{"id":1684,"date":"2012-06-09T02:18:33","date_gmt":"2012-06-09T02:18:33","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=1684"},"modified":"2012-06-09T02:21:20","modified_gmt":"2012-06-09T02:21:20","slug":"a-grecia-nos-salvara-por-slavoj-zizek","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=1684","title":{"rendered":">> A Gr\u00e9cia nos salvar\u00e1, por Slavoj Zizek"},"content":{"rendered":"<p><strong>A Gr\u00e9cia nos salvar\u00e1, por Slavoj Zizek \u2013 interven\u00e7\u00e3o de Slavoj Zizek no com\u00edcio da Syriza<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Fonte: il manifesto \u2013 <a href=\"http:\/\/www.ilmanifesto.it\/attualita\/notizie\/mricN\/7714\/\">editorial de 8 de junho de 2012<\/a><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/syriza.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/syriza.jpg\" alt=\"\" title=\"syriza\" width=\"200\" height=\"280\" class=\"alignright size-full wp-image-1685\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Nota: o video que segue abaixo est\u00e1 legendado com uma vers\u00e3o em portugu\u00eas (de Portugal), diferente, portanto, do texto traduzido para a Imediata.<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Interven\u00e7\u00e3o de Slavoj Zizek no com\u00edcio da Syriza<\/strong><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Intervenc?a?o de Slavoj Zizek no comi?cio da Syriza\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4U2b9XChivc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><\/br><\/p>\n<p>No fim de sua vida, Sigmund Freud, o pai da psican\u00e1lise, fez a famosa pergunta: \u201co que  quer a mulher?\u201d, admitindo a perplexidade frente ao enigma da sexualidade feminina. Uma perplexidade similar desponta hoje: \u201cO que quer a Europa?\u201d  Essa \u00e9 a pergunta que voc\u00eas, povo grego, est\u00e3o fazendo \u00e0 Europa. Mas a Europa n\u00e3o sabe o que quer. O modo como os estados europeus e a m\u00eddia reportam o que acontece hoje na Gr\u00e9cia \u00e9, acredito, o melhor indicador do tipo de Europa que querem. \u00c9 a Europa neoliberal, ou \u00e9 a Europa dos estados isolacionistas. <strong>Os cr\u00edticos acusam a Syriza de ser uma amea\u00e7a para o euro, mas a Syriza \u00e9, ao contr\u00e1rio, a \u00fanica possibilidade que tem a Europa. Mas que amea\u00e7a? Voc\u00eas est\u00e3o dando \u00e0 Europa a possibilidade de sair de suas in\u00e9rcia e de encontrar uma nova via.<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\nEm suas notas sobre a defini\u00e7\u00e3o de cultura, o grande poeta conservador Thomas Eliot sublinhou os momentos em que a \u00fanica escolha poss\u00edvel est\u00e1 entre a heresia e o n\u00e3o acreditar. Ou seja, momentos em que o \u00fanico modo de manter o credo, para manter viva a religi\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio fazer um desvio dr\u00e1stico da via principal. \u00c9 isso que est\u00e1 acontecendo hoje com a Europa. <strong>S\u00f3 uma nova heresia \u2013 representada neste momento pela Syriza \u2013 que pode salvar aquilo que vale a pena salvar da heran\u00e7a europeia, isto \u00e9, a democracia, a confian\u00e7a nas pessoas, a  solidariedade igualit\u00e1ria.<\/strong> A Europa que vencer\u00e1, se a Syriza for posta fora da jogada, ser\u00e1 uma Europa com valores asi\u00e1ticos: e, naturalmente, esses valores asi\u00e1ticos n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a \u00c1sia, <strong>mas com a vontade atual e evidente do capitalismo contempor\u00e2neo de suspender a democracia.<\/strong><br \/>\n<\/br>.