{"id":2098,"date":"2012-07-10T01:42:04","date_gmt":"2012-07-10T01:42:04","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=2098"},"modified":"2012-07-10T02:44:12","modified_gmt":"2012-07-10T02:44:12","slug":"como-pensar-por-chris-hedges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=2098","title":{"rendered":">> Como pensar, por Chris Hedges"},"content":{"rendered":"<p><\/br><br \/>\n<strong>Como pensar<br \/>\nPor: Chris Hedges<\/strong><br \/>\n<strong>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.commondreams.org\/view\/2012\/07\/09-8\">CommonDreams<\/a> de 9\/7\/2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/big_352564_2136_LOW_10_EX3_sla12.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/big_352564_2136_LOW_10_EX3_sla12.jpg\" alt=\"\" title=\"big_352564_2136_LOW_10_EX3_sla1\" width=\"960\" height=\"640\" class=\"alignright size-full wp-image-2110\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/big_352564_2136_LOW_10_EX3_sla12.jpg 960w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/big_352564_2136_LOW_10_EX3_sla12-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>As culturas que perduram s\u00e3o aquelas que entalham um espa\u00e7o protegido para quem questiona e desafia os mitos nacionais. Artistas, escritores, poetas, ativistas, jornalistas, fil\u00f3sofos, bailarinos, m\u00fasicos, atores, diretores e renegados precisam ser tolerados se quisermos impedir que uma cultura desabe no precip\u00edcio. Membros dessa classe intelectual e art\u00edstica, geralmente n\u00e3o bem-vindos nos halls estupidificantes do mundo acad\u00eamico, onde a mediocridade \u00e9 triunfante, servem como profetas. Eles s\u00e3o desqualificados ou rotulados pelas elites no poder como subversivos, pois n\u00e3o adotam a auto-adora\u00e7\u00e3o coletiva. Eles nos obrigam a nos confrontarmos com as suposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o examinadas, aquelas que, se n\u00e3o forem questionadas, levam \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. Eles exp\u00f5em o vazio e a corrup\u00e7\u00e3o dessas elites no comando. Eles articulam a falta de sentido de um sistema constru\u00eddo na ideologia do crescimento infinito, na intermin\u00e1vel explora\u00e7\u00e3o e na constante expans\u00e3o. Eles nos advertem sobre o veneno do carreirismo e a futilidade da busca da felicidade por meio da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza. Eles fazem com que nos encaremos a n\u00f3s mesmos, da amarga realidade da escravid\u00e3o e de Jim Crow, ao assassinato genocida dos nativos-americanos e \u00e0 repress\u00e3o dos movimentos da classe oper\u00e1ria, \u00e0s atrocidades perpetradas nas guerras imperiais, \u00e0s investidas contra o ecossistema. Eles nos fazem duvidar de nossa virtude. Eles desafiam os f\u00e1ceis clich\u00e9s que usamos para descrever a na\u00e7\u00e3o \u2013 a terra dos livres, o maior pa\u00eds do mundo, o farol da liberdade \u2013 para expor o nosso lado cego e escuro, crimes e ignor\u00e2ncia. Eles oferecem a possibilidade de uma vida com significado e a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/impossibile-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/impossibile-1-300x252.jpg\" alt=\"\" title=\"impossibile-1\" width=\"300\" height=\"252\" class=\"alignright size-medium wp-image-2101\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/impossibile-1-300x252.