{"id":1274,"date":"2012-03-04T10:58:41","date_gmt":"2012-03-04T10:58:41","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=1274"},"modified":"2012-03-04T11:31:03","modified_gmt":"2012-03-04T11:31:03","slug":"a-era-das-revoltas-burguesas-por-slavoj-zizek","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=1274","title":{"rendered":">> A era das revoltas burguesas, por Slavoj \u017di\u017eek"},"content":{"rendered":"<p><strong>A era das revoltas burguesas<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Por Slavoj \u017di\u017eek<br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/www.internazionale.it\/opinioni\/slavoj-zizek\/2012\/02\/27\/lepoca-delle-rivolte-borghesi\/\">internazionale.it<\/a>  n. 937, de 24 de  fevereiro de 2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/br><a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/grosz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/grosz.jpg\" alt=\"\" title=\"grosz\" width=\"418\" height=\"771\" class=\"alignright size-full wp-image-1275\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/grosz.jpg 418w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/grosz-162x300.jpg 162w\" sizes=\"auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><\/a><br \/>\nGrosz<br \/>\n<\/br><br \/>\nComo Bill Gates conseguiu tornar-se o homem mais rico da Am\u00e9rica? Sua riqueza n\u00e3o tem nada a ver com a produ\u00e7\u00e3o de software de qualidade a pre\u00e7os inferiores aos da concorr\u00eancia ou com a \u201cexplora\u00e7\u00e3o\u201d mais eficaz de seus funcion\u00e1rios (a Microsoft paga sal\u00e1rios relativamente altos aos trabalhadores intelectuais).<br \/>\n<\/br><br \/>\nO software da Microsoft continua a ser comprado por milh\u00f5es de pessoas porque conseguiu impor-se como um padr\u00e3o quase universal monopolizando, na pr\u00e1tica, o setor, quase uma personifica\u00e7\u00e3o daquilo que Marx chamava de \u201cintelecto geral\u201d, referindo-se ao saber coletivo em todas as suas formas, da ci\u00eancia ao know-how pr\u00e1tico. Bill Gates efetivamente privatizou o intelecto geral e enriqueceu embolsando os lucros.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA possibilidade de privatizar o intelecto geral n\u00e3o tinha sido prevista por Marx em seus escritos sobre o capitalismo (sobretudo porque tinha negligenciado a dimens\u00e3o social). Mas \u00e9 justamente esse o n\u00facleo das disputas contempor\u00e2neas sobre propriedade intelectual: \u00e0 medida que, no capitalismo p\u00f3s-industrial, o papel do intelecto geral \u2013 baseado no saber coletivo e na coopera\u00e7\u00e3o social \u2013 continua a crescer, a riqueza se acumula de modo totalmente desproporcional respeito ao trabalho despendido para a sua produ\u00e7\u00e3o. O resultado n\u00e3o \u00e9, como parecia esperar Marx, a autodissolu\u00e7\u00e3o do capitalismo, mas a gradual transforma\u00e7\u00e3o do lucro gerado pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho em uma renda obtida gra\u00e7as \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o do conhecimento.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/s_7561.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/s_7561.jpg\" alt=\"\" title=\"s_7561\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignright size-full wp-image-1276\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/s_7561.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/s_7561-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nO mesmo \u00e9 verdade para os recursos naturais, cuja explora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das maiores fontes de renda do mundo. H\u00e1 uma luta permanente a respeito de quem teria o direito de auferir essa renda, se os cidad\u00e3os do terceiro mundo ou as grandes multinacionais ocidentais. Paradoxalmente, explicando a diferen\u00e7a entre o trabalho (que no uso produz mais-valia)  e outras mercadorias (que consomem o seu valor no uso), Marx fala justamente do petr\u00f3leo como exemplo de uma mercadoria  \u201cordin\u00e1ria\u201d, cujo consumo diminui ao se elevar o pre\u00e7o. Hoje qualquer tentativa de conectar o aumento e a diminui\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do petr\u00f3leo ao crescimento ou \u00e0 queda dos custos de produ\u00e7\u00e3o ou ao custo da m\u00e3o-de-obra utilizada n\u00e3o teria sentido: os custos de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o insignificantes  respeito ao pre\u00e7o que pagamos pelo petr\u00f3leo, um pre\u00e7o que, na realidade, \u00e9 a renda de que os propriet\u00e1rios  do recurso podem dispor gra\u00e7as \u00e0 sua limitada disponibilidade.<br \/>\n<\/br><br \/>\nUma das consequ\u00eancias do aumento causado pelo impacto, em crescimento exponencial, do conhecimento coletivo, \u00e9 a mudan\u00e7a do papel do desemprego. \u00c9 o sucesso do capitalismo em si (maior efici\u00eancia, crescimento da produtividade) a gerar desemprego, tornando in\u00fatil um n\u00famero sempre maior de trabalhadores: aquilo que deveria ser uma b\u00ean\u00e7\u00e3o \u2013 ser preciso menos trabalho \u00e1rduo \u2013 vira uma maldi\u00e7\u00e3o. Ou, para diz\u00ea-lo em outros termos, a oportunidade de ser explorado em um trabalho a longo prazo \u00e9 hoje percebida como um privil\u00e9gio.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/01falsaesquerdaumaovaoz1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/01falsaesquerdaumaovaoz1-300x235.jpg\" alt=\"\" title=\"01falsaesquerdaumaovaoz1\" width=\"300\" height=\"235\" class=\"alignright size-medium wp-image-1280\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/01falsaesquerdaumaovaoz1-300x235.jpg 300w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/01falsaesquerdaumaovaoz1.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nO mercado mundial, como observou Fredric Jameson, \u00e9 \u201cum espa\u00e7o no qual todos foram, numa determinada \u00e9poca, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho come\u00e7ou, em toda parte, a ser demasiadamente custoso para o sistema\u201d. No processo de globaliza\u00e7\u00e3o capitalista que estamos vivendo, a categoria dos desempregados n\u00e3o est\u00e1 mais limitada \u00e0quilo que Marx chamava de \u201cex\u00e9rcito industrial de reserva\u201d. Inclui tamb\u00e9m, como observa Jameson, \u201caquelas exterminadas popula\u00e7\u00f5es de todo o mundo que foram deliberadamente exclu\u00eddas dos projetos modernizadores do capitalismo do mundo desenvolvido e postas de lado como casos desesperados\u201d: os chamados estados falidos (Congo, Som\u00e1lia), v\u00edtimas das carestias ou dos desastres ecol\u00f3gicos, aqueles presos nas armadilhas de lutas \u00e9tnicas pseudo-arcaicas, no centro das aten\u00e7\u00f5es dos filantropos e das ongs, ou alvos da guerra contra o terror.<br \/>\n<\/br><br \/>\nDesse modo, a categoria dos desempregados foi ampliada at\u00e9 abranger uma gama enorme de pessoas, dos temporariamente desempregados aos n\u00e3o mais empreg\u00e1veis e aos permanentemente desempregados, at\u00e9 os moradores dos guetos e favelas (todos aqueles que Marx tendia a liquidar, definindo-os \u201clumpenproletariat\u201d) e a inteiras popula\u00e7\u00f5es exclu\u00eddas do processo capitalista global, como os espa\u00e7os vazios nos mapas antigos.<br \/>\n<\/br><br \/>\nAlguns creem que esta nova forma de capitalismo ofere\u00e7a novas possibilidades de emancipa\u00e7\u00e3o. Pelo menos essa \u00e9 a tese de Multid\u00f5es, de Michael Hardt e Antonio Negri, que procuram radicalizar a tese de Marx segundo a qual bastaria cortar a cabe\u00e7a do capitalismo para se obter o socialismo. Marx, segundo eles, era v\u00edtima de um condicionamento hist\u00f3rico: pensava em termos de trabalho industrial centralizado, automatizado e hierarquicamente organizado, de modo que para ele o intelecto geral era algo parecido com uma ag\u00eancia central de planejamento.<br \/>\n<\/br><br \/>\nSegundo os autores, somente hoje, com a consolida\u00e7\u00e3o do \u201ctrabalho imaterial\u201d, tornou-se \u201cobjetivamente poss\u00edvel\u201d uma revers\u00e3o revolucion\u00e1ria.  