{"id":2652,"date":"2012-09-20T14:30:47","date_gmt":"2012-09-20T14:30:47","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=2652"},"modified":"2012-09-20T14:34:06","modified_gmt":"2012-09-20T14:34:06","slug":"construir-uma-nova-sociedade-da-abundancia-para-evitar-o-destino-funesto-de-uma-obsolescencia-planejada-da-humanidade-por-serge-latouche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=2652","title":{"rendered":">> Construir uma nova sociedade da abund\u00e2ncia para evitar o destino funesto de uma obsolesc\u00eancia planejada da humanidade, por Serge Latouche"},"content":{"rendered":"<p><strong>Construir uma nova sociedade da abund\u00e2ncia para evitar o destino funesto de uma obsolesc\u00eancia planejada da humanidade, por Serge Latouche<br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/www.repubblica.it\/speciali\/repubblica-delle-idee\/edizione2012\/2012\/09\/14\/news\/latouche_facciamo_economia_per_costruire_una_nuova_societ_dell_abbondanza-42525766\/?ref=search\">La Repubblica<\/a> de 14\/09\/2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Consumo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Consumo.jpg\" alt=\"\" title=\"Consumo\" width=\"651\" height=\"442\" class=\"alignright size-full wp-image-2653\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Consumo.jpg 651w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Consumo-300x203.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 651px) 100vw, 651px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nVivemos numa sociedade do crescimento, ou seja, uma sociedade dominada por uma economia que tende a se deixar absorver pelo crescimento como fim em si mesmo, objetivo primordial, quando n\u00e3o \u00fanico, da vida. Justamente por isso, <strong>a sociedade de consumo \u00e9 o \u00eaxito tido como certo de um mundo fundado sobre uma tr\u00edplice aus\u00eancia de limite:<\/strong> na produ\u00e7\u00e3o e, portanto, na retirada dos recursos renov\u00e1veis e n\u00e3o renov\u00e1veis, na cria\u00e7\u00e3o de necessidades \u2013 e na emiss\u00e3o de esc\u00f3rias de polui\u00e7\u00e3o (do ar, da terra e da \u00e1gua).<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>O cora\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gico da sociedade do crescimento se torna, ent\u00e3o, a depend\u00eancia dos seus membros com rela\u00e7\u00e3o ao consumo.<\/strong> Por um lado, o fen\u00f4meno se explica com a l\u00f3gica do sistema, e por outro, com um instrumento privilegiado da coloniza\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio, a propaganda\/publicidade. E encontra <strong>uma explica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica no jogo da necessidade e do desejo<\/strong>. Usando uma met\u00e1fora, nos tornamos \u201ctoxicodependentes\u201d do crescimento. Que tem muitas formas, j\u00e1 que \u00e0 bulimia da compra \u2013 somos todos \u201cturboconsumidores\u201d \u2013 corresponde o \u201cworkaholismo\u201d, a depend\u00eancia do trabalho. Um mecanismo que tende a produzir infelicidade porque est\u00e1 baseado na cont\u00ednua cria\u00e7\u00e3o de desejo.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam_1.jpg\" alt=\"\" title=\"Drew-Beam_1\" width=\"261\" height=\"400\" class=\"alignright size-full wp-image-2654\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam_1.jpg 261w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam_1-195x300.jpg 195w\" sizes=\"auto, (max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nMas o desejo, diferentemente das necessidades, n\u00e3o conhece limites. J\u00e1 que est\u00e1 voltado a um objeto perdido e n\u00e3o encontr\u00e1vel, como dizem os psicanalistas. Sem poder achar o \u201csignificante perdido\u201d, se fixa no poder, na riqueza, no sexo ou no amor, todas coisas cuja sede n\u00e3o conhece saciedade. (&#8230;) Tamb\u00e9m por isso \u00e9 \u00fatil imaginar um novo modelo. Econ\u00f4mico e existencial. Assim, a redefini\u00e7\u00e3o de felicidade como \u201cabund\u00e2ncia frugal em uma sociedade solid\u00e1ria\u201d, corresponde \u00e0 for\u00e7a de ruptura do projeto de decrescimento. <strong>Ela sup\u00f5e sair-se do c\u00edrculo infernal da cria\u00e7\u00e3o ilimitada de necessidades e produtos e da frustra\u00e7\u00e3o crescente que ela gera  e, de modo complementar, temperar o ego\u00edsmo resultante de um individualismo de massas<\/strong>. Sair da sociedade do consumo \u00e9, assim, uma necessidade, mas o projeto iconoclasta de <strong>se construir uma sociedade de \u201cfrugal abund\u00e2ncia\u201d<\/strong> s\u00f3 pode causar obje\u00e7\u00f5es e colidir com formas de resist\u00eancia, seja quais forem os cursos e os percursos do decrescimento.