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/impossibile-1.jpg 558w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>As sociedades humanas enxergam o que elas querem ver. Criam mitos nacionais de identidade a partir de um composto de eventos hist\u00f3ricos e de fantasia. Ignoram aqueles fatos desagrad\u00e1veis que penetram, intrusos, na autoglorifica\u00e7\u00e3o. Confiam ingenuamente na no\u00e7\u00e3o de progresso linear e na presun\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio nacional. \u00c9 isso o nacionalismo \u2013 mentiras. E se uma cultura perde a sua capacidade de pensar e de se expressar, se ela silencia eficazmente as vozes dissidentes, se ela recua ao que Sigmund Freud chamava de \u201cmem\u00f3rias de tela\u201d, aquelas medidas reconfortantes de fato e fic\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o ela morre. Renuncia a seus mecanismos internos a favor de uma profunda auto-desilus\u00e3o. Declara guerra contra a beleza e a verdade. Abole o sagrado. Torna a educa\u00e7\u00e3o um mero treinamento vocacional. Deixa-nos cegos. E \u00e9 isso o que ocorreu. Estamos perdidos em alto mar durante uma forte tempestade. N\u00e3o sabemos onde estamos. N\u00e3o sabemos para onde vamos. E n\u00e3o sabemos o que est\u00e1 prestes a nos acontecer.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/50310_251980484889337_1437187870_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/50310_251980484889337_1437187870_n.jpg\" alt=\"\" title=\"50310_251980484889337_1437187870_n\" width=\"180\" height=\"148\" class=\"alignright size-full wp-image-2102\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nO psicanalista <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/John_Steiner_%28psychoanalyst%29\">John Steiner<\/a> chama esse fen\u00f4meno de \u201cfazer vista grossa\u201d. Ele observa que, com frequ\u00eancia, temos acesso a um conhecimento adequado mas, como esse conhecimento \u00e9 desagrad\u00e1vel e desconcertante, inconscientemente, e \u00e0s vezes conscientemente, preferimos ignor\u00e1-lo. Ele usa a hist\u00f3ria de \u00c9dipo para ilustrar seu ponto de vista. Argumentava que \u00c9dipo, Jocasta, Creonte e o \u201ccego\u201d Tir\u00e9sias aferravam a verdade, que \u00c9dipo tinha matado seu pai e se casado com sua m\u00e3e, conforme profetizado, mas que conspiraram, ignorando o fato. N\u00f3s tamb\u00e9m, escreveu Steiner, fazemos vista grossa para os perigos com os quais nos defrontamos, apesar da pletora de evid\u00eancia de que se n\u00e3o reconfigurarmos radicalmente nossos relacionamentos os uns com os outros e com o mundo natural, a cat\u00e1strofe \u00e9 garantida. Steiner descreve uma verdade psicol\u00f3gica profundamente assustadora.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/impossibile-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/impossibile-5.jpg\" alt=\"\" title=\"impossibile-5\" width=\"300\" height=\"171\" class=\"alignright size-full wp-image-2103\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nEu vi essa capacidade coletiva de auto-ilus\u00e3o entre as elites urbanas em Sarajevo e, depois, em Pristina, durante as guerras na B\u00f3snia e em Kosovo. Essas elites instru\u00eddas se recusavam firmemente de acreditar que a guerra fosse poss\u00edvel, embora os atos de viol\u00eancia por parte de bandas armadas concorrentes j\u00e1 tinha come\u00e7ado a dilacerar o tecido social. De noite, podiam-se ouvir os tiros. Mas essas elites foram as \u00faltimas a \u201csaber\u201d. N\u00f3s somos igualmente auto-iludidos. A evid\u00eancia f\u00edsica de decad\u00eancia nacional \u2013 as infraestruturas desmoronando, as f\u00e1bricas e outros lugares de trabalho abandonados \u2013 que enxergamos fisicamente mas, de fato, n\u00e3o vemos. A r\u00e1pida e terrificante deteriora\u00e7\u00e3o do ecossistema, evidenciado por crescentes temperaturas, secas, inunda\u00e7\u00f5es, destrui\u00e7\u00e3o de safras, tempestades an\u00f4malas, calotas polares que derretem e aumento do n\u00edvel dos oceanos s\u00e3o recebidos com a \u201cvista grossa\u201d de Steiner.