Esse trabalho imaterial estende-se entre dois polos, do trabalho intelectual (a produ\u00e7\u00e3o de ideias, textos, programas para computador, etc.) ao trabalho de cura (como aquele desempenhado por m\u00e9dicos, baby-sitters e assistentes de voo). Hoje o trabalho imaterial \u00e9 hegem\u00f4nico, no sentido em que Marx afirmava que, no capitalismo do s\u00e9culo XIX, era hegem\u00f4nica a grande produ\u00e7\u00e3o industrial: n\u00e3o se imp\u00f5e com a for\u00e7a dos n\u00fameros, mas desempenhando o papel central, estrutural e emblem\u00e1tico.  O que emerge \u00e9 um dom\u00ednio amplo e novo, definido \u201ccomum\u201d: o saber compartilhado e novas formas de comunica\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o. Os produtos do trabalho imaterial n\u00e3o s\u00e3o objetos, mas novas rela\u00e7\u00f5es sociais ou interpessoais; a produ\u00e7\u00e3o imaterial \u00e9 biopol\u00edtica, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o da vida social.<br \/>\n<\/br><br \/>\nHardt e Negri descrevem o processo que os ide\u00f3logos do atual capitalismo p\u00f3s-moderno celebram como a passagem da produ\u00e7\u00e3o material \u00e0quela simb\u00f3lica, da l\u00f3gica centralista-hier\u00e1rquica \u00e0quela da auto-organiza\u00e7\u00e3o e da coopera\u00e7\u00e3o multic\u00eantrica. A diferen\u00e7a \u00e9 que Hardt e Negri s\u00e3o fi\u00e9is a Marx: procuram demonstrar que ele tinha raz\u00e3o, que o emergir do intelecto geral \u00e9 incompat\u00edvel a longo prazo com o capitalismo. Os ide\u00f3logos do capitalismo moderno sustentam exatamente o oposto: a teoria (e a pr\u00e1tica) marxista, afirmam, permanece nos limites da l\u00f3gica hier\u00e1rquica do controle estatal centralizado, portanto, n\u00e3o pode ser medida com os efeitos sociais da revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<\/br><br \/>\nH\u00e1 boas raz\u00f5es emp\u00edricas para sustentar-se essas tese: o que, de fato, condenou os regimes comunistas foi a sua incapacidade de adaptar-se \u00e0 nova l\u00f3gica social. Tentaram govern\u00e1-la, fazer in\u00fameros projetos de planifica\u00e7\u00e3o estatal centralizada em ampla escala. O paradoxo \u00e9 que aquilo que Hardt e Negri celebram como uma oportunidade para superar o capitalismo \u00e9 celebrado pelos ide\u00f3logos da revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o como a ascens\u00e3o de um novo tipo de capitalismo \u201csem atritos\u201d.  A an\u00e1lise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos que nos ajudam a compreender como o capitalismo tenha conseguido sobreviver \u00e0quela que (nos cl\u00e1ssicos termos marxistas) teria podido ser uma nova organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que o rendia obsoleto. Os dois estudiosos subestimam a dimens\u00e3o do sucesso do capitalismo de hoje na privatiza\u00e7\u00e3o do intelecto geral, assim como o fato de que os pr\u00f3prios oper\u00e1rios, mais que a burguesia, estejam se tornando sup\u00e9rfluos (s\u00e3o cada vez mais os trabalhadores que passam a se encontrar n\u00e3o s\u00f3 temporariamente desempregados, mas estruturalmente n\u00e3o empreg\u00e1veis).<br \/>\n<\/br><br \/>\nSe idealmente o velho capitalismo pressupunha um empreendedor pronto a investir dinheiro (seu ou emprestado)  na produ\u00e7\u00e3o que ele mesmo organizava e dirigia para embolsar um lucro, hoje um novo modelo est\u00e1 se afirmando: n\u00e3o mais o empreendedor que possui uma empresa, mas o gerente ou manager especialista (ou um conselho de gerentes presidido por um CEO) que dirige uma empresa que est\u00e1 nas m\u00e3os de bancos (por sua vez, guiados por um gerente que n\u00e3o \u00e9 propriet\u00e1rio do mesmo) ou a investidores individuais. Nesse novo tipo ideal de capitalismo, a velha burguesia, tornada n\u00e3o funcional, adquire uma nova funcionalidade nas condi\u00e7\u00f5es de ger\u00eancia ou management assalariado: os exponentes da nova burguesia recebem um sal\u00e1rio, e ainda que possuam parte da pr\u00f3pria empresa, recebem a\u00e7\u00f5es a t\u00edtulo de integra\u00e7\u00e3o de sua compensa\u00e7\u00e3o (\u201dpr\u00eamios\u201d para o respectivo \u201csucesso\u201d).