Os pr\u00f3-europeus ao estilo de Cohn-Bendit, por outro lado, gostariam de nos fazer acreditar que a moeda \u00fanica \u00e9 uma medida absolutamente original de supera\u00e7\u00e3o do Estado-na\u00e7\u00e3o. Na realidade, como os soberanistas, eles n\u00e3o captam o que est\u00e1 em jogo com o euro, ou seja, a constru\u00e7\u00e3o de um novo espa\u00e7o de domina\u00e7\u00e3o e de explora\u00e7\u00e3o do capital. A governabilidade europeia procura construir um espa\u00e7o e uma popula\u00e7\u00e3o de dimens\u00f5es adequadas ao mercado mundial. O Estado-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o representa mais nem um territ\u00f3rio nem uma popula\u00e7\u00e3o capazes de realizar esse projeto capital\u00edstico.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Contra os soberanistas \u00e9 preciso, portanto, afirmar que o m\u00e9todo n\u00e3o \u00e9 absurdo e, contra os pr\u00f3-europeus, que \u00e9 um m\u00e9todo de poder e de explora\u00e7\u00e3o neoliberal, uma estrat\u00e9gia adequada \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es do capitalismo de Estado. Um capitalismo de Estado neoliberal que procura um espa\u00e7o diferente da Na\u00e7\u00e3o, uma \u201ccomunidade diferente\u201d da sociedade nacional para se constituir. As institui\u00e7\u00f5es europeias seguem o ensinamento dos ordo-liberais: o Estado n\u00e3o \u00e9 um pressuposto da economia (e da moeda), mas um resultado dela(s). Mais precisamente, o Estado \u00e9 uma das articula\u00e7\u00f5es desse novo dispositivo de poder capitalista que ele contribui fortemente a criar e manter. Esse projeto n\u00e3o objetiva a unidade e a coes\u00e3o da Europa, a solidariedade dos seus povos, mas um novo dispositivo de comando e de explora\u00e7\u00e3o e, portanto, de divis\u00e3o de classe. [&#8230;]<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-pigs-800x5322.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-pigs-800x5322-300x199.jpg\" alt=\"\" title=\"claire-fontaine-pigs-800x5322\" width=\"300\" height=\"199\" class=\"alignright size-medium wp-image-3244\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-pigs-800x5322-300x199.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/claire-fontaine-pigs-800x5322.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nClaire Fontaine, P.I.G.S. (2011)<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>O capital ainda precisa da \u201csoberania\u201d da moeda estatal para organizar as opera\u00e7\u00f5es de reconhecimento e de validade ou de n\u00e3o reconhecimento e n\u00e3o validade das d\u00edvidas com que estamos arcando. A finalidade desse novo dispositivo de poder de v\u00e1rias cabe\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 mais aquele da \u201cemancipa\u00e7\u00e3o radical do econ\u00f4mico respeito ao pol\u00edtico\u201d, de modo a \u201cisolar a esfera econ\u00f4mica de cada perturba\u00e7\u00e3o externa, principalmente pol\u00edtica\u201d.[&#8230;]<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A crise mostra, pelo contr\u00e1rio, que a reorganiza\u00e7\u00e3o dos dispositivos de poder supera e integra os dualismos da economia e da pol\u00edtica, do privado e do p\u00fablico, do Estado e do mercado, etc&#8230; implantando uma governabilidade de v\u00e1rias entradas. O poder do capital \u00e9 transversal \u00e0 economia, \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 sociedade. A governabilidade se define precisamente como t\u00e9cnica de conex\u00e3o e tem o dever principal de articular, para o mercado, a rela\u00e7\u00e3o entre a economia, a pol\u00edtica e o social. A governabilidade neoliberal n\u00e3o \u00e9 mais uma \u201ctecnologia do Estado\u201d, ainda que o Estado desempenhe um papel muito importante. Foucault tinha reagido aos numerosos cr\u00edticos segundo os quais a sua teoria do poder n\u00e3o inclu\u00eda uma teoria do Estado, afirmando que a governabilidade \u201cestaria para o Estado assim como as t\u00e9cnicas de segrega\u00e7\u00e3o estavam para a psiquiatria, as t\u00e9cnicas disciplinares para o sistema penal, a biopol\u00edtica para as institui\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas\u201d.