<br \/>\n<\/br><br \/>\n\u00c9dipo, no fim da trag\u00e9dia de S\u00f3focles, arranca seus olhos e, com sua filha Ant\u00edgone como guia, vagueia pelo interior do pa\u00eds. Outrora rei, ele se torna um estrangeiro num pa\u00eds estrangeiro. Ele morre, nas palavras de Ant\u00edgone, \u201cnuma terra estrangeira, mas pela qual ele ansiava\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\nWilliam Shakespeare, em \u201cO Rei Lear\u201d, usa o mesmo tema da vis\u00e3o e da cegueira. Aqueles que t\u00eam olhos em \u201cO Rei Lear\u201d s\u00e3o incapazes de ver. Gloucester, cujos olhos forram arrancados, encontra em sua cegueira uma verdade revelada. \u201cEu n\u00e3o tenho sa\u00edda, e portanto n\u00e3o quero olhos\u201d, Gloucester diz, depois de ficar cego, \u201cEu tropecei quando via\u201d. Quando Lear bane sua \u00fanica filha leal, Cord\u00e9lia, a quem ele acusa de n\u00e3o am\u00e1-lo o suficiente, grita: \u201cFora de minha vista!\u201d Ao que Kent responde:<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/King-Lear.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/King-Lear-218x300.jpg\" alt=\"\" title=\"King Lear\" width=\"218\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-2104\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/King-Lear-218x300.jpg 218w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/King-Lear.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 218px) 100vw, 218px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nVeja melhor, Lear, e me deixe continuar a ser o verdadeiro branco do seu olho. A hist\u00f3ria de Lear, como a hist\u00f3ria de \u00c9dipo, \u00e9 sobre a capacidade de se conseguir essa vis\u00e3o interior. \u00c9 sobre a moralidade e o intelecto que ficam cegos pelo empirismo e pela vis\u00e3o. \u00c9 sobre a compreens\u00e3o de que a imagina\u00e7\u00e3o humana \u00e9, conforme viu William Blake, nossa manifesta\u00e7\u00e3o da Eternidade. \u201cAmor sem imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 morte eterna\u201d.   <\/br><br \/>\nO estudioso shakespeariano <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Harold_Clarke_Goddard\">Harold Goddard<\/a> escreveu: \u201cA imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma faculdade para a cria\u00e7\u00e3o de ilus\u00e3o; \u00e9 a faculdade pela qual somente o homem aferra a realidade. A \u2018ilus\u00e3o\u2019 revela ser verdadeira\u201d. \u201cDeixe a f\u00e9 desapossar o fato\u201d, Starbuck diz em \u201cMoby Dick\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201c\u00c9 apenas o nosso absurdo preconceito \u2018cient\u00edfico\u2019 de que a realidade deve ser f\u00edsica e racional que nos cega com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade,\u201d advertiu Goddard. Como Shakespeare escreveu: \u201cH\u00e1 coisas invis\u00edveis aos olhos dos mortais\u201d. Mas essas coisas n\u00e3o s\u00e3o vocacionais ou factuais ou emp\u00edricas. Elas n\u00e3o se encontram nos mitos nacionais de gl\u00f3ria e poder. Elas n\u00e3o se conseguem pela for\u00e7a. Elas n\u00e3o chegam atrav\u00e9s da cogni\u00e7\u00e3o ou do racioc\u00ednio l\u00f3gico. Elas s\u00e3o intang\u00edveis. Elas s\u00e3o a realidade da beleza, da dor, do amor, da busca por um sentido, da luta para encararmos nossa pr\u00f3pria mortalidade e da habilidade de encarar a verdade. E as culturas que desprezam essas for\u00e7as da imagina\u00e7\u00e3o cometem suic\u00eddio. Elas se tornam incapazes de ver.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5114767-un-scheletro-che-e-difficile-pensare.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5114767-un-scheletro-che-e-difficile-pensare-294x300.jpg\" alt=\"\" title=\"5114767-un-scheletro-che-e-difficile-pensare\" width=\"294\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-2105\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5114767-un-scheletro-che-e-difficile-pensare-294x300.jpg 294w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5114767-un-scheletro-che-e-difficile-pensare.jpg 393w\" sizes=\"auto, (max-width: 294px) 100vw, 294px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201cComo, com essa c\u00f3lera, pode a beleza manter um apelo\u201d, escreveu Shakespeare, \u201cQue a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais forte que uma flor?