{"id":1257,"date":"2012-03-01T11:26:40","date_gmt":"2012-03-01T11:26:40","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=1257"},"modified":"2012-03-01T11:32:04","modified_gmt":"2012-03-01T11:32:04","slug":"alain-badiou-vamos-salvar-o-povo-grego-dos-seus-salvadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=1257","title":{"rendered":">> Alain Badiou: Vamos salvar o povo grego dos seus salvadores!"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alain Badiou: Vamos salvar o povo grego dos seus salvadores!<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/alain-badiou-vamos-salvar-o-povo-grego-dos-seus-salvadores\">esquerda.net<\/a><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Alexandra Balona de S\u00e1 Oliveira e Sofia Borges<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/badiou.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/badiou.jpg\" alt=\"\" title=\"badiou\" width=\"400\" height=\"300\" class=\"alignright size-full wp-image-1258\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/badiou.jpg 400w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/badiou-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nDeclara\u00e7\u00e3o emitida por Alain Badiou em solidariedade com o povo grego, tamb\u00e9m assinada por Jean-Christophe Bailly, Balibar \u00c9tienne, Denis Claire, Jean-LucNancy, Jacques Ranci\u00e8re e Ronell Avital, entre outros.<br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Num momento em que um em cada dois jovens gregos est\u00e1 desempregado, onde 25 000 sem-abrigo vagueiam pelas ruas de Atenas, onde 30% da popula\u00e7\u00e3o desceu abaixo da linha de pobreza, onde milhares de fam\u00edlias s\u00e3o for\u00e7adas a dar os seus filhos para que estes n\u00e3o morram de fome e frio, onde novos pobres e refugiados disputam o lixo nos aterros sanit\u00e1rios, os \u201csalvadores\u201d da Gr\u00e9cia, sob o pretexto de que os \u201cGregos\u201d n\u00e3o fazem um \u201cesfor\u00e7o suficiente\u201d imp\u00f5em um novo plano de ajuda que duplica a dose letal administrada. Um plano que elimina o direito ao trabalho, e que reduz os pobres \u00e0 mis\u00e9ria extrema, tudo isto fazendo desaparecer do cen\u00e1rio as classes m\u00e9dias.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO objetivo n\u00e3o deve ser o &#8220;resgate&#8221; da Gr\u00e9cia: sobre este ponto, todos os economistas dignos desse nome est\u00e3o de acordo. Trata-se de ganhar tempo para salvar os credores conduzindo o pa\u00eds a uma fal\u00eancia em diferido. Trata-se sobretudo de fazer da Gr\u00e9cia um laborat\u00f3rio de mudan\u00e7a social que, num segundo momento, se generalizar\u00e1 a toda a Europa. O modelo experimentado nos Gregos \u00e9 o de uma sociedade sem servi\u00e7os p\u00fablicos, onde as escolas, hospitais e centros de sa\u00fade caem em ru\u00edna, onde a sa\u00fade passa a ser um privil\u00e9gio dos ricos, onde as popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis s\u00e3o condenadas a uma elimina\u00e7\u00e3o programada, enquanto que aqueles que ainda trabalham s\u00e3o condenados a formas extremas de empobrecimento e precariedade.<br \/>\n<\/br><br \/>\nMas para que esta ofensiva do neo-liberalismo possa alcan\u00e7ar os seus objetivos, ser\u00e1 necess\u00e1rio instaurar um regime que fa\u00e7a a economia dos direitos democr\u00e1ticos mais elementares. Sob a exig\u00eancia dos salvadores, vemos instalar-se na Europa um governo de tecnocratas que desrespeita a soberania popular. Trata-se de um momento de viragem nos regimes parlamentares, onde vemos os &#8220;representantes do povo&#8221; dar carta branca aos especialistas e aos banqueiros, abdicando do seu suposto poder de decis\u00e3o. De uma certa forma, trata-se de um golpe de Estado, que faz tamb\u00e9m apelo a um arsenal repressivo amplificado face aos protestos populares. Assim, quando os membros ratificaram a conven\u00e7\u00e3o ditada pela troika (Uni\u00e3o Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional), diametralmente oposta ao mandato que estes tinham recebido, um poder desprovido de legitimidade democr\u00e1tica ter\u00e1 comprometido o futuro do pa\u00eds por trinta ou quarenta anos.