<br \/>\n<\/br><br \/>\nEssa nova burguesia continua a se apropriar da mais-valia, mas na forma (mistificada) daquilo que foi definido como \u201cmais-sal\u00e1rio\u201d: s\u00e3o pagos muito mais que o sal\u00e1rio m\u00ednimo prolet\u00e1rio (um ponto de refer\u00eancia puramente m\u00edtico, cujo \u00fanico exemplo real na atual economia global \u00e9 o sal\u00e1rio dos oper\u00e1rios explorados nas f\u00e1bricas da China ou da Indon\u00e9sia), e \u00e9 essa diferen\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o aos prolet\u00e1rios comuns a determinar o status deles. A burguesia em sentido cl\u00e1ssico tende, portanto, a desaparecer: os capitalistas reaparecem como um subconjunto de trabalhadores assalariados, managers habilitados a ganhar mais em virtude de sua compet\u00eancia (e \u00e9 por esse motivo que a \u201cavalia\u00e7\u00e3o\u201d pseudocient\u00edfica se torna crucial\u201d, ela legitima as disparidades). A categoria dos trabalhadores que ganham um \u201cmais-sal\u00e1rio\u201d n\u00e3o se limita, obviamente, aos gerentes, mas se estende a todos os tipos de especialistas, administradores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, m\u00e9dicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas.  O \u201cmais\u201d ou \u201cplus\u201d assume duas formas: mais dinheiro (para os gerentes e similares), mas tamb\u00e9m menos trabalho e mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas tamb\u00e9m para os administradores p\u00fablicos, etc.).<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/160410_liberdade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/160410_liberdade.jpg\" alt=\"\" title=\"160410_liberdade\" width=\"320\" height=\"238\" class=\"alignright size-full wp-image-1277\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/160410_liberdade.jpg 320w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/160410_liberdade-300x223.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nO processo de avalia\u00e7\u00e3o usado para decidir quais trabalhadores tenham que receber um mais-sal\u00e1rio \u00e9 um mecanismo arbitr\u00e1rio do poder e da ideologia, sem qualquer rela\u00e7\u00e3o s\u00e9ria com a verdadeira capacidade do sujeito. O mais-sal\u00e1rio n\u00e3o existe por motivos econ\u00f4micos, mas por motivos pol\u00edticos: serve para manter uma \u201cclasse m\u00e9dia\u201d em fun\u00e7\u00e3o da estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social n\u00e3o \u00e9 um erro, mas o verdadeiro xis da quest\u00e3o, e a arbitrariedade da avalia\u00e7\u00e3o desempenha um papel an\u00e1logo \u00e0 arbitrariedade do sucesso de mercado. A viol\u00eancia amea\u00e7a explodir n\u00e3o quando h\u00e1 demais conting\u00eancia no espa\u00e7o social, mas quando se procura elimin\u00e1-la.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm \u201cLa marque du sacr\u00e9\u201d Jean-Pierre Dupuy define a hierarquia como um dos quatro procedimentos (\u201cdispositivos simb\u00f3licos\u201d) utilizados para tornar n\u00e3o humilhante a rela\u00e7\u00e3o de superioridade: a hierarquia (uma ordem imposta a partir do exterior que me consente de perceber a minha condi\u00e7\u00e3o social inferior como independente do meu valor pessoal); a desmistifica\u00e7\u00e3o (o procedimento ideol\u00f3gico que demonstra como a sociedade n\u00e3o \u00e9 uma meritocracia mas o produto de objetivas lutas sociais, consentindo-me assim de evitar a dolorosa conclus\u00e3o de que a superioridade de algu\u00e9m seja o resultado de seu m\u00e9rito e de seus resultados); a conting\u00eancia (um mecanismo parecido, que nos consente de entender como a nossa posi\u00e7\u00e3o na escala social depende de uma loteria natural e social: os felizardos s\u00e3o aqueles nascidos com os genes certos em fam\u00edlias ricas); e a complexidade (for\u00e7as incontrol\u00e1veis t\u00eam consequ\u00eancias imprevis\u00edveis: por exemplo, a m\u00e3o invis\u00edvel do mercado pode levar \u00e0 minha fal\u00eancia e ao sucesso do meu vizinho, ainda que eu trabalhe muito mais e seja muito mais inteligente).