{"id":1161,"date":"2012-01-30T02:24:03","date_gmt":"2012-01-30T02:24:03","guid":{"rendered":"http:\/\/imediata.org\/?p=1161"},"modified":"2012-01-30T02:25:49","modified_gmt":"2012-01-30T02:25:49","slug":"imperialismo-de-linguagem-conceitos-e-civilizacao-a-china-versus-o-ocidente-por-dr-thorsten-pattberg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imediata.org\/?p=1161","title":{"rendered":">> Imperialismo de linguagem, conceitos e civiliza\u00e7\u00e3o: a China versus o Ocidente, por Dr. Thorsten Pattberg"},"content":{"rendered":"<p><strong>Imperialismo de linguagem, conceitos e civiliza\u00e7\u00e3o: a China versus o Ocidente<\/strong><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>por Dr. Thorsten Pattberg<\/strong><br \/>\n<strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.globalresearch.ca\/index.php?context=va&#038;aid=28940\">globalresearch.ca<\/a><br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli<br \/>\n29 de janeiro de 2012<\/strong><br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/yinyang.jpg.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/yinyang.jpg.gif\" alt=\"\" title=\"yinyang.jpg\" width=\"200\" height=\"206\" class=\"alignright size-full wp-image-1162\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nSe o leitor \u00e9 um cidad\u00e3o europeu ou americano, \u00e9 prov\u00e1vel que nunca tenha ouvido a respeito de <strong>shengren<\/strong>, <strong>minzhu<\/strong> e <strong>wenming<\/strong>. E, se um dia for promov\u00ea-los, \u00e9 bem prov\u00e1vel que ser\u00e1 acusado de trai\u00e7\u00e3o cultural.<br \/>\n<\/br><br \/>\nIsso porque esses s\u00e3o conceitos chineses. Com frequ\u00eancia, esses conceitos s\u00e3o convenientemente traduzidos respectivamente como \u201cfil\u00f3sofos\u201d, \u201cdemocracia\u201d e \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d. Efetivamente, n\u00e3o s\u00e3o nada disso. S\u00e3o algo que, por sua vez, falta no Ocidente. Mas isso irrita a maioria dos ocidentais de modo que, no passado, conceitos estrangeiros foram rapidamente removidos dos livros e registros e, quando poss\u00edvel, da hist\u00f3ria do mundo, j\u00e1 que se trata de um mundo dominado pelo Ocidente. Como o fil\u00f3sofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel notou certa vez, o Oriente n\u00e3o desempenha qualquer papel na forma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do pensamento.<br \/>\n<\/br><br \/>\nMas vamos recuar um pouco no tempo. Lembram-se qual foi a escola que nos falou de humanidades ou ci\u00eancias humanas? Elas n\u00e3o s\u00e3o as ci\u00eancias! Se as ci\u00eancias humanas fossem ci\u00eancia, os vocabul\u00e1rios dos idiomas do mundo se adicionariam, e n\u00e3o se sobreporiam.  Isso o surpreende?<br \/>\n<\/br><br \/>\nEu estimo que haja 35.000 palavras ou frases chinesas que n\u00e3o possam ser traduzidas apropriadamente para o idioma ingl\u00eas. Palavras como  <strong>yin<\/strong> e <strong>yang<\/strong>, <strong>kung fu<\/strong> e <strong>fengshui<\/strong>. Acrescente-se a elas mais 35.000 da terminologia s\u00e2nscrita, principalmente da \u00cdndia e do budismo. Palavras como <strong>Buda<\/strong>, <strong>bodhisattva<\/strong> e <strong>guru<\/strong>.<br \/>\n<\/br><br \/>\nNuma recente confer\u00eancia na Universidade de Beijing, o renomado linguista Gu Zhengkun explicou que \u201cwenming\u201d descreve um alto n\u00edvel de \u00e9tica e gentileza de um povo, ao passo que a palavra inglesa &#8220;civilization&#8221; (civiliza\u00e7\u00e3o) deriva da maestria do povo de uma cidade com rela\u00e7\u00e3o aos materiais e a tecnologia.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA tradu\u00e7\u00e3o correta de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d no idioma chin\u00eas deveria ser \u201cchengshijishu-zhuyi\u201d. \u201cWenming\u201d \u00e9 melhor, mas intraduz\u00edvel. O termo tamb\u00e9m existe h\u00e1 mais de mil anos, enquanto a no\u00e7\u00e3o europeia de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma \u2018inven\u00e7\u00e3o\u2019 do fim do s\u00e9culo XVIII.