{"id":1189,"date":"2012-02-03T20:41:46","date_gmt":"2012-02-03T20:41:46","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=1189"},"modified":"2012-02-03T20:43:00","modified_gmt":"2012-02-03T20:43:00","slug":"como-se-fabrica-a-opiniao-publica-texto-inedito-de-pierre-bourdieu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=1189","title":{"rendered":">> &#8220;Como se fabrica a opini\u00e3o p\u00fablica&#8221; &#8211; Texto in\u00e9dito de Pierre Bourdieu"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8220;Como se fabrica a opini\u00e3o p\u00fablica&#8221; &#8211; Texto in\u00e9dito de Pierre Bourdieu <\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Como se define o espa\u00e7o dos discursos oficiais, por meio de que prod\u00edgio a opini\u00e3o de uma minoria se transforma em \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d? \u00c9 isso que o soci\u00f3logo Pierre Bourdieu explica neste texto extra\u00eddo de \u201c Sur l\u2019Etat. Cours au Coll\u00e8ge de France 1989-1992&#8243; (Raisons d\u2019Agir-Seuil, Paris, 2012).<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Por Pierre Bourdieu<br \/>\nFonte: Le Monde Diplomatique &#8211; Il manifesto,  via <a href=\"http:\/\/temi.repubblica.it\/micromega-online\/come-si-fabbrica-lopinione-pubblica-un-inedito-di-pierre-bourdieu\/\">micromega<\/a> Janeiro de 2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/coroacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/coroacao.jpg\" alt=\"\" title=\"coroacao\" width=\"400\" height=\"299\" class=\"alignright size-full wp-image-1190\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/coroacao.jpg 400w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/coroacao-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nUm homem oficial \u00e9 um ventr\u00edloquo que fala em nome do Estado: assume uma atitude oficial &#8211; seria preciso descrever a encena\u00e7\u00e3o do personagem oficial -, fala a favor e em lugar do grupo ao qual se dirige, fala para e em lugar de todos, fala enquanto representante do universal.<br \/>\n<\/br><br \/>\nE nesse ponto chega-se \u00e0 moderna no\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o p\u00fablica. O que \u00e9 essa opini\u00e3o p\u00fablica, invocada pelos criadores de direito das sociedades modernas, das sociedades nas quais o direito existe? \u00c9 tacitamente a opini\u00e3o de todos, da maioria ou daqueles que contam, daqueles que s\u00e3o dignos de ter uma opini\u00e3o. Penso que a defini\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, numa sociedade que se pretende democr\u00e1tica, ou seja, de que a opini\u00e3o oficial \u00e9 a opini\u00e3o de todos, esconda uma defini\u00e7\u00e3o latente, ou seja, que a opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 a opini\u00e3o daqueles que s\u00e3o dignos de ter uma opini\u00e3o. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de defini\u00e7\u00e3o censu\u00e1ria da opini\u00e3o p\u00fablica como opini\u00e3o iluminada, opini\u00e3o digna desse nome.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA l\u00f3gica das comiss\u00f5es oficiais \u00e9 aquela de criar um grupo capaz de dar todos os sinais externos, socialmente reconhecidos e reconhec\u00edveis, de sua capacidade de expressar a opini\u00e3o digna de ser expressada, e nas formas convenientes. Um dos crit\u00e9rios t\u00e1citos mais importantes na sele\u00e7\u00e3o dos membros de uma comiss\u00e3o, em particular de seu presidente, \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o, por parte de quem esteja encarregado da composi\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o, de que a pessoa em quest\u00e3o conhe\u00e7a as regras t\u00e1citas do universo burocr\u00e1tico e as reconhe\u00e7a: em outras palavras, algu\u00e9m que saiba jogar o jogo da comiss\u00e3o de maneira apropriada, aquela maneira que vai al\u00e9m das regras do jogo,  que o legitima: nunca se est\u00e1 tanto dentro do jogo como quando se vai al\u00e9m. Em cada jogo, h\u00e1 regras e fair-play. A prop\u00f3sito do homem cabilo (N. do T.: berbere da Arg\u00e9lia), ou do mundo intelectual, eu tinha utilizado esta f\u00f3rmula: a excel\u00eancia, na maior parte das sociedades, \u00e9 a arte de jogar com a regra do jogo, fazendo desse jogo com a regra do jogo uma homenagem suprema ao jogo. O transgressor controlado \u00e9 a verdadeira ant\u00edtese do her\u00e9tico.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6189039_JWPFy.