\u201d A imagina\u00e7\u00e3o humana, a capacidade de se ter vis\u00e3o, de construir uma vida de significado mais que de utilitarismo, \u00e9 t\u00e3o delicada quanto uma flor. E se for esmagada, se um Shakespeare ou um S\u00f3focles n\u00e3o s\u00e3o mais considerados \u00fateis no mundo emp\u00edrico dos neg\u00f3cios, do carreirismo e do poder corporativo, se as universidades considerarem um Milton Friedman ou um <a href=\"http:\/\/mises.org\/page\/1454\/Biography-of-F-A-Hayek-18991992\">Friedrich Hayek<\/a> mais importantes que uma Virginia Wolf ou um Anton Chekhov, ent\u00e3o nos tornamos b\u00e1rbaros. Estamos garantindo nossa pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o. Estudantes aos quais se nega a sabedoria dos grandes or\u00e1culos da civiliza\u00e7\u00e3o humana \u2013 vision\u00e1rios que nos incitam a n\u00e3o nos adorarmos a n\u00f3s mesmos, a n\u00e3o nos ajoelharmos diante da emo\u00e7\u00e3o humana b\u00e1sica da gan\u00e2ncia \u2013 n\u00e3o podem ser educados. Eles n\u00e3o podem pensar.<br \/>\n<\/br><br \/>\nPara pensar, conforme compreendia Epicuro, \u201cprecisamos viver na clandestinidade\u201d. Precisamos construir muros para deixar fora a hipocrisia e o ru\u00eddo  da multid\u00e3o. Precisamos nos recolher numa cultura baseada na impress\u00e3o onde as ideias n\u00e3o s\u00e3o deformadas em frases de efeito e clich\u00e9s encerra-pensamento. Pensar, escreveu <a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/arendt\/\">Hannah Arendt<\/a>, \u201c\u00e9 um di\u00e1logo sem som entre eu e mim mesma\u201d. Mas pensar, segundo seus escritos, sempre pressup\u00f5e a condi\u00e7\u00e3o humana de pluralidade. N\u00e3o tem qualquer fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 um fim ou um alvo fora de si mesmo. \u00c9 diferente de racioc\u00ednio l\u00f3gico, que se concentra num objetivo finito e identific\u00e1vel. O racioc\u00ednio l\u00f3gico, os atos de cogni\u00e7\u00e3o, servem a efici\u00eancia de um sistema, inclusive o poder corporativo, que \u00e9, geralmente, na melhor das hip\u00f3teses, moralmente neutro, e com frequ\u00eancia, mau. A incapacidade de pensar, escreveu Arendt, \u201cn\u00e3o \u00e9 uma defici\u00eancia dos muitos a quem falta o poder do c\u00e9rebro, mas uma possibilidade sempre presente para qualquer um \u2013 cientistas, acad\u00eamicos e outros especialistas em empreendimentos mentais n\u00e3o estando exclu\u00eddos\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\nNossa cultura corporativa nos apartou com efic\u00e1cia da imagina\u00e7\u00e3o humana. Nossos dispositivos eletr\u00f4nicos penetram cada vez mais profundamente em espa\u00e7os que antes eram reservados \u00e0 solid\u00e3o, reflex\u00e3o e privacidade. Nossas ondas a\u00e9reas est\u00e3o repletas de espalhafatos e absurdos. Nossos sistemas de educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o menosprezam as disciplinas que nos permitem ver. Celebramos as prosaicas capacidades vocacionais e os rid\u00edculos requisitos dos testes padronizados. Confinamos aqueles que pensam, inclusive muitos professores da \u00e1rea de Humanidades, num deserto onde n\u00e3o conseguem encontrar emprego, remunera\u00e7\u00e3o ou uma voz. Vamos atr\u00e1s do cego para al\u00e9m do penhasco. Fazemos a guerra contra n\u00f3s mesmos.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/images.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/images.jpeg\" alt=\"\" title=\"images\" width=\"202\" height=\"250\" class=\"alignright size-full wp-image-2106\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nA import\u00e2ncia vital do pensamento, escreveu Arendt, \u00e9 aparente s\u00f3 \u201cem tempos de transi\u00e7\u00e3o, quando os homens n\u00e3o podem se fiar somente na estabilidade do mundo e no seu papel dentro dele, e quando a quest\u00e3o concernente as condi\u00e7\u00f5es gerais da vida humana, que como tal s\u00e3o propriamente coevas com a apari\u00e7\u00e3o do homem na terra, ganham uma agudeza incomum\u201d. Nunca necessitamos mais de nossos pensadores e artistas que em tempos de crise, como Arendt nos lembra, pois eles fornecem as narrativas subversivas que nos permitem projetar um novo curso, um curso que possa garantir nossa sobreviv\u00eancia.