<br \/>\n<\/br><br \/>\nParalelamente, a Uni\u00e3o Europeia prepara-se para constituir uma conta bloqueada para onde ser\u00e1 transferida diretamente a ajuda financeira \u00e0 Gr\u00e9cia, para que esta seja usada unicamente ao servi\u00e7o da d\u00edvida. As receitas do pa\u00eds devem ser consagradas como \u201cprioridade absoluta\u201d ao reembolso dos credores e, se necess\u00e1rio, pagas diretamente nessa conta criada pela Uni\u00e3o Europeia. A conven\u00e7\u00e3o estipula que todas as novas obriga\u00e7\u00f5es emitidas dentro deste quadro ser\u00e3o regidas pela lei inglesa, que envolve garantias materiais, enquanto que os diferendos ser\u00e3o julgados pelo tribunal do Luxemburgo, tendo a Gr\u00e9cia renunciado \u00e0 partida qualquer direito de recurso contra uma tomada determinada pelos seus credores. Para completar o cen\u00e1rio, as privatiza\u00e7\u00f5es ser\u00e3o confiadas a um fundo gerado pela troika, onde ser\u00e3o depositados os t\u00edtulos de propriedade dos bens p\u00fablicos. Em suma, \u00e9 a pilhagem generalizada, caracter\u00edstica pr\u00f3pria do capitalismo financeiro que oferece aqui uma bela consagra\u00e7\u00e3o institucional. Na medida em que vendedores e compradores se sentar\u00e3o no mesmo lado da mesa, n\u00e3o duvidamos que esta tarefa de privatiza\u00e7\u00e3o seja um verdadeiro festim para os compradores.<br \/>\n<\/br><br \/>\nTodas as medidas tomadas at\u00e9 agora n\u00e3o fizeram mais do que afundar a d\u00edvida soberana grega e, com o aux\u00edlio dos salvadores que emprestam a taxas exorbitantes, esta, literalmente, explodiu aproximando-se dos 170% de um PIB em queda livre, enquanto que em 2009 representava somente 120%. \u00c9 prov\u00e1vel que este grupo de resgate \u2013 sempre apresentado como \u201cfinal\u201d \u2013 n\u00e3o tenha outro prop\u00f3sito que o de enfraquecer ainda mais a posi\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia, de forma a que, privada de toda a possibilidade de propor ela mesma termos de uma reestrutura\u00e7\u00e3o, seja reduzida a ceder tudo aos seus credores sob a chantagem de \u201ca cat\u00e1strofe ou a austeridade\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO agravamento artificial e coercivo do problema da d\u00edvida foi utilizado como uma arma para tomar de assalto uma sociedade inteira. \u00c9 com sabedoria que usamos aqui termos relevantes do dom\u00ednio militar: trata-se de facto de uma guerra conduzida pelos meios da finan\u00e7a, da pol\u00edtica e do direito, uma guerra de classe contra a sociedade inteira. E o esp\u00f3lio que a classe financeira conta arrebatar ao \u201cinimigo\u201d, s\u00e3o os privil\u00e9gios sociais e os direitos democr\u00e1ticos, mas em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 a possibilidade mesma de uma vida humana. A vida daqueles que n\u00e3o produzem nem consomem o suficiente, ao olhar das estrat\u00e9gias de maximiza\u00e7\u00e3o de lucro, n\u00e3o devem ser conservadas. Assim, a fragilidade de um pa\u00eds apanhado entre a especula\u00e7\u00e3o sem limites e os planos de resgate devastadores, torna-se na porta de sa\u00edda por onde irrompe um novo modelo de sociedade adequado \u00e0s exig\u00eancias do fundamentalismo neoliberal. Modelo destinado a toda a Europa, e talvez at\u00e9 mais. Esta \u00e9 a verdadeira quest\u00e3o e \u00e9 por isso que defender o povo grego n\u00e3o se reduz a um gesto de solidariedade ou de humanidade abstrata: o futuro da democracia e o destino dos povos europeus est\u00e3o em quest\u00e3o. Por todo o lado a \u201cnecessidade imperiosa\u201d de uma austeridade \u201cdolorosa, mas salutar\u201d vai nos ser apresentada como o meio de escapar ao destino grego, enquanto esta por a\u00ed avan\u00e7a sempre em frente.<br \/>\n<\/br><br \/>\nPerante este ataque persistente contra a sociedade, perante a destrui\u00e7\u00e3o das \u00faltimas ilhotas da democracia, n\u00f3s apelamos aos nossos concidad\u00e3os, nossos amigos franceses e europeus a exprimirem-se alto e forte. N\u00e3o podemos deixar o monop\u00f3lio da palavra aos especialistas e aos pol\u00edticos. O facto de a pedido dos dirigentes alem\u00e3es e franceses em particular a Gr\u00e9cia seja de agora em diante interdita de elei\u00e7\u00f5es pode deixar-nos indiferentes? A estigmatiza\u00e7\u00e3o e o denegrir sistem\u00e1tico de um povo europeu n\u00e3o merece uma resposta? Ser\u00e1 poss\u00edvel n\u00e3o elevar a voz contra o assassinato institucional do povo grego? E poderemos n\u00f3s permanecer silenciosos perante a instaura\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de um sistema que pro\u00edbe a pr\u00f3pria ideia de solidariedade social?