<br \/>\n<\/br><br \/>\nApesar das apar\u00eancias, esses mecanismos n\u00e3o contestam ou amea\u00e7am a hierarquia, mas a tornam aceit\u00e1vel, pois \u201co que faz desencadear a inveja \u00e9 a ideia de que o outro mere\u00e7a a sua sorte e n\u00e3o a ideia oposta, a \u00fanica que pode ser expressa abertamente\u201d. A partir dessa premissa, Dupuy chega \u00e0 conclus\u00e3o que \u00e9 profundamente errado acreditar que uma sociedade razoavelmente justa, possa ser isenta de rancor: ao contr\u00e1rio, \u00e9 pr\u00f3prio de uma sociedade desse tipo que quem ocupa posi\u00e7\u00f5es inferiores dar\u00e1 vaz\u00e3o ao seu orgulho ferido com violentas explos\u00f5es de ressentimento.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Capitalismo-Selvagem-China.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Capitalismo-Selvagem-China.jpg\" alt=\"\" title=\"Capitalismo-Selvagem-China\" width=\"540\" height=\"297\" class=\"alignright size-full wp-image-1278\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Capitalismo-Selvagem-China.jpg 540w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Capitalismo-Selvagem-China-300x165.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nA este fen\u00f4meno est\u00e1 associado o impasse em que se encontra a China de hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir o capitalismo sem a burguesia (porque se teria tornado a nova classe dirigente). Mas agora os l\u00edderes chineses t\u00eam que lidar com a dolorosa descoberta de que o capitalismo sem a s\u00f3lida hierarquia tornada poss\u00edvel pela exist\u00eancia de uma burguesia gera uma instabilidade permanente. E ent\u00e3o que caminho tomar\u00e1 a China? Os ex-comunistas est\u00e3o demonstrando ser os gerentes mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade hist\u00f3rica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia enquanto classe se adapta perfeitamente com a tend\u00eancia do capitalismo atual de se tornar um capitalismo gerencial sem burguesia \u2013 em ambos os casos, como disse Stalin h\u00e1 muito tempo, \u201cos quadros decidem tudo\u201d (uma diferen\u00e7a interessante entre a China e a R\u00fassia de hoje: na R\u00fassia, os professores universit\u00e1rios s\u00e3o ridiculamente mal pagos \u2013 na realidade, j\u00e1 fazem parte do proletariado \u2013 ao passo que na China eles t\u00eam um confort\u00e1vel mais-sal\u00e1rio, o que garante a docilidade dos mesmos).<br \/>\n<\/br><br \/>\nA ideia do mais-sal\u00e1rio lan\u00e7a nova luz tamb\u00e9m sobre os persistentes protestos \u201canticapitalistas\u201d. Em tempos de crise, os primeiros candidatos a apertar o cinto s\u00e3o os n\u00edveis mais baixos da burguesia assalariada: o protesto pol\u00edtico \u00e9 o \u00fanico caminho poss\u00edvel se quiserem evitar de se unir ao proletariado. Mesmo que seus protestos com palavras sejam dirigidos contra a l\u00f3gica brutal do mercado, est\u00e3o de fato protestando contra a gradual eros\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica politicamente privilegiada.<br \/>\n<\/br><br \/>\nNa \u201cRevolta de Atlante\u201d, Ayn Rand imagina uma greve de capitalistas \u201ccriativos\u201d, uma fantasia que encontra a sua realiza\u00e7\u00e3o perversa nas greves atuais, muitas das quais t\u00eam como protagonista uma burguesia assalariada movida pelo medo de perder os seus mais-sal\u00e1rios. Esses n\u00e3o s\u00e3o protestos prolet\u00e1rios, mas contra a amea\u00e7a de se verem reduzidos ao status de prolet\u00e1rios. Quem ousa fazer greve, hoje, quando ter um trabalho est\u00e1vel \u00e9 por si s\u00f3 um privil\u00e9gio? N\u00e3o os oper\u00e1rios mal pagos naquilo que sobra das f\u00e1bricas t\u00eaxteis ou lugares similares, mas aqueles trabalhadores privilegiados que t\u00eam lugar garantido: professores, operadores do sistema de transporte p\u00fablico, policiais. Isso explica tamb\u00e9m a onda de protestos dos estudantes: sua motiva\u00e7\u00e3o principal \u00e9 presumivelmente o medo de que no futuro a instru\u00e7\u00e3o superior n\u00e3o garanta mais um mais-sal\u00e1rio.