<br \/>\nDizem que a Syriza n\u00e3o tem experi\u00eancia suficiente para governar. <strong>Estou de acordo, falta a eles a experi\u00eancia de como fazer falir um pa\u00eds, enganando e roubando.<\/strong> Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam essa experi\u00eancia. Isso nos leva ao absurdo do establishment da pol\u00edtica europeia, que nos faz serm\u00f5es sobre pagar os impostos, opondo-se ao clientelismo grego e, ao mesmo tempo, coloca novamente todas as esperan\u00e7as na coalis\u00e3o entre os dois partidos que levaram a Gr\u00e9cia a esse clientelismo.<br \/>\n<\/br><br \/>\nChristine Lagarde afirmou, recentemente, que tem mais simpatia pelos pobres habitantes do N\u00edger que pelos gregos, e aconselhou os gregos a ajudarem a si mesmos pagando os impostos que, como pude verificar h\u00e1 alguns dias, ela n\u00e3o paga. <strong>Como todos os liberais humanit\u00e1rios, ela ama os pobres impotentes que se comportam como v\u00edtimas, evocam a nossa piedade levando-nos a fazer a caridade. Mas o problema com voc\u00eas gregos \u00e9 que sim, voc\u00eas sofrem, mas voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas passivas: voc\u00eas resistem, lutam, n\u00e3o querem compreens\u00e3o e caridade, voc\u00eas querem solidariedade ativa. Voc\u00eas querem e pedem uma mobiliza\u00e7\u00e3o, o sustento para a sua luta.  <\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\nAcusam a Syriza de promover fic\u00e7\u00f5es de esquerda, mas \u00e9 o plano de austeridade imposto por Bruxelas que \u00e9 claramente uma fic\u00e7\u00e3o. Todos sabem que este plano \u00e9 fict\u00edcio, que o estado grego nunca poder\u00e1 pagar a d\u00edvida, dessa maneira. Ent\u00e3o por que Bruxelas imp\u00f5e essas medidas? <strong>O verdadeiro escopo n\u00e3o \u00e9 salvar a Gr\u00e9cia, mas obviamente, salvar os bancos europeus. <\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\nEssas medidas n\u00e3o s\u00e3o apresentadas como decis\u00f5es sobre escolhas pol\u00edticas, mas como necessidades impostas por uma l\u00f3gica econ\u00f4mica neutra. \u00c9 como dizer: se quisermos estabilizar a nossa economia, devemos simplesmente engolir a p\u00edlula amarga. Ou, como dizem os prov\u00e9rbios tautol\u00f3gicos: n\u00e3o se pode gastar mais daquilo que se produz. Bem, os bancos americanos e os EUA foram uma grande prova, durante d\u00e9cadas, que se pode gastar mais daquilo que se produz. Para ilustrar o erro das medidas de austeridade, Paul Krugman com frequ\u00eancia as compara com a pr\u00e1tica medieval da drenagem de sangue. Uma bela met\u00e1fora, que acredito precise ser ulteriormente radicalizada. <strong>Os m\u00e9dicos financeiros, por sua vez, n\u00e3o seguros de como esse f\u00e1rmaco funcionar\u00e1, est\u00e3o usando voc\u00eas, gregos, como cobaias de laborat\u00f3rio, est\u00e3o arriscando com o sangue de voc\u00eas, n\u00e3o o sangue de seus pa\u00edses.<\/strong> <strong>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma drenagem para os bancos alem\u00e3es e franceses. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o eles que est\u00e3o obtendo grandes transfus\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p><\/br><br \/>\n<strong>O bom senso radical<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o Syriza \u00e9 mesmo um grupo de perigosos extremistas? N\u00e3o, Syriza est\u00e1 aqui para trazer um pragm\u00e1tico bom senso. Para cancelar a confus\u00e3o criada por outros. Os sonhadores perigosos s\u00e3o aqueles que querem impor as medidas de austeridade. Os verdadeiros sonhadores s\u00e3o aqueles que pensam que as coisas podem continuar assim, por tempo indeterminado, assim como est\u00e3o inserindo algumas modifica\u00e7\u00f5es cosm\u00e9ticas. Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o sonhadores: voc\u00eas est\u00e3o acordando de um sonho que est\u00e1 se transformando num pesadelo. Voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o destruindo nada, est\u00e3o reagindo ao modo pelo qual o sistema est\u00e1 gradualmente destruindo a si pr\u00f3prio. Todos conhecemos a cl\u00e1ssica cena do desenho animado do Tom e Jerry: o gato atinge o precip\u00edcio, mas continua andando, ignorando o fato de que n\u00e3o h\u00e1 terra sob seus p\u00e9s. \u00c9 somente quando ele come\u00e7a a descer que olha para baixo e percebe o vazio. \u00c9 isso que voc\u00eas est\u00e3o fazendo: est\u00e3o dizendo a quem est\u00e1 no poder: \u201cei, olhem para baixo!\u201d, da\u00ed eles caem.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO mapa pol\u00edtico da Gr\u00e9cia \u00e9 claro e exemplar. No centro, h\u00e1 s\u00f3 um partido, com duas asas, a direita e a esquerda, Pasok e Nova Democracia. \u00c9 como, sei l\u00e1, a Cola que \u00e9 ou Coca ou Pepsi, uma escolha que n\u00e3o \u00e9 uma escolha. O verdadeiro nome desse partido, se juntarmos Pasok e ND, deveria ser algo como NMHD, Novo Movimento Hel\u00eanico contra a Democracia. Naturalmente, esse grande partido afirma ser a favor da democracia, mas eu afirmo que ele \u00e9 a favor de uma <strong>democracia  descafeinada.<\/strong> <strong>Como o caf\u00e9 sem cafe\u00edna, a cerveja sem \u00e1lcool, o sorvete sem a\u00e7\u00facar. Querem a democracia, mas uma democracia onde, em vez de efetuar uma escolha, as pessoas se limitam a confirmar aquilo que os s\u00e1bios especialistas dir\u00e3o que deve ser feito. Eles querem o di\u00e1logo democr\u00e1tico? Sim, mas como nos di\u00e1logos tardios de Plat\u00e3o, onde um rapaz fala o tempo todo e o outro diz apenas, a cada dez minutos: \u201cPor Zeus, \u00e9 assim!\u201d <\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\nDai, tem a exce\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas, Syriza, o verdadeiro milagre, movimento de esquerda radical, que saiu da c\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia marginal e corajosamente assinalou a disponibilidade de tomar o poder. Esse \u00e9 o verdadeiro motivo pelo qual voc\u00eas devem ser punidos. Eis porque Bill Freyja escreveu, recentemente, na revista Forbes, um artigo titulado \u201cDar \u00e0 Gr\u00e9cia aquilo que ela merece: o comunismo\u201d. Cito: &#8220;Aquilo que o mundo precisa, n\u00e3o esque\u00e7amos, \u00e9 um exemplo contempor\u00e2neo de comunismo em a\u00e7\u00e3o. Qual melhor candidato que a Gr\u00e9cia? Joguem-na fora da Uni\u00e3o Europeia, interrompam o livre fluxo de euros e fa\u00e7am voltar as velhas dracmas. Depois, fiquem vendo o que acontece durante uma gera\u00e7\u00e3o\u201d. Em outras palavras, a Gr\u00e9cia deveria ser punida de modo exemplar,  assim, uma vez por todas, a tenta\u00e7\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o radical e de esquerda da crise seja calada.<br \/>\n<\/br><br \/>\nSei que a tarefa de Syriza \u00e9 quase imposs\u00edvel. Syriza n\u00e3o \u00e9 a extrema esquerda louca, \u00e9 a voz pragm\u00e1tica da raz\u00e3o, que contrasta com a loucura ideol\u00f3gica do mercado. Syriza precisar\u00e1 da combina\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel de princ\u00edpios pol\u00edticos e pragmatismo sem ra\u00edzes de empenho democr\u00e1tico, al\u00e9m da capacidade de agir rapidamente e brutalmente quando necess\u00e1rio. Para que Syriza tenha uma chance, ainda que uma m\u00ednima chance de sucesso, ser\u00e1 necess\u00e1ria uma