{"id":1177,"date":"2012-02-01T18:53:38","date_gmt":"2012-02-01T18:53:38","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=1177"},"modified":"2012-02-01T19:05:46","modified_gmt":"2012-02-01T19:05:46","slug":"terapia-politica-a-arte-da-dissociacao-de-massas-por-franco-berardi-bifo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=1177","title":{"rendered":">> Terapia pol\u00edtica &#8211; A arte da dissocia\u00e7\u00e3o de massas, por Franco Berardi Bifo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Terapia pol\u00edtica<br \/>\nA arte da dissocia\u00e7\u00e3o de massas.<br \/>\n<\/br><br \/>\npor: Franco Berardi Bifo<\/strong><br \/>\n<strong>1\u00ba de fevereiro de 2012<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>E se a sociedade n\u00e3o puder mais resistir aos efeitos destrutivos do capitalismo sem limites? Se a sociedade n\u00e3o puder mais resistir ao poder devastador da acumula\u00e7\u00e3o financeira?<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/franco-berardi-bifo-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/franco-berardi-bifo-4.jpg\" alt=\"\" title=\"franco-berardi-bifo-4\" width=\"400\" height=\"260\" class=\"alignright size-full wp-image-1178\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/franco-berardi-bifo-4.jpg 400w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/franco-berardi-bifo-4-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Precisamos desemaranhar autonomia de resist\u00eancia. E se quisermos faz\u00ea-lo, precisamos desemaranhar desejo de energia. O foco prevalecente do capitalismo moderno tem sido a energia: a habilidade de produzir, competir, dominar. Uma esp\u00e9cie de energolatria, um culto da energia, tem dominado a sensibilidade cultural do Ocidente de Fausto at\u00e9 os futuristas. A sempre crescente disponibilidade de energia tem sido o seu dogma. Agora sabemos que a energia n\u00e3o \u00e9 ilimitada. No esp\u00edrito social do Ocidente, a energia est\u00e1 desvanecendo. Acho que dever\u00edamos reenquadrar o conceito e a pr\u00e1tica de autonomia a partir desse ponto de vista. O corpo social \u00e9 incapaz de reafirmar seus direitos face a selvagem assertividade do capital porque a busca de direitos nunca pode ser dissociada do exerc\u00edcio da for\u00e7a.<br \/>\n<\/br><br \/>\nQuando os trabalhadores eram fortes, nos anos \u201960 e \u201970, eles n\u00e3o se restringiram a reivindicar seus direitos, a manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas de sua for\u00e7a de vontade. Eles agiram em solidariedade, recusando-se de trabalhar, redistribuindo a riqueza, compartilhando coisas, servi\u00e7os e espa\u00e7os. Os capitalistas, por sua vez, n\u00e3o apenas pedem ou se manifestam, n\u00e3o simplesmente declaram sua vontade: eles a decretam. Eles fazem as coisas acontecer; eles investem, desinvestem, deslocam; eles destroem  e constroem. Somente a for\u00e7a torna a autonomia poss\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o entre capital e sociedade. Mas o que \u00e9 a for\u00e7a? O que \u00e9 a for\u00e7a no presente?<br \/>\n<\/br><br \/>\nA identifica\u00e7\u00e3o de desejo com energia produziu a identifica\u00e7\u00e3o de for\u00e7a com viol\u00eancia que acabou t\u00e3o mal para o movimento italiano nos anos \u201970 e \u201980. Precisamos distinguir energia de desejo.  A energia est\u00e1 em queda, mas o desejo precisa ser salvado. Similarmente, precisamos distinguir for\u00e7a de viol\u00eancia. Lutar contra o poder com viol\u00eancia \u00e9 suicida ou in\u00fatil atualmente. Como podemos imaginar ativistas indo contra organiza\u00e7\u00f5es profissionais de assassinos nos moldes da Blackwater, Halliburton, dos servi\u00e7os secretos, das m\u00e1fias?<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/1dba76981f71ccaae847349eaeab97e9_XL.