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A partir dos anos \u201970 assistimos ao que poder\u00edamos chamar de uma \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d da governabilidade. Ela n\u00e3o \u00e9 mais exercida exclusivamente pelo Estado, mas por um conjunto de institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o estatais (bancos centrais, \u201cindependentes\u201d, ag\u00eancias de rating, fundos de pens\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es supranacionais, etc&#8230;) onde as administra\u00e7\u00f5es do Estado constituem apenas uma articula\u00e7\u00e3o importante, mas somente uma articula\u00e7\u00e3o. Esse funcionamento pode ser exemplificado por meio da a\u00e7\u00e3o da Troika (Comiss\u00e3o europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monet\u00e1rio Internacional) na crise. Num primeiro momento, o Estado e suas administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 favoreceram o desenvolvimento da \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d, como a executaram. Assim como executaram a liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros e a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e da sociedade. Num segundo tempo, as mesmas administra\u00e7\u00f5es assumiram as modalidades de gest\u00e3o da empresa privada para a gest\u00e3o dos servi\u00e7os sociais e do Estado social.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA crise nos mostra em tempo real a constitui\u00e7\u00e3o e o aprofundamento de um processo que Deleuze e Guattari chamam \u201ccapitalismo de Estado\u201d. O entrela\u00e7amento entre Estado e mercado, entre pol\u00edtica e economia, entre sociedade e capital foi empurrado ainda mais, aproveitando do colapso financeiro. A gest\u00e3o \u201cliberal\u201d da crise n\u00e3o hesita em incluir um \u201cEstado m\u00ednimo\u201d como um dos dispositivos da sua governabilidade. Para liberar os mercados, ela algema a sociedade, intervindo de modo maci\u00e7o, invasivo e autorit\u00e1rio na vida da popula\u00e7\u00e3o e pretendendo governar cada \u201ccomportamento\u201d. Se, como cada forma de liberalismo, ela produz as \u201cliberdades\u201d dos propriet\u00e1rios, aos n\u00e3o propriet\u00e1rios ela reserva um substituto da j\u00e1 d\u00e9bil democracia \u201cpol\u00edtica\u201d e \u201csocial\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\nTrecho do \u00faltimo livro de <strong>Maurizio Lazzarato: \u201cIl governo dele disuguaglianze\u201d (O governo das desigualdades)<\/strong>, que ser\u00e1 lan\u00e7ado amanh\u00e3, 23 de janeiro, na It\u00e1lia.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>(1)\tO <strong>ordo-liberalismo<\/strong> \u00e9 uma corrente de pensamento econ\u00f4mico fundada por um grupo de pol\u00edticos e economistas alem\u00e3es durante a d\u00e9cada de 1930-1940. Encontra-se intimamente ligada \u00e0 Escola de Friburgo e ao conceito de Economia social de mercado. Tamb\u00e9m \u00e9 chamada de Neoliberalismo alem\u00e3o.<br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Ordoliberalismo\">Wikipedia<\/a>  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O euro, moeda alem\u00e3 Por: Maurizio Lazzarato Fonte: Alfapi\u00f9, 22 de janeiro de 2013 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Claire Fontaine, Capitalism Kills Love (2008) O ordo-capitalismo (1) \u00e9 seguramente uma das inova\u00e7\u00f5es pol\u00edticas principais que est\u00e3o na origem da constru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es europeias. A l\u00f3gica da governabilidade europeia parece constru\u00edda sobre o modelo ordo-liberal. 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