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6189039_JWPFy.jpeg\" alt=\"\" title=\"6189039_JWPFy\" width=\"500\" height=\"333\" class=\"alignright size-full wp-image-1191\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6189039_JWPFy.jpeg 500w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6189039_JWPFy-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\nJoana Vasconcelos &#8211; O Sapato &#8211; Escultura\/ Instala\u00e7\u00e3o realizada com panelas e tampas de a\u00e7o inox (Lisboa Portugal), 2009<br \/>\nImagem do blog Da Literatura<br \/>\n<\/br><br \/>\nO grupo dominante coopta os seus membros com base em ind\u00edcios m\u00ednimos de comportamento, que s\u00e3o a arte de respeitar a regra do jogo at\u00e9 mesmo nas transgress\u00f5es reguladas pela regra do jogo: as boas maneiras, o comportamento. \u00c9 a c\u00e9lebre frase de Chamfort: \u201cO \u2018grande vig\u00e1rio\u2019 pode sorrir de uma piadinha contra a religi\u00e3o, o bispo pode rir dela abertamente, o cardeal pode acrescentar-lhe algo de seu (1).\u201d Mais subimos na hierarquia das excel\u00eancias, mais podemos jogar com a regra do jogo, mas \u2018ex officio\u2019, a partir de uma posi\u00e7\u00e3o tal que seja eliminada qualquer d\u00favida. O humor anticlerical de um cardeal \u00e9 requintadamente clerical. A opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 sempre uma esp\u00e9cie de realidade dupla. \u00c9 aquilo que n\u00e3o se pode n\u00e3o invocar quando se quer legiferar em campos n\u00e3o organizados. Quando se diz: \u201cH\u00e1 um vazio jur\u00eddico\u201d (express\u00e3o extraordin\u00e1ria), a prop\u00f3sito da eutan\u00e1sia ou dos beb\u00eas-proveta, s\u00e3o convocadas pessoas que se colocar\u00e3o a trabalhar com toda a sua autoridade. Dominique Memmi (2) descreve uma comiss\u00e3o de \u00e9tica [sobre a procria\u00e7\u00e3o artificial], a sua composi\u00e7\u00e3o com pessoas disparates \u2013 psic\u00f3logos, soci\u00f3logos, mulheres, feministas, arcebispos, rabinos, cientistas, etc. \u2013 que t\u00eam a tarefa de transformar uma soma de idioletos (3) \u00e9ticos num discurso universal que preencher\u00e1 um vazio jur\u00eddico, ou seja, &#8211; legalizar as m\u00e3es portadoras, por exemplo. Quando se trabalha nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio invocar uma opini\u00e3o p\u00fablica.  Nesse contexto, compreende-se muito bem a fun\u00e7\u00e3o atribu\u00edda \u00e0s sondagens. Dizer \u201cas sondagens est\u00e3o do nosso lado\u201d \u00e9 como dizer \u201cDeus est\u00e1 conosco\u201d em um outro contexto.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6185132_f6kzM.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6185132_f6kzM.jpeg\" alt=\"\" title=\"6185132_f6kzM\" width=\"500\" height=\"291\" class=\"alignright size-full wp-image-1192\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6185132_f6kzM.jpeg 500w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/6185132_f6kzM-300x174.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nMas a quest\u00e3o das sondagens \u00e9 irritante, porque \u00e0s vezes a opini\u00e3o iluminada \u00e9 contra a pena de morte, ao passo que as sondagens s\u00e3o predominantemente a favor. O que fazer? Faz-se uma comiss\u00e3o. A comiss\u00e3o constitui uma opini\u00e3o p\u00fablica iluminada que traduzir\u00e1 a opini\u00e3o iluminada em opini\u00e3o leg\u00edtima em nome da opini\u00e3o p\u00fablica \u2013 que, possivelmente, diz o contr\u00e1rio ou n\u00e3o tem nenhuma opini\u00e3o formada a respeito (como acontece com muitos assuntos). Um das propriedades das sondagens consiste em colocar \u00e0s pessoas problemas que elas mesmas n\u00e3o se p\u00f5em, em sugerir respostas a problemas que elas mesmas n\u00e3o se colocam, portanto, em impor respostas. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de procurar caminhos transversos na constitui\u00e7\u00e3o das amostras, \u00e9 o fato de se impor a todos problemas que s\u00e3o sentidos pela opini\u00e3o iluminada e, por essa via, de propor respostas gerais a problemas sentidos somente por alguns, portanto, de dar respostas iluminadas enquanto tiverem sido geradas com a pergunta:  deu-se vida a problemas que n\u00e3o existiam para as pessoas, enquanto a pergunta era qual fosse o problema delas.