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/1dba76981f71ccaae847349eaeab97e9_XL-227x300.jpg\" alt=\"\" title=\"1dba76981f71ccaae847349eaeab97e9_XL\" width=\"227\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-1179\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/1dba76981f71ccaae847349eaeab97e9_XL-227x300.jpg 227w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/1dba76981f71ccaae847349eaeab97e9_XL.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nS\u00f3 o suic\u00eddio tem se comprovado eficiente na luta contra o poder. E, na realidade, o suic\u00eddio se tornou decisivo na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. O lado sombrio da multid\u00e3o  encontra aqui a solid\u00e3o da morte.  A cultura ativista deveria evitar o perigo de se tornar uma cultura do ressentimento. Reconhecer a irreversibilidade das tend\u00eancias catastr\u00f3ficas que o capitalismo inscreveu na hist\u00f3ria da sociedade n\u00e3o significa renunciar a ele.  Pelo contr\u00e1rio, temos hoje uma nova tarefa cultural: viver o inevit\u00e1vel com uma alma relaxada. Invocar uma poderosa onda de retirada, de dissocia\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, de deser\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio econ\u00f4mico, de n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o no falsificado jogo da pol\u00edtica. O foco crucial de transforma\u00e7\u00e3o social \u00e9 a singularidade criativa. A exist\u00eancia de singularidades n\u00e3o deve ser concebida como um modo de salva\u00e7\u00e3o pessoal,  essas singularidades podem se tornar uma for\u00e7a contagiosa.<br \/>\n<\/br><br \/>\nQuando pensamos na cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica, nas amea\u00e7as geopol\u00edticas, no colapso econ\u00f4mico provocado pela pol\u00edtica financeira do neoliberalismo, \u00e9 dif\u00edcil afastar a sensa\u00e7\u00e3o de que tend\u00eancias irresist\u00edveis j\u00e1 est\u00e3o atuantes ao interior da m\u00e1quina do mundo. A for\u00e7a de vontade pol\u00edtica parecer\u00e1  paralisada frente ao poder econ\u00f4mico da classe criminosa.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA era da civiliza\u00e7\u00e3o social moderna parece \u00e0 beira da dissolu\u00e7\u00e3o, e \u00e9 dif\u00edcil imaginar como a sociedade poder\u00e1 reagir. A civiliza\u00e7\u00e3o moderna estava baseada na converg\u00eancia e integra\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o capitalista do trabalho e na regula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do conflito social. O estado regulador, herdeiro do Iluminismo e do socialismo, tem sido o fiador dos direitos humanos e o negociador do equil\u00edbrio social. Quando, no fim de uma feroz luta de classes entre o trabalho e o capital \u2013 e dentro da pr\u00f3pria classe capitalista \u2013 a classe financeira tomou o poder atrav\u00e9s da destrui\u00e7\u00e3o das normas legais e da transforma\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o social, o inteiro edif\u00edcio da civiliza\u00e7\u00e3o moderna come\u00e7ou a ruir.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEu prevejo que insurrei\u00e7\u00f5es dispersas ocorrer\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos, mas n\u00e3o devemos esperar muito delas. Elas ser\u00e3o incapazes de atingir os verdadeiros centros do poder devido \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o metropolitano, e n\u00e3o ser\u00e3o capazes de obter ganhos significativos em termos de riqueza material ou poder pol\u00edtico. Da mesma forma que a longa onda de protestos morais contra a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o puderam destruir o poder neoliberal, assim as insurrei\u00e7\u00f5es n\u00e3o encontrar\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o, a menos que uma nova consci\u00eancia e sensibilidade emerja e se espalhe, mudando a vida quotidiana e criando Zonas Aut\u00f4nomas N\u00e3o-Tempor\u00e1rias, enraizadas na cultura e na consci\u00eancia da rede global.