<br \/>\n<\/br><br \/>\nTuristas e imperialistas n\u00e3o v\u00eam para serem ensinados. Eles chamam as coisas do mesmo modo como costumam cham\u00e1-las em seus locais de origem. Da\u00ed, acabam percebendo que os nomes n\u00e3o s\u00e3o corretos.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm muitos pa\u00edses, adotar a terminologia chinesa \u00e9 um tabu. At\u00e9 os pensadores de mente mais nobre, como o pr\u00eamio Nobel Hermann Hesse, advertiu os alem\u00e3es: \u201cn\u00e3o devemos nos tornar chineses [&#8230;], sen\u00e3o aderir\u00edamos ao fetiche\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\nO outro \u00e9 \u201cdemocracia\u201d, um conceito de origem grega. A \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d hel\u00eanica fracassou h\u00e1 muito tempo, bem entendido. Desapareceu, enquanto o \u201cwenming\u201d da China ainda est\u00e1 aqui, de modo ininterrupto, h\u00e1 5.000 anos. A \u201cdemocracia\u201d, originariamente, pouco tinha a ver com deixar a plebe votar, ainda menos deixar a plebe dirigir o pa\u00eds; pelo contr\u00e1rio, significava que v\u00e1rios grupos poderosos de interesses deveriam lutar pelos recursos, cada qual mobilizando seus adeptos entre os influentes moradores da cidade.<br \/>\n<\/br><br \/>\nEnquanto na China ainda vemos uma ordem social baseada nos valores familiares, no Ocidente encontramos uma ordem social baseada em grupos de interesses. Na pr\u00f3pria fam\u00edlia, n\u00e3o se aplicam leis estritas ou se fazem contratos; em vez disso, induz-se um c\u00f3digo moral. Entre estranhos que lutam contra outros grupos de interesses, simplesmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar neles como se fossem a pr\u00f3pria fam\u00edlia, portanto se fazem necess\u00e1rias leis.<br \/>\n<\/br><br \/>\nAt\u00e9 o s\u00e9culo XX, os europeus acreditavam que a China n\u00e3o era uma \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d apropriada, porque ela n\u00e3o tinha uma for\u00e7a policial, enquanto a China acusava a Europa de n\u00e3o ter \u201cwenming\u201d, por lhe faltar piedade filial, toler\u00e2ncia, gentileza humana e da\u00ed por diante.  Finalmente, o \u201cshengren\u201d \u00e9 a personalidade ideal e membro mais elevado naquela tradi\u00e7\u00e3o chinesa de valores baseados na fam\u00edlia, um s\u00e1bio que tem os mais elevados padr\u00f5es morais, chamado \u201cde\u201d, que aplica os princ\u00edpios do \u201cren\u201d, \u201cli\u201d, \u201cyi\u201d, \u201czhi\u201d e \u201cxin\u201d (al\u00e9m de outros 10), e conecta entre todas as pessoas como se fossem, metaforicamente falando, sua pr\u00f3pria fam\u00edlia.<br \/>\n<\/br><br \/>\nA palavra chinesa moderna para \u201cfil\u00f3sofo\u201d, \u201czhexuejia\u201d, n\u00e3o pode ser encontrada em nenhum dos cl\u00e1ssicos chineses. De fato, \u201czhexuejia\u201d chegou \u00e0 China via Jap\u00e3o, onde \u00e9 pronunciado \u201ctetsugakusha\u201d, depois que Nishi Amane cunhou a palavra, pela primeira vez, em 1874. Apesar disso, diz-se constantemente ao p\u00fablico ocidental, atrav\u00e9s de nossos altamente subsidiados cursos de estudos sobre a China, que o pensamento de Conf\u00facio \u00e9 uma \u201cfilosofia\u201d. E que o pensamento confuciano \u00e9 uma \u201cfilosofia\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/confucio1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/confucio1-277x300.jpg\" alt=\"\" title=\"confucio\" width=\"277\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-1164\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/confucio1-277x300.jpg 277w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/confucio1-947x1024.jpg 947w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/confucio1.jpg 1193w\" sizes=\"auto, (max-width: 277px) 100vw, 277px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\nComo o fil\u00f3sofo e te\u00f3rico cr\u00edtico esloveno Slavoj Zizek disse certa vez: \u201cA vit\u00f3ria real (a verdadeira \u2018nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u2019) ocorre quando o inimigo fala n\u00e3o no idioma dele, mas no seu\u201d.  