<br \/>\n<\/br><br \/>\nVou lhes traduzir um texto de Alexander Mackinnon, de 1828, extra\u00eddo de um livro de Peel sobre Herbert Spencer (4). Mackinnon define a opini\u00e3o p\u00fablica, d\u00e1 a defini\u00e7\u00e3o que seria oficial, se n\u00e3o fosse inconfess\u00e1vel numa sociedade democr\u00e1tica. Quando se fala de opini\u00e3o p\u00fablica, joga-se sempre um duplo jogo entre a defini\u00e7\u00e3o confess\u00e1vel (a opini\u00e3o de todos) e a opini\u00e3o autorizada e eficiente que se obt\u00e9m como subconjunto restrito da opini\u00e3o p\u00fablica democraticamente definida: \u201c\u00c9 a opini\u00e3o, a prop\u00f3sito de um qualquer argumento de que se fale, expressa pelas pessoas mais informadas, mais inteligentes e mais morais da comunidade. Ela \u00e9 gradualmente difundida e adotada por todas as pessoas dotadas de uma certa instru\u00e7\u00e3o e de um sentir adequado a um Estado civilizado\u201d. A verdade dos dominantes se torna aquela de todos.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Colocar em cena a autoridade que autoriza a falar <\/strong><br \/>\nNos anos 1880, dizia-se abertamente \u00e0 Assembleia Nacional aquilo que a sociologia precisou redescobrir, isto \u00e9, que o sistema educacional precisava expulsar os filhos das classes mais desfavorecidas. No in\u00edcio, a quest\u00e3o era colocada mas depois foi plenamente resolvida, \u00e0 medida que o sistema escolar come\u00e7ou a fazer, sem solicita\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, aquilo que se esperava dele. Portanto, nenhuma necessidade de se falar a respeito. O interesse pela volta \u00e0 g\u00eanese \u00e9 muito importante porque, na fase inicial, podem ser recuperados debates em que s\u00e3o expressas com letras claras coisas que, em seguida, podem parecer provoca\u00e7\u00f5es dos soci\u00f3logos.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO reprodutor da autoridade sabe produzir \u2013 no sentido etimol\u00f3gico do termo: produzir significa \u201ctrazer \u00e0 luz\u201d-, teatralizando-o, algo que n\u00e3o existe (no sentido de sens\u00edvel, de vis\u00edvel), e no nome do qual se fala. Deve produzir em nome de quem tem o direito de produzir. N\u00e3o pode n\u00e3o teatralizar, n\u00e3o dar forma, n\u00e3o fazer milagres. O milagre mais comum, para um criador verbal, \u00e9 o milagre verbal, o sucesso ret\u00f3rico; deve produzir a encena\u00e7\u00e3o daquilo que autoriza o seu dizer, em outras palavras, da autoridade em nome da qual \u00e9 autorizado a falar.<br \/>\n<\/br><br \/>\nReencontro a defini\u00e7\u00e3o da prosopopeia que eu procurava antes: \u201cFigura ret\u00f3rica pela qual se faz falar ou agir uma pessoa que \u00e9 evocada, um ausente, um morto, um animal, uma coisa personificada\u201d. E no dicion\u00e1rio, que \u00e9 sempre um instrumento formid\u00e1vel, encontra-se esta frase de Baudelaire a respeito da poesia: \u201cManejar sapientemente uma l\u00edngua, quer dizer praticar uma esp\u00e9cie de bruxaria evocadora\u201d. Os cl\u00e9rigos, aqueles que manipulam uma l\u00edngua sapiente como os juristas e os poetas, devem encenar o referente imagin\u00e1rio em nome do qual falam, e que falando produzem nas formas; devem fazer existir aquilo que exprimem e isso em nome do que se exprimem. Devem juntos produzir um discurso e produzir a confian\u00e7a na universalidade do seu discurso atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o sens\u00edvel (no sentido de evoca\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos, dos fantasmas \u2013 o Estado \u00e9 um fantasma&#8230;) dessa coisa que ser\u00e1 garante daquilo que fazem: \u201ca na\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cos trabalhadores\u201d, \u201co povo\u201d, \u201co segredo de Estado\u201d, \u201ca seguran\u00e7a nacional\u201d, \u201ca demanda social\u201d, etc&#8230;<br \/>\n<\/br><br \/>\nPercy Schramm mostrou como as cerim\u00f4nias de consagra\u00e7\u00e3o fossem a transfer\u00eancia, na ordem pol\u00edtica, das cerim\u00f4nias religiosas (5). Se o cerimonial religioso pode ser transferido assim facilmente para as cerim\u00f4nias pol\u00edticas, atrav\u00e9s das cerim\u00f4nias da consagra\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque se trata, em ambos os casos, de fazer acreditar que h\u00e1 um fundamento no discurso, o qual aparece auto-fundante, leg\u00edtimo, universal s\u00f3 enquanto existir a teatraliza\u00e7\u00e3o \u2013 no sentido de evoca\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, de bruxaria \u2013 do grupo unido e consonante com o discurso que o une. Da\u00ed o cerimonial jur\u00eddico. O historiador ingl\u00eas E. P. Thompson insistiu no papel da teatraliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica no s\u00e9culo XVIII ingl\u00eas  &#8211; as perucas, etc.