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm primeiro lugar, nos perguntaremos, a pr\u00f3pria express\u00e3o \u201cabund\u00e2ncia frugal\u201d n\u00e3o seria, talvez, um oximoro pior daquele corretamente denunciado do desenvolvimento sustent\u00e1vel? No m\u00e1ximo, podemos conceber e aceitar uma \u201cprosperidade sem crescimento\u201d. Segundo a proposta do ex-conselheiro para o meio-ambiente do governo trabalhista, Tim Jackson, todavia uma abund\u00e2ncia na frugalidade \u00e9 realmente excessivo! De fato, at\u00e9 que permanecermos <strong>bitolados no imagin\u00e1rio do crescimento<\/strong>, s\u00f3 podemos ver nisso uma insuport\u00e1vel provoca\u00e7\u00e3o. Mas se, pelo contr\u00e1rio, abandonarmos certa l\u00f3gicas, talvez fique evidente que a frugalidade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o preliminar respeito a todas as formas de abund\u00e2ncia.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/imagens-divertidas-um-apelo-ao-consumo-exagerado-rd4rjhdkg1o.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/imagens-divertidas-um-apelo-ao-consumo-exagerado-rd4rjhdkg1o-201x300.jpg\" alt=\"\" title=\"imagens-divertidas-um-apelo-ao-consumo-exagerado--rd4rjhdkg1o\" width=\"201\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-2655\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/imagens-divertidas-um-apelo-ao-consumo-exagerado-rd4rjhdkg1o-201x300.jpg 201w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/imagens-divertidas-um-apelo-ao-consumo-exagerado-rd4rjhdkg1o.jpeg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 201px) 100vw, 201px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nA abund\u00e2ncia consumista pretende gerar felicidade atrav\u00e9s da satisfa\u00e7\u00e3o dos desejos de todos, mas isso depende de rendas distribu\u00eddas de modo desigual e, de todo modo, sempre insuficientes para permitir \u00e0 imensa maioria de cobrir as despesas de base necess\u00e1rias, especialmente quando o patrim\u00f4nio natural foi dilapidado. <strong>Indo no sentido oposto ao desta l\u00f3gica, a sociedade do decrescimento se prop\u00f5e de trazer a felicidade da humanidade por meio da autolimita\u00e7\u00e3o, para poder alcan\u00e7ar a \u201cabund\u00e2ncia frugal\u201d<\/strong>. Como toda sociedade humana, uma sociedade de decrescimento dever\u00e1, certamente, organizar a produ\u00e7\u00e3o de sua vida, isto \u00e9, utilizar de um modo razo\u00e1vel os recursos do seu meio-ambiente e consumi-los atrav\u00e9s dos bens materiais e servi\u00e7os. Mas o far\u00e1 um pouco como aquelas \u201csociedades da abund\u00e2ncia\u201d descritas pelo antrop\u00f3logo  <strong>Marshall Salhins<\/strong>, que ignoram a l\u00f3gica viciosa da raridade, das necessidades, do c\u00e1lculo econ\u00f4mico.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEsses fundamentos imagin\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o da economia precisam ser postos em discuss\u00e3o. <strong>Jean Baudrillard<\/strong> tinha visto isso muito bem, quando disse que \u201cuma das contradi\u00e7\u00f5es do crescimento \u00e9 que ele  produz ao mesmo tempo bens e necessidades, mas n\u00e3o os produz no mesmo ritmo\u201d. O resultado \u00e9 o que ele chama de \u201c<strong>uma pauperiza\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica<\/strong>\u201d, um estado de insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada que define afirma ele, \u201ca sociedade do crescimento como o contr\u00e1rio de uma sociedade da abund\u00e2ncia\u201d. A verdadeira pobreza reside, de fato, na perda da autonomia e na depend\u00eancia.