Seria irracional se o Ocidente adotasse conceitos asi\u00e1ticos. Seria como segurar a vela para a China. Al\u00e9m do mais, o Imp\u00e9rio Central \u00e9 conhecido por assimilar todas as culturas invasoras do passado. Por que esperar na fila?<br \/>\n<\/br><br \/>\nOs \u201cb\u00e1rbaros\u201d sempre tiveram armas e tecnologia superiores, mas, como observou Gu Hongming em 1920, a eles sempre faltou intelig\u00eancia verdadeiramente humana. Que tal? Bem, \u00e9 um pouco como a sabedoria do Star Trek: se a humanidade pr\u00e9-hist\u00f3rica evoluiu dos animais, ent\u00e3o as sociedades humanas mais adiantadas seriam aquelas menos agressivas fisicamente, n\u00e3o?<br \/>\n<\/br><br \/>\nEm 1697, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Gottfried Leibniz fez a famosa argumenta\u00e7\u00e3o de que os chineses eram muito mais avan\u00e7ados nas ci\u00eancias humanas que \u201cn\u00f3s somos\u201d. Ele nuna especificou, mas acho que fica claro quando ele insistiu que os alem\u00e3es n\u00e3o usassem palavras estrangeiras, mas usassem sua pr\u00f3pria l\u00edngua (o alem\u00e3o \u00e9 uma l\u00edngua de palavras compostas, assim, \u00e9 uma fonte infinita), para construir e ampliar o mundo de fala alem\u00e3.<br \/>\n<\/br><br \/>\nE assim os alem\u00e3es fizeram. E assim os alem\u00e3es chegaram ao topo.  Como esperado, os alem\u00e3es, os descendentes do Sacro Imp\u00e9rio Romano da Na\u00e7\u00e3o Alem\u00e3, chamavam a Conf\u00facio de \u201cHeiliger\u201d (um santo, ou um homem santo). Agora, isso \u00e9 o que conv\u00e9m. Mas ser\u00e1 correto, em termos de cultura e sabedoria?<br \/>\n<\/br><br \/>\nComo as l\u00ednguas europeias t\u00eam suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es, elas n\u00e3o podem transmitir os conceitos chineses de modo suficiente. A solu\u00e7\u00e3o seria, eu creio, n\u00e3o traduzir os mais importantes conceitos estrangeiros, mas adot\u00e1-los.<br \/>\n<\/br><br \/>\nDe modo que, da pr\u00f3xima vez, nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, poder\u00edamos discutir como melhorar\u00edamos o  \u201cminzhu\u201d na Europa e como ajudar\u00edamos a transi\u00e7\u00e3o dos EUA em seu \u201cwenming\u201d em decl\u00ednio.Talvez, afinal de contas, o Ocidente seja simplesmente desprovido de qualquer \u201cshengren\u201d.<br \/>\n<\/br><br \/>\n<a href=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/0023ae73cfef0c90f7f410.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/0023ae73cfef0c90f7f410-252x300.jpg\" alt=\"\" title=\"0023ae73cfef0c90f7f410\" width=\"252\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-1165\" srcset=\"https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/0023ae73cfef0c90f7f410-252x300.jpg 252w, https:\/\/imediata.org\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/0023ae73cfef0c90f7f410.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 252px) 100vw, 252px\" \/><\/a><br \/>\n<\/br><br \/>\n<strong>Thorsten Pattberg<\/strong> \u00e9 um estudioso alem\u00e3o no Institute of World Literature of Peking University e autor de &#8220;The East-West Dichotomy&#8221; (2009) and &#8220;Shengren&#8221; (2011). Seu e-mail \u00e9 pattberg@pku.edu.cn. Outras vers\u00f5es do artigo apareceram no Japan Times em 17 de nov., e no China Daily de 25 de dez. \u00a9 2011 Thorsten Pattberg<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imperialismo de linguagem, conceitos e civiliza\u00e7\u00e3o: a China versus o Ocidente por Dr. Thorsten Pattberg Fonte: globalresearch.ca Tradu\u00e7\u00e3o: Mario S. Mieli 29 de janeiro de 2012 Se o leitor \u00e9 um cidad\u00e3o europeu ou americano, \u00e9 prov\u00e1vel que nunca tenha ouvido a respeito de shengren, minzhu e wenming. 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