<br \/>\n<\/br><br \/>\n\u201cO que devo fazer para ganhar a salva\u00e7\u00e3o?\u201d Dimitri pergunta a Starov em \u201cOs Irm\u00e3os Karamazov\u201d, ao que Starov responde: \u201cAcima de tudo, nunca minta a voc\u00ea mesmo\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mentire.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mentire-300x225.jpg\" alt=\"\" title=\"mentire\" width=\"300\" height=\"225\" class=\"alignright size-medium wp-image-2107\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mentire-300x225.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mentire.jpg 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nEste \u00e9 o dilema que enfrentamos como civiliza\u00e7\u00e3o. Marchamos coletivamente para a auto-aniquila\u00e7\u00e3o. O capitalismo corporativo, se deixado sem controle, nos matar\u00e1. Ainda assim, como n\u00e3o podemos pensar e n\u00e3o escutamos aqueles que pensam, nos recusamos de ver o que est\u00e1 prestes a nos acontecer. Criamos mecanismos de entretenimento para obscurecer e silenciar as duras verdades, da mudan\u00e7a clim\u00e1tica ao colapso da globaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 nossa escravid\u00e3o ao poder corporativo, o que significar\u00e1 nossa autodestrui\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o pudermos fazer mais nada, devemos, mesmo como indiv\u00edduos, estimular o di\u00e1logo privado e a solid\u00e3o que torna o pensamento poss\u00edvel. \u00c9 melhor ser um p\u00e1ria, um estranho em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, que um exilado de si mesmo. \u00c9 melhor ver o que est\u00e1 para nos suceder e resistir que refugiar-se nas fantasias adotadas por uma na\u00e7\u00e3o de cegos.<br \/>\n\u00a9 2012 Chris Hedges<br \/>\n <\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/chris_hedges.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/chris_hedges.jpg\" alt=\"\" title=\"chris_hedges\" width=\"90\" height=\"113\" class=\"alignright size-full wp-image-2108\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nChris Hedges<\/strong> escreve regularmente para <a href=\"Truthdig.com\">Truthdig.com<\/a>. Hedges graduou-se na Harvard Divinity School e foi correspondente no exterior, durante quase duas d\u00e9cadas,  do New York Times. \u00c9 autor de v\u00e1rios livros, entre os quais: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America.  Seu livro mais recente \u00e9: Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como pensar Por: Chris Hedges Fonte: CommonDreams de 9\/7\/2012 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli As culturas que perduram s\u00e3o aquelas que entalham um espa\u00e7o protegido para quem questiona e desafia os mitos nacionais. Artistas, escritores, poetas, ativistas, jornalistas, fil\u00f3sofos, bailarinos, m\u00fasicos, atores, diretores e renegados precisam ser tolerados se quisermos impedir que uma cultura desabe no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,9],"tags":[1177,1173,1167,1168,1169,1175,1174,1170,95,1176,1172,1171],"class_list":["post-2098","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-devir","category-lance-de-dados","tag-cegueira","tag-checov","tag-chris-hedges","tag-como-pensar","tag-decadencia-do-ocidente","tag-edipo","tag-epicuro","tag-hannah-arendt","tag-mario-s-mieli","tag-rei-lear","tag-shakespeare","tag-sofocles"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2098"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2098\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2114,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2098\/revisions\/2114"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}