<br \/>\n<\/br><br \/>\nAo mesmo tempo, \u00e9 claro que a enorme onda de protestos do ano passado, da primavera \u00e1rabe \u00e0 Europa ocidental, de Occupy Wall Street \u00e0 China, da Espanha \u00e0 Gr\u00e9cia, n\u00e3o deveria ser qualificada simplesmente como uma revolta da burguesia assalariada. Cada caso deve ser considerado individualmente. Os protestos estudantis contra a reforma universit\u00e1ria na Gr\u00e3-Bretanha eram claramente diferentes dos choques de agosto, que foram um festival consumista de destrui\u00e7\u00e3o, uma verdadeira explos\u00e3o dos exclu\u00eddos.<br \/>\n<\/br><br \/>\nPoder\u00edamos argumentar que a subleva\u00e7\u00e3o no Egito tenha come\u00e7ado em parte como uma revolta da burguesia assalariada (com os jovens com educa\u00e7\u00e3o formal que se manifestavam devido \u00e0 falta de perspectivas), mas esse foi s\u00f3 um aspecto de uma rebeli\u00e3o mais ampla contra um regime opressor. Por outro lado, o protesto n\u00e3o envolveu uma verdadeira mobiliza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios e dos camponeses pobres, e a vit\u00f3ria eleitoral dos islamistas deixa evidente a limitada base social da origem do protesto laico. A Gr\u00e9cia \u00e9 um caso especial: nos \u00faltimos dec\u00eanios foi criada uma nova burguesia assalariada (especialmente na paquid\u00e9rmica administra\u00e7\u00e3o estatal), gra\u00e7as aos aux\u00edlios financeiros da Uni\u00e3o Europeia, e os protestos foram motivados em grande parte pela amea\u00e7a de que tudo isso possa acabar.<br \/>\n<\/br><br \/>\nParalelamente \u00e0 proletariza\u00e7\u00e3o da pequena burguesia assalariada,  ocorre no extremo oposto a remunera\u00e7\u00e3o irracionalmente alta dos top managers e dos grandes banqueiros (irracional porque ela tende a ser inversamente proporcional ao sucesso de uma empresa). Em vez de submeter essas tend\u00eancias a uma cr\u00edtica moralista, dever\u00edamos l\u00ea-las como sinais do fato de que o sistema capitalista n\u00e3o \u00e9 mais capaz de garantir uma estabilidade auto regulamentada. Em outras palavras, ele corre o risco de escapar ao controle.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/marxpeace1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/marxpeace1-230x300.jpg\" alt=\"\" title=\"marxpeace1\" width=\"230\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-1279\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/marxpeace1-230x300.jpg 230w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/marxpeace1.jpg 474w\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A era das revoltas burguesas Por Slavoj \u017di\u017eek Fonte: internazionale.it n. 937, de 24 de fevereiro de 2012 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli Grosz Como Bill Gates conseguiu tornar-se o homem mais rico da Am\u00e9rica? Sua riqueza n\u00e3o tem nada a ver com a produ\u00e7\u00e3o de software de qualidade a pre\u00e7os inferiores aos da concorr\u00eancia ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[604,599,605,600,602,195,596,598,601,597,603,595],"class_list":["post-1274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lance-de-dados","tag-capitalismo-gerencial","tag-fredric-jameson","tag-hierarquia","tag-intelecto-geral","tag-jean-pierre-dupuy","tag-karl-marx","tag-mais-salario","tag-michael-hardt-e-antonio-negri","tag-privatizacao-do-conhecimento","tag-proletarizacao-da-burguesia","tag-revoltas-burguesas","tag-slavoj-zizek"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1274"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1284,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1274\/revisions\/1284"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imediata.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}