solidariedade pan-europ\u00e9ia. <\/p>\n<p><\/br><br \/>\n<strong>Mudar a Gr\u00e9cia<\/strong><br \/>\nPor isso penso que voc\u00eas, aqui na Gr\u00e9cia, deveriam evitar o nacionalismo f\u00e1cil, todos os discursos sobre como a Alemanha quer reocupar a Gr\u00e9cia, destru\u00ed-la, e assim por diante. A primeira tarefa para voc\u00eas \u00e9 mudar as coisas aqui. Syriza ter\u00e1 que fazer o trabalho que os outros deveriam ter feito. O trabalho de constru\u00e7\u00e3o de um estado melhor, moderno: um estado eficiente. Voc\u00eas dever\u00e3o fazer um trabalho de recupera\u00e7\u00e3o do aparato estatal das m\u00e3os do clientelismo. \u00c9 um trabalho duro, e n\u00e3o h\u00e1 nada de entusiasmante nisso: \u00e9 lento, duro, chato.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Os seus cr\u00edticos pseudo-radicais lhes est\u00e3o dizendo que a situa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o est\u00e1 certa ou no ponto para uma verdadeira mudan\u00e7a social. Que se voc\u00eas estiverem no poder, s\u00f3 poder\u00e3o ajudar o sistema, tornando-o mais eficiente. \u00c9 isso, se entendi bem, o que o KKE, que \u00e9 fundamentalmente o partido das pessoas ainda vivas, porque esqueceram de morrer, est\u00e3o lhes dizendo.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a sua elite pol\u00edtica demonstrou sua incapacidade de governar, mas nunca haver\u00e1 um momento em que a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 totalmente certa para a mudan\u00e7a. Se voc\u00eas esperam o momento certo, ele nunca chegar\u00e1. Quando se interv\u00e9m, \u00e9 sempre no momento n\u00e3o propriamente maduro. Ent\u00e3o, voc\u00eas se encontram diante de uma escolha: <strong>ou esperam comodamente e ficam olhando a sociedade se desintegrar, como alguns partidos de esquerda sugerem, ou voc\u00eas interv\u00eam heroicamente, plenamente cientes da dificuldade da situa\u00e7\u00e3o.<\/strong> Syriza fez a escolha certa.<br \/>\n<\/br><br \/>\nOs seus cr\u00edticos odeiam voc\u00eas porque, penso, secretamente sabem que <strong>voc\u00eas t\u00eam a coragem de ser livres<\/strong> e de agir como pessoas livres. Diante dos olhos das pessoas, aquelas que observam, percebem, pelo menos por um segundo, que voc\u00eas lhes est\u00e3o oferecendo a liberdade. Voc\u00eas est\u00e3o ousando fazer aquilo que elas tamb\u00e9m sonham fazer. Naquele instante, s\u00e3o livres. S\u00e3o uma mesma coisa, com voc\u00eas. Mas \u00e9 s\u00f3 por um instante. Volta o medo e voltar\u00e1 o \u00f3dio por voc\u00eas, porque t\u00eam medo da liberdade pr\u00f3pria.<br \/>\n<\/br><br \/>\nPortanto, qual \u00e9 a escolha que voc\u00eas, povo grego, ter\u00e3o que enfrentar no dia 17 de junho? Seria necess\u00e1rio ter em mente o paradoxo que defende a liberdade de voto nas sociedades democr\u00e1ticas: <strong>voc\u00eas s\u00e3o livres de escolher, desde que fa\u00e7am a escolha certa.<\/strong> Por isso, quando a escolha \u00e9 errada, por exemplo, quando a Irlanda votou contra a constitui\u00e7\u00e3o europeia, a escolha errada \u00e9 tratada como um erro. E da\u00ed querem repetir a elei\u00e7\u00e3o, para iluminar as pessoas a fazerem a escolha certa. \u00c9 por isso que o establishment europeu est\u00e1 tomado pelo p\u00e2nico. Consideram que talvez voc\u00eas n\u00e3o mere\u00e7am sua liberdade, porque existe sempre o perigo de que fa\u00e7am a escolha errada.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Caf\u00e9 sem leite <\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma piadinha maravilhosa em Ninoska de Ernst Lubitsch: o her\u00f3i entra num caf\u00e9 e pede um caf\u00e9 sem creme. O gar\u00e7om responde \u201csinto muito, mas acabamos o creme, temos s\u00f3 leite. Posso trazer-lhe um caf\u00e9 sem leite?