<br \/>\n<\/br><br \/>\nUm prov\u00e9rbio dos nativos americanos explica bem esse conceito: \u201c<strong>Ser dependentes significa ser pobres, ser independentes significa aceitar de n\u00e3o enriquecer<\/strong>\u201d. Somos, portanto, pobres, ou mais exatamente m\u00edseros, n\u00f3s que somos prisioneiros de tantas pr\u00f3teses. A reencontrada frugalidade permite precisamente reconstruir uma sociedade da abund\u00e2ncia na base do que <strong>Ivan Illich<\/strong> chamava de \u201c<strong>subsist\u00eancia moderna<\/strong>\u201d. Ou seja, \u201co modo de viver em uma economia p\u00f3s-industrial, no interior da qual as pessoas conseguiram reduzir sua depend\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o ao mercado, protegendo \u2013 atrav\u00e9s de instrumentos pol\u00edticos \u2013 uma infraestrutura na qual as t\u00e9cnicas e os instrumentos servem, em primeiro lugar, para criar valores de uso n\u00e3o quantificados e n\u00e3o qualific\u00e1veis por parte dos fabricantes profissionais de necessidades\u201d. <strong>O crescimento do bem estar \u00e9, assim, o caminho principal do decrescimento, posto que estando felizes, estamos menos sujeitos \u00e0 propaganda e a compuls\u00e3o do desejo<\/strong>. Muitas dessas op\u00e7\u00f5es implicam uma mudan\u00e7a na nossa atitude tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Imagem31.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Imagem31.png\" alt=\"\" title=\"Imagem3\" width=\"389\" height=\"335\" class=\"alignright size-full wp-image-2660\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Imagem31.png 389w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Imagem31-300x258.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 389px) 100vw, 389px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nAinda me lembro de minha primeira laranja, encontrada dentro do meu sapato, no dia de Natal, no fim da guerra. Lembro-me, tamb\u00e9m, alguns anos depois, dos primeiros cubos de gelo que um vizinho rico, que tinha uma geladeira, nos trazia, durante as noites de ver\u00e3o e que n\u00f3s mord\u00edamos deliciados como fossem iguarias.<br \/>\n<\/br><br \/>\nUma falsa abund\u00e2ncia comercial destruiu a nossa capacidade de nos maravilharmos diante dos dons da natureza (ou da engenhosidade humana que transforma esses dons). Reencontrar essa capacidade suscet\u00edvel <strong>de desenvolver uma atitude de fidelidade e de reconhecimento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e-Terra<\/strong>, ou tamb\u00e9m uma certa nostalgia, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para o sucesso do projeto de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade de decrescimento sereno, assim como a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria <strong>para evitar o destino funesto de uma obsolesc\u00eancia planejada da humanidade<\/strong>.<br \/>\n <\/br><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam.jpg\" alt=\"\" title=\"Drew-Beam\" width=\"301\" height=\"400\" class=\"alignright size-full wp-image-2656\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam.jpg 301w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Drew-Beam-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Construir uma nova sociedade da abund\u00e2ncia para evitar o destino funesto de uma obsolesc\u00eancia planejada da humanidade, por Serge Latouche Fonte: La Repubblica de 14\/09\/2012 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Vivemos numa sociedade do crescimento, ou seja, uma sociedade dominada por uma economia que tende a se deixar absorver pelo crescimento como fim em si mesmo, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[638,1470,95,1515,1516,1514,1513],"class_list":["post-2652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lance-de-dados","tag-ivan-illich","tag-jean-beaudrillard","tag-mario-s-mieli","tag-marshall-salhins","tag-obsolescencia-planejada-da-humanidade","tag-serge-latouche","tag-sociedade-do-decrescimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2652"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2661,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2652\/revisions\/2661"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}