<br \/>\n<\/br><br \/>\nN\u00f3s estamos no ponto de n\u00e3o retorno. \u00c9 urgente lutar contra a batalha dos n\u00fameros e a guerra das palavras para conter a ret\u00f3rica ultra-liberal do medo e da desinforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 urgente desconstruir as li\u00e7\u00f5es de moral que ocultam o processo real posto em pr\u00e1tica na sociedade. Torna-se mais do que urgente desmistificar a insist\u00eancia racista sobre a \u201cespecificidade grega\u201d, que pretende fazer do suposto car\u00e1ter nacional de um povo (pregui\u00e7a e ast\u00facia \u00e0 vontade) a causa primeira de uma crise, na realidade, mundial. O que conta hoje n\u00e3o s\u00e3o as particularidades reais ou imagin\u00e1rias, mas as comuns: o destino de um povo que afetar\u00e1 todos os outros.<br \/>\n<\/br><br \/>\nMuitas solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas t\u00eam sido propostas para sair da alternativa \u201cou a destrui\u00e7\u00e3o da sociedade ou a fal\u00eancia\u201d (que quer dizer, vemo-lo hoje: \u201ce a destrui\u00e7\u00e3o e a fal\u00eancia\u201d). Tudo deve ser tido em conta como elemento de reflex\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma outra Europa. Mas primeiro, \u00e9 necess\u00e1rio denunciar o crime, trazer \u00e0 luz do dia a situa\u00e7\u00e3o onde se encontra o povo grego devido aos \u201cplanos de ajuda\u201d concebidos por e para os especuladores e os credores. Num momento em que um movimento de apoio se tece em todo o mundo, onde as redes sociais emitem iniciativas de solidariedade, ser\u00e3o os inteletuais franceses os \u00faltimos a elevar a sua voz pela Gr\u00e9cia? Sem mais demora, vamos multiplicar os artigos, as interven\u00e7\u00f5es nos media, os debates, as peti\u00e7\u00f5es, as manifesta\u00e7\u00f5es. Porque toda a iniciativa \u00e9 bem-vinda, toda a iniciativa \u00e9 urgente.<br \/>\n<\/br><br \/>\nDe nossa parte, eis o que propomos: formar rapidamente um comit\u00e9 europeu de inteletuais e artistas pela solidariedade com o povo grego que resiste. Se n\u00e3o formos n\u00f3s, quem ser\u00e1? Se n\u00e3o for agora, ser\u00e1 quando?<br \/>\n<\/br><br \/>\nVicky Skoumbi, editora chefe da revista \u00abAl\u00e8theia\u00bb, Ath\u00e8nes, Michel Surya, diretor da revista \u00abLignes\u00bb, Paris, Dimitris Vergetis, diretor da revista \u00abAl\u00e8theia\u00bb, Ath\u00e8nes. E: Daniel Alvara, Alain Badiou, Jean-Christophe Bailly, Etienne Balibar, Fernanda Bernardo, Barbara Cassin, Bruno Cl\u00e9ment, Danielle Cohen-Levinas, Yannick Courtel, Claire Denis, Georges Didi-Huberman, Roberto Esposito, Francesca Isidori, Pierre-Philippe Jandin, J\u00e9r\u00f4me L\u00e8bre, Jean-Clet Martin, Jean-Luc Nancy, Jacques Ranci\u00e8re, Judith Revel, Elisabeth Rigal, Jacob Rogozinski, Hugo Santiago, Beppe Sebaste, Mich\u00e8le Sinapi, Enzo Traverso.<br \/>\n<\/br><br \/>\n22 de fevereiro de 2012.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Recomendamos tamb\u00e9m:<br \/>\n>> ALERTA E APELO DE MIKIS THEODORAKIS \u2013 Se os povos da Europa n\u00e3o se levantarem, os bancos trar\u00e3o o fascismo de volta<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/?p=573\">http:\/\/imediata.org\/?p=573<\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\ne<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Ah, essa Gr\u00e9cia de Min(h\u2019)erva que o Deus-Mercado tanto enerva\u2026<br \/>\nou<br \/>\nO que o mundo deve \u00e0 Gr\u00e9cia\u2026<br \/>\npor Artur d\u2019Amaru, no fim do dossi\u00ea imediata GR\u00c9CIA SE LEVANTA:<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/?page_id=111\">http:\/\/imediata.org\/?page_id=111<\/a><br \/>\n<\/br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alain Badiou: Vamos salvar o povo grego dos seus salvadores! Fonte: esquerda.net Tradu\u00e7\u00e3o: Alexandra Balona de S\u00e1 Oliveira e Sofia Borges Declara\u00e7\u00e3o emitida por Alain Badiou em solidariedade com o povo grego, tamb\u00e9m assinada por Jean-Christophe Bailly, Balibar \u00c9tienne, Denis Claire, Jean-LucNancy, Jacques Ranci\u00e8re e Ronell Avital, entre outros. 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