\u201d Em ambos os casos, teremos s\u00f3 o caf\u00e9, mas acho que a piadinha est\u00e1 certa. A nega\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 importante. Um caf\u00e9 sem creme n\u00e3o \u00e9 o mesmo que um caf\u00e9 sem leite. Hoje voc\u00eas se encontram na mesma situa\u00e7\u00e3o: a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. Voc\u00eas ter\u00e3o uma esp\u00e9cie de austeridade, mas ter\u00e3o o caf\u00e9 da austeridade sem creme ou sem leite? \u00c9 aqui que o establishment europeu se engana.   Est\u00e1 se comportando como se voc\u00eas ter\u00e3o o caf\u00e9 da austeridade sem creme. Ou seja, todos os frutos da labuta de voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o beneficiar s\u00f3 os bancos europeus: est\u00e3o lhes oferecendo tamb\u00e9m o caf\u00e9 sem leite. Voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o se beneficiar\u00e3o de seus sacrif\u00edcios e dificuldades.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>No sul do Peloponeso existem as chamadas carpideiras, mulheres que s\u00e3o chamadas para chorar nos funerais, fazendo um espet\u00e1culo para os parentes do morto. N\u00e3o h\u00e1 nada de primitivo nisso. N\u00f3s, nas nossas sociedades desenvolvidas, fazemos exatamente a mesma coisa. Pensem nessa maravilhosa inven\u00e7\u00e3o, penso que seja, talvez, a maior contribui\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica \u00e0 cultura mundial: as risadas gravadas de fundo. As risadas fazem parte da trilha sonora da televis\u00e3o. Voc\u00ea volta pra casa cansado, liga a TV num desses est\u00fapidos programas tipo Cheers ou Friends. Voc\u00ea se senta e a TV ri por voc\u00ea, tamb\u00e9m. E, infelizmente, funciona.<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>As Carpideiras<\/strong><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"As Carpideiras\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aTz5YRyroDE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Mi Publico &#8211; Risas Enlatadas &#8211; Laugh Tracks<\/strong><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Mi Publico - Risas Enlatadas - Laugh Tracks\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5IfU-fWLvjo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>\u00c9 assim que, quem det\u00e9m o poder, o establishment europeu, quer ver n\u00e3o s\u00f3 o gregos, mas todos n\u00f3s: que olhemos a tela e observemos como os outros sonham, choram e riem.<\/strong>  H\u00e1 uma anedota, ap\u00f3crifa mas maravilhosa, sobre a troca de telegramas entre o quartel geral do ex\u00e9rcito alem\u00e3o e o austr\u00edaco, durante a primeira guerra mundial. Os alem\u00e3es enviam uma mensagem aos austr\u00edacos: \u201cDo nosso lado do front, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave, mas n\u00e3o catastr\u00f3fica.\u201d Os austr\u00edacos respondem: \u201cDo nosso lado, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 catastr\u00f3fica, mas n\u00e3o grave.\u201d<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a diferen\u00e7a entre Syriza e os outros: para os outros, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 catastr\u00f3fica mas n\u00e3o grave, as coisas podem continuar como de h\u00e1bito, enquanto para Syriza a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave, mas n\u00e3o catastr\u00f3fica e por isso a coragem e a esperan\u00e7a devem substituir o medo. De modo que aquilo que voc\u00eas t\u00eam pela frente, para parafrasear o t\u00edtulo de uma velha can\u00e7\u00e3o dos Beatles, \u00e9 \u201cuma estrada longa e tortuosa\u201d. Quando, anos atr\u00e1s, a guerra fria amea\u00e7ava explodir numa quent\u00edssima, John Lennon escreveu uma can\u00e7\u00e3o, \u201cAll we are saying is give peace a chance\u201d (\u201cTudo o que dizemos \u00e9: dar uma chance para a paz\u201d). Hoje, quero ouvir uma outra can\u00e7\u00e3o em toda a Europa: \u201ctudo o que estamos dizendo \u00e9: dar uma chance \u00e0 Gr\u00e9cia\u201d.  <\/p>\n<p><\/br><br \/>\n<strong>A revolu\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria casa <\/strong><br \/>\nPermitam-me um refer\u00eancia a uma das grandes, talvez a maior das trag\u00e9dias cl\u00e1ssicas, Ant\u00edgone: n\u00e3o combata as batalhas que n\u00e3o sejam as tuas batalhas. Na minha ideia de Ant\u00edgone, temos Ant\u00edgone e Creonte. S\u00e3o s\u00f3 duas seitas da classe dirigente. Um pouco como Pasok e Nova Democracia. <strong>Na minha vers\u00e3o de Ant\u00edgone, enquanto os dois membros das fam\u00edlias reais est\u00e3o combatendo entre si, amea\u00e7ando arruinar o Estado, gostaria de ver o coro, as vozes das pessoas, sa\u00edrem desse papel est\u00fapido de mero coment\u00e1rio s\u00e1bio, apoderar-se da cena, constituir uma comiss\u00e3o p\u00fablica de poder do povo, prender os dois, Creonte e Ant\u00edgone, e dar vida ao poder do povo.<\/strong> (Nota do Tradutor: vide v\u00eddeo abaixo, com o trecho final de Ant\u00edgone, de S\u00f3focles, com Creonte interpretado pelos excepcional ator George Kimoulis, Teatro de Epidauro, 2000)<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Permitam-me agora concluir com uma nota pessoal. Odeio a esquerda tradicional, intelectual, que ama a revolu\u00e7\u00e3o, mas o tipo de revolu\u00e7\u00e3o que acontece s\u00f3 em lugares remotos. Era assim quando eu era jovem: quanto mais longe, melhor: Vietn\u00e3, Cuba, ainda hoje, a Venezuela. Mas voc\u00eas est\u00e3o aqui, e \u00e9 isso que eu admiro. Voc\u00eas n\u00e3o tem medo de se empenharem em uma situa\u00e7\u00e3o desesperada, sabendo o quanto as probabilidades est\u00e3o contra voc\u00eas. Isso \u00e9 o que eu admiro. H\u00e1 tamb\u00e9m um oportunismo de princ\u00edpio, o oportunismo dos princ\u00edpios. <strong>Quando se diz que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 perdida, n\u00e3o podemos fazer nada, porque significaria trair os nossos princ\u00edpios; isso parece uma posi\u00e7\u00e3o coerente, mas na realidade \u00e9 a forma extrema de oportunismo.<\/strong> <strong>Syriza \u00e9 um evento \u00fanico de como justamente aquela esquerda<\/strong> \u2013 em contradi\u00e7\u00e3o com aquilo que a torna a habitual esquerda extraparlamentar, que se preocupa mais se os direitos humanos de algum criminoso estejam sendo violados que de milhares de seres humanos que morrem \u2013 <strong>tenha encontrado a coragem de fazer alguma coisa.<\/strong>  <\/p>\n<p><\/br><br \/>\n<strong>Antigone by Sophocles, George Kimoulis (Creon)<\/strong><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Antigone by Sophocles, George Kimoulis (Creon)\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oR2TkGHkkzY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Gr\u00e9cia nos salvar\u00e1, por Slavoj Zizek \u2013 interven\u00e7\u00e3o de Slavoj Zizek no com\u00edcio da Syriza Fonte: il manifesto \u2013 editorial de 8 de junho de 2012 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Nota: o video que segue abaixo est\u00e1 legendado com uma vers\u00e3o em portugu\u00eas (de Portugal), diferente, portanto, do texto traduzido para a Imediata. 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