{"id":3069,"date":"2012-11-21T23:07:33","date_gmt":"2012-11-21T23:07:33","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=3069"},"modified":"2012-11-21T23:09:42","modified_gmt":"2012-11-21T23:09:42","slug":"a-ditadura-da-tecnologia-%e2%80%93-uma-hegemonia-que-deforma-os-afetos-%e2%80%9cmata%e2%80%9d-o-%e2%80%9cproximo%e2%80%9d-e-nos-faz-muito-mal-por-luigi-zoja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=3069","title":{"rendered":">> A ditadura da tecnologia \u2013 uma hegemonia que deforma os afetos, \u201cmata\u201d o \u201cpr\u00f3ximo\u201d e nos faz muito mal, por Luigi Zoja"},"content":{"rendered":"<p><\/br><br \/>\n<strong>A ditadura da tecnologia \u2013 uma hegemonia que deforma os afetos, \u201cmata\u201d o \u201cpr\u00f3ximo\u201d e nos faz muito mal<br \/>\nPor: Luigi Zoja<br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/cerca.unita.it\/ARCHIVE\/xml\/2480000\/2479159.xml?key=Luigi+Zoja&#038;first=1&#038;orderby=1\">L\u2019Unit\u00e0 <\/a>de 8\/11\/2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/humano-ogm.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/humano-ogm.jpg\" alt=\"\" title=\"humano-ogm\" width=\"500\" height=\"400\" class=\"alignright size-full wp-image-3070\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/humano-ogm.jpg 500w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/humano-ogm-300x240.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nAtrav\u00e9s de um percurso subterr\u00e2neo, universal e transversal, que ataca cada povo com a hipermoderniza\u00e7\u00e3o, nos foi imposta uma nova \u201cditadura\u201d: uma hegemonia autorit\u00e1ria n\u00e3o de certas formas pol\u00edticas, mas de <strong>um universo econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico<\/strong> sem precedentes em toda a hist\u00f3ria humana.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Esse processo envolve e deforma os nossos afetos e as nossas rela\u00e7\u00f5es com os outros, as nossas emo\u00e7\u00f5es e o controle de nosso sistema neuronal. <strong>H\u00e1 tempo a cr\u00edtica do consumismo exasperado nos diz que comprando objetos e progresso, nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 desviada dos seres humanos e \u00e9 redirecionada para as compras e as coisas<\/strong>. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, tamb\u00e9m aprendemos que a t\u00e9cnica gera (por exemplo, por meio de telefones celulares) rela\u00e7\u00f5es antes inexistentes com quem est\u00e1 distante mas, em troca, leva embora o afeto por quem est\u00e1 perto e nos libera das responsabilidades que isso envolvia.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>S\u00e3o duas as causas \u2013 profundas e irrevers\u00edveis \u2013  que concorrem \u00e0 atual aliena\u00e7\u00e3o. <strong>A primeira \u00e9 o anonimato da civiliza\u00e7\u00e3o de massas<\/strong>. At\u00e9 um s\u00e9culo atr\u00e1s, a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial (bem mais que 90%) era agr\u00edcola: uma condi\u00e7\u00e3o dominante tamb\u00e9m nos pa\u00edses ent\u00e3o mais ricos, na Am\u00e9rica do Norte e na Europa Central e Setentrional. A economia e a sociedade eram prevalentemente locais: a maioria das pessoas vivia no mesmo lugar por toda a vida (o fasc\u00ednio amb\u00edguo do servi\u00e7o militar consistia, em grande parte, em ser um dos poucos eventos que podia levar a pessoa para longe). E a maior parte da popula\u00e7\u00e3o conhecia apenas 200, no m\u00e1ximo 300 pessoas durante a vida inteira. <strong>O animal homem, por outro lado, evoluiu, durante grande parte de sua hist\u00f3ria, como n\u00f4made que vagava em pequenas bandas dentro de territ\u00f3rios quase vazios.<\/strong> O seu sistema nervoso \u00e9, portanto, predisposto a reconhecer, memorizar e acolher positivamente um n\u00famero bem limitado de faces.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ALGU_M_EM_MEIO_A_MULTID_O.