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA prolifera\u00e7\u00e3o de singularidades (e a retirada e cria\u00e7\u00e3o de Zonas Aut\u00f4nomas N\u00e3o-Tempor\u00e1rias) ser\u00e1 uma processo pac\u00edfico, mas a maioria conformista reagir\u00e1 violentamente, e isso j\u00e1 est\u00e1 acontecendo. A maioria conformista est\u00e1 assustada com a fuga de energia inteligente e,  simultaneamente, est\u00e1 atacando a express\u00e3o da atividade inteligente. A situa\u00e7\u00e3o pode ser descrita como uma luta entre a ignor\u00e2ncia de massas produzida pelo totalitarismo da m\u00eddia e a intelig\u00eancia compartilhada do intelecto geral.<br \/>\n<\/br><br \/>\nN\u00e3o podemos predizer qual ser\u00e1 o resultado desse processo. Nossa tarefa ser\u00e1 estender e proteger o campo da autonomia e evitar o mais poss\u00edvel qualquer contato violento com o campo da ignor\u00e2ncia de massas agressiva. Essa estrat\u00e9gia de retirada sem confrontos nem sempre ser\u00e1 bem sucedida. \u00c0s vezes, a confronta\u00e7\u00e3o se tornar\u00e1 inevit\u00e1vel pelo racismo e fascismo. \u00c9 imposs\u00edvel predizer o que deveria ser feito em caso de conflito indesejado.  Uma resposta n\u00e3o violenta \u00e9 obviamente a melhor escolha, mas ela n\u00e3o ser\u00e1 sempre poss\u00edvel.  A identifica\u00e7\u00e3o do bem estar com a propriedade privada est\u00e1 t\u00e3o profundamente enraizada que a barbariza\u00e7\u00e3o do ambiente humano n\u00e3o pode ser completamente exclu\u00edda. Mas a tarefa do intelecto geral \u00e9 exatamente esta: escapar da paranoia, criar zonas de resist\u00eancia humanas, experimentar formas de produ\u00e7\u00e3o aut\u00f4nomas usando m\u00e9todos high-tech de baixo teor de energia \u2013 ao mesmo tempo em que se evitam confrontos com a classe criminosa e a popula\u00e7\u00e3o conformista.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA pol\u00edtica e a terapia ser\u00e3o a mesma coisa e atividade, nos pr\u00f3ximos anos. As pessoas se sentir\u00e3o desesperan\u00e7adas, deprimidas e tomadas pelo p\u00e2nico, porque s\u00e3o incapazes de lidar com a economia p\u00f3s-crescimento, e porque sentir\u00e3o falta de sua identidade moderna em dissolu\u00e7\u00e3o.  Nossa tarefa cultural ser\u00e1 auxiliar essas pessoas e cuidar de sua insanidade, mostrando-lhes a maneira de uma feliz adapta\u00e7\u00e3o. Nossa tarefa ser\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de zonas sociais de resist\u00eancia humana que atuar\u00e3o como zonas de cont\u00e1gio terap\u00eautico. O desenvolvimento da autonomia n\u00e3o \u00e9 totalizante nem pretende destruir e abolir o passado. Como a terapia psicanal\u00edtica, deveria ser considerado um processo sem fim.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/bifo4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/bifo4.jpg\" alt=\"\" title=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"401\" height=\"400\" class=\"alignright size-full wp-image-1180\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/bifo4.jpg 401w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/bifo4-150x150.jpg 150w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/bifo4-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nFranco Bifo Berardi \u00e9 um fil\u00f3sofo e ativista revolucion\u00e1rio italiano. Este ensaio faz parte de seu livro Dopo il Futuro (Depois do Futuro).<br \/>\n<\/br><br \/>\nPara ler o artigo em ingl\u00eas: <a href=\"http:\/\/www.adbusters.org\/magazine\/100\/berardi.html\">http:\/\/www.adbusters.org\/magazine\/100\/berardi.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terapia pol\u00edtica A arte da dissocia\u00e7\u00e3o de massas. por: Franco Berardi Bifo 1\u00ba de fevereiro de 2012 Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli E se a sociedade n\u00e3o puder mais resistir aos efeitos destrutivos do capitalismo sem limites? Se a sociedade n\u00e3o puder mais resistir ao poder devastador da acumula\u00e7\u00e3o financeira? Precisamos desemaranhar autonomia de resist\u00eancia. 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