-, que n\u00e3o pode ser compreendido completamente se n\u00e3o se v\u00ea que n\u00e3o se trata de um simples aparato, no sentido de Pascal, que viria a ser acrescentado: \u00e9 parte constitutiva do ato jur\u00eddico (6). O falar forense em palet\u00f3 e gravata \u00e9 arriscado: arrisca-se perder a pompa do discurso. Fala-se sempre em reformar a linguagem jur\u00eddica, sem jamais faz\u00ea-lo, porque \u00e9 o \u00faltimo indumento: os reis nus deixam de ser carism\u00e1ticos<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/the-emperors-new-clothes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/the-emperors-new-clothes.jpg\" alt=\"\" title=\"the emperor&#039;s new clothes\" width=\"450\" height=\"401\" class=\"alignright size-full wp-image-1193\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/the-emperors-new-clothes.jpg 450w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/the-emperors-new-clothes-300x267.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Oficialidade, a m\u00e1-f\u00e9 coletiva<\/strong><br \/>\nUma das dimens\u00f5es muito importantes da teatraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a teatraliza\u00e7\u00e3o do interesse pelo interesse geral; \u00e9 a teatraliza\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o do interesse pelo universal, do desinteresse do homem pol\u00edtico \u2013 teatraliza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 no padre, da convi\u00e7\u00e3o do homem pol\u00edtico, de sua confian\u00e7a naquilo que faz. Se a teatraliza\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o faz parte das condi\u00e7\u00f5es t\u00e1citas do exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de cl\u00e9rigo &#8211; se um professor de filosofia deve parecer acreditar na filosofia -, \u00e9 porque \u00e9 a homenagem fundamental do personagem oficial para com a autoridade; \u00e9 aquilo que precisa conceder \u00e0 autoridade para ser uma autoridade, para ser um verdadeiro personagem oficial. O desinteresse n\u00e3o \u00e9 uma virtude secund\u00e1ria: \u00e9 a virtude pol\u00edtica de todos os mandat\u00e1rios. As escapadelas dos padres, os esc\u00e2ndalos pol\u00edticos s\u00e3o o colapso dessa esp\u00e9cie de f\u00e9 pol\u00edtica na qual todos est\u00e3o de m\u00e1-f\u00e9, a f\u00e9 sendo uma esp\u00e9cie de m\u00e1-f\u00e9 coletiva, no sentido sartriano: um jogo no qual todos mentem a si mesmos e aos outros, sabendo que os outros tamb\u00e9m mentem a si mesmos. \u00c9 essa a autoridade&#8230;<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/vavrova_naked_king_hca7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/vavrova_naked_king_hca7.jpg\" alt=\"\" title=\"vavrova_naked_king_hca7\" width=\"320\" height=\"239\" class=\"alignright size-full wp-image-1194\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/vavrova_naked_king_hca7.jpg 320w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/vavrova_naked_king_hca7-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><br \/>\nNaked King, de Katarina Vavrova<br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>NOTAS<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n(1) Nicolas de Chamfort, Maximes et pens\u00e9es, Paris, 1795.<br \/>\n(2) Dominique Memmi, \u00abSavants et ma\u00eetres \u00e0 penser. La fabrication d\u2019une morale de la procr\u00e9ation artificielle\u00bb, Actes de la recherche en sciences sociales, n\u00b0 76-77, Paris, 1989, p. 82-103.<br \/>\n(3) Do grego idios, \u00abparticular\u00bb: discurso particular.<br \/>\n(4) John David Yeadon Peel, Herbert Spencer. The Evolution of a Sociologist, Heinemann, Londra, 1971. William Alexander Mackinnon (1789-1870) teve uma longa carreira como membro do Parlamento brit\u00e2nico.<br \/>\n(5) Percy Ernst Schramm, Der K\u00f6nig von Frankreich. Das Wesen der Monarchie von 9 zum 16. Jahrhundert. Ein Kapital aus der Geschichte des abendl\u00e4ndischen Staates (dois volumes), H. B\u00f6hlaus Nachfolger, Weimar, 1939.<br \/>\n(6) Edward Palmer Thompson, \u00abPatrician society, plebeian culture\u00bb, Journal of Social History, vol. 7, n\u00b0 4, Berkeley (California),1974, p. 382-405.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Como se fabrica a opini\u00e3o p\u00fablica&#8221; &#8211; Texto in\u00e9dito de Pierre Bourdieu Como se define o espa\u00e7o dos discursos oficiais, por meio de que prod\u00edgio a opini\u00e3o de uma minoria se transforma em \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d? \u00c9 isso que o soci\u00f3logo Pierre Bourdieu explica neste texto extra\u00eddo de \u201c Sur l\u2019Etat. 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