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ALGU_M_EM_MEIO_A_MULTID_O-300x200.jpg\" alt=\"\" title=\"ALGU_M_EM_MEIO_A_MULTID_O\" width=\"300\" height=\"200\" class=\"alignright size-medium wp-image-3071\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ALGU_M_EM_MEIO_A_MULTID_O-300x200.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ALGU_M_EM_MEIO_A_MULTID_O.jpg 560w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>VIDA NA CIDADE<\/strong><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Por\u00e9m, desde 2008, segundo as Na\u00e7\u00f5es Unidas, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o terrestre vive em cidades.<\/strong><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>\u00c9 uma mudan\u00e7a sem precedentes, mais importante que a passagem da hegemonia mundial dos Estados Unidos para a China. A China tamb\u00e9m ser\u00e1 uma breve apari\u00e7\u00e3o no palco das eras: outros protagonistas subir\u00e3o e decair\u00e3o como aconteceu com o Imp\u00e9rio Persa, e com aquele de Alexandre, com Roma, com a Espanha e a Inglaterra. <strong>A cidade, pelo contr\u00e1rio, diz o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas, n\u00e3o ceder\u00e1 mais a primazia para o campo.<\/strong> Nas cidades, o indiv\u00edduo m\u00e9dio que sai \u00e0 rua, usa meios de transporte p\u00fablicos, visita escrit\u00f3rios e supermercados, v\u00ea milhares de novos rostos an\u00f4nimos: n\u00e3o durante a vida, mas a cada dia. O seu sistema nervoso, os seus mecanismos (animais e naturais) de alarme frente aos desconhecidos, s\u00e3o constantemente mobilizados: n\u00e3o percebe isso s\u00f3 porque se trata de uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfica, mas permanente. <strong>Vive num estado (rastejante, inconsciente) de estresse e desconfian\u00e7a para com os outros. N\u00e3o sorri mais reconhecendo os rostos, como faziam seus antepassados na aldeia. Para reconhecer os rostos, liga-se a televis\u00e3o.<\/strong> Os sorrisos artificiais e an\u00f4nimos de atores e apresentadores que nunca encontrou lhe s\u00e3o familiares: s\u00e3o sua fam\u00edlia, tecnol\u00f3gica e pr\u00e9-confeccionada.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao-2-300x225.jpg\" alt=\"\" title=\"solidao-2\" width=\"300\" height=\"225\" class=\"alignright size-medium wp-image-3073\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao-2.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>O segundo fator de dist\u00e2ncia e perda do pr\u00f3ximo consiste, efetivamente, na tecnologia.<\/strong> A tecnologia fez coisas maravilhosas que multiplicam a possibilidade de interagir com os outros. Mas j\u00e1 faz bastante tempo que o alarme foi dado: os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de us\u00e1-la, tornam-se dependentes dela como de uma droga e perdem a capacidade de comunicar, em vez de enriquecer essa capacidade. A esse fen\u00f4meno foi dado o nome de <strong>\u201cParadoxo da internet\u201d<\/strong>. Mais recentemente, publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas nos forneceram dados concretos. Entre 1987-2007, o n\u00famero de horas di\u00e1rias que o cidad\u00e3o ingl\u00eas m\u00e9dio passa em frente a meios de comunica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nicos, subiu de 4 a 8, aproximadamente.  No mesmo per\u00edodo, o tempo passado comunicando com pessoas reais diminuiu de 6 para pouco mais de 2.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Tudo isso \u00e9 m\u00f3rbido, em todos os sentidos.<\/strong> \u00c9 injusto, nos sugere instintivamente tanto a moral leiga quanto a religiosa. \u00c9 prejudicial psicologicamente, como procurei argumentar num breve ensaio sobre a Morte do pr\u00f3ximo. Mas \u00e9 tamb\u00e9m muito antinatural para o nosso corpo, constituindo um grave fator pat\u00f3geno:  a substitui\u00e7\u00e3o dos contatos sociais com os eletr\u00f4nicos pode, por exemplo, favorecer altera\u00e7\u00f5es nos leuc\u00f3citos e diminuir a resist\u00eancia contra os tumores.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Segundo a Escola de Medicina de Harvard, nas pessoas com mais de 50 anos socialmente isoladas, a perda de mem\u00f3ria avan\u00e7a com uma velocidade duas vezes maior, a respeito daquelas integradas.<\/strong> E assim por diante. Em condi\u00e7\u00f5es similares, nos habituamos cada vez mais a recitar as rela\u00e7\u00f5es humanas e afetivas assim como nos s\u00e3o propostas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, em vez de nos relacionarmos de verdade. Tendo observado a acelera\u00e7\u00e3o desses fen\u00f4menos  nos \u00faltimos dec\u00eanios e medido as consequ\u00eancias devastadoras nos pr\u00f3prios pacientes \u2013 um psicanalista \u2013 como eu, de profiss\u00e3o \u2013 permitiu-se sair de seu \u00e2mbito profissional e fazer uma pergunta a te\u00f3logos e fil\u00f3sofos.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Durante mil\u00eanios, um duplo mandamento regeu a moral judaico-crist\u00e3: ama a Deus e a teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. <strong>No fim do s\u00e9culo XIX, Nietzsche anunciou: Deus morreu. Passado o s\u00e9culo XX tamb\u00e9m, n\u00e3o seria hora de completarmos aquela afirma\u00e7\u00e3o? Morreu tamb\u00e9m o pr\u00f3ximo.<\/strong> Perdemos tamb\u00e9m a segunda parte do mandamento porque n\u00e3o temos mais a experi\u00eancia daquela verdade que nos era transmitida pela tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. Tanto em hebraico, no Lev\u00edtico, quando em grego, nos Evangelhos, \u201cpr\u00f3ximo\u201d significava: o seu vizinho, aquele que voc\u00ea v\u00ea, sente, pode tocar.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Na complexidade das t\u00e9cnicas e da sociedade urbana, a experi\u00eancia da proximidade parece ter desaparecido para sempre. <\/p>\n<p><\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao_amplia\u00e7\u00e3ofotos-r21fa52a0c35c4940bbe91dd96c9d0005_weqw_216.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao_amplia\u00e7\u00e3ofotos-r21fa52a0c35c4940bbe91dd96c9d0005_weqw_216.jpg\" alt=\"\" title=\"solidao_amplia\u00e7\u00e3ofotos-r21fa52a0c35c4940bbe91dd96c9d0005_weqw_216\" width=\"216\" height=\"216\" class=\"alignright size-full wp-image-3074\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao_amplia\u00e7\u00e3ofotos-r21fa52a0c35c4940bbe91dd96c9d0005_weqw_216.jpg 216w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/solidao_amplia\u00e7\u00e3ofotos-r21fa52a0c35c4940bbe91dd96c9d0005_weqw_216-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 216px) 100vw, 216px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ditadura da tecnologia \u2013 uma hegemonia que deforma os afetos, \u201cmata\u201d o \u201cpr\u00f3ximo\u201d e nos faz muito mal Por: Luigi Zoja Fonte: L\u2019Unit\u00e0 de 8\/11\/2012 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Atrav\u00e9s de um percurso subterr\u00e2neo, universal e transversal, que ataca cada povo com a hipermoderniza\u00e7\u00e3o, nos foi imposta uma nova \u201cditadura\u201d: uma hegemonia autorit\u00e1ria n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[1771,1772,1768,1773,95,1769,1770,36,1774],"class_list":["post-3069","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lance-de-dados","tag-a-morte-de-deus","tag-a-morte-do-proximo","tag-ditadura-da-tecnologia","tag-luigi-zoja","tag-mario-s-mieli","tag-tecnocracia","tag-tecnoditadura","tag-tecnologia","tag-virtual-x-real"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3069","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3069"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3069\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3078,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3069\/revisions\/3078"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3069"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3069"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3069"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}