O perfil e o testemunho de quem viveu ou vive com AIDS, ou de quem trabalha para melhorar a qualidade de vida do portador do HIV/AIDS
Padre Júlio Lancellotti

Ex-funcionário da Febem do Tatuapé, Júlio Lancellotti, 52 anos, ordenou-se padre secular (ele não pertence a nenhuma ordem) em 1985, pelas mãos de dom Luciano Mendes de Almeida, então bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo, na Móoca, bairro tradicional dos italianos em São Paulo, ele é um dos coordenadores do movimento dos moradores de Rua e da Pastoral do Menor na região da Zona Leste. O seu trabalho com menores portadores do vírus da Aids iniciou-se nos anos 80, quando trabalhava na Febem e sentia a necessidade de um espaço alternativo para abrigar os internos soropositivos. A Casa Vida foi fundada de 1990 e desde então padre Júlio foi "pai" e "mãe" de mais de 70 crianças. Atualmente, ele responde pela educação de 30 menores, divididos entre as unidades da Moóca e da Água Rasa.

CASA VIDA

O muro alto de tijolo aparente não chama atenção na rua de sobrados de classe média, no bairro da Móoca, um dos mais tradicionais de São Paulo. Quem é convidado a entrar na casa de dois andares e quatro quartos percebe, logo na porta da sala, que se trata de uma casa diferente. Brinquedos, vídeos e desenhos infantis estão por todos os cantos revelando que são as crianças que comandam tudo por ali. É exatamente essa a intenção da Casa Vida, o projeto criado pelo padre Júlio Lancellotti e por outros voluntários em 1990 para abrigar crianças abandonadas e portadoras do vírus da AIDS. Na únidade da Móoca (existe outra na Água Rasa para crianças com idades entre 6 meses e 6 anos), moram atualmente 12 crianças, quatro meninos e oito meninas, que convivem como irmãos, tendo a assistência de médicos, enfermeiras, psicólogos e o especial carinho do padre Lancellotti.

No início do projeto, a Casa Vida da Água Rasa, comprada com dinheiro doado pela Associação Internacional para o Desenvolvimento de Turim, na Itália, foi alvo do preconceito e da ignorância da comunidade, que não queria ter uma casa com crianças portadoras do vírus HIV na redondeza. Nessa época, o antigo sobrado onde ficavam as crianças chegou a ser incendiado dolosamente duas vezes no mesmo dia. Atualmente, graças a informação e ao trabalho dedicado de padre Júlio, essas são apenas más lembranças. A vizinhança da rua Sapucaia, na Móoca, por exemplo, participou ativamente de uma campanha para levantar os fundos necessários para a construição da nova sede própria. Além disso, a garotada é íntima dos vizinhos mais próximos, que tratam com especial carinho a mascote Mislane, uma garotinha de 8 anos, muito magrinha e fraca, dona de um sorisso luminoso e enternecedor, que é razão de alegria e espanto para os médicos devido a sua capacidade de sobreviver com uma resistência imunológica tão débil.

A presença luminosa da pequena Mislane é a prova de que o projeto da CASA VIDA nasceu centrado em uma premissa correta: apenas uma vida regrada, em um ambiente limpo, saudável e com muito afeto poderiam prolongar a sobrevida de crianças soropositivas. Em 32 casos, crianças com resultados iniciais positivos de Aids deixaram de apresentar a doença meses depois e 24 delas foram adotadas.

DEUS É MULHER

"Deus é mulher e tem o vírus da AIDS". A frase foi dita pelo padre Júlio Lancellotti, responsável pelo projeto CASA VIDA de São Paulo, em entrevista à revista italiana Panorama (13/03/97). Padre Júlio falava sobre a pequena Mislane, uma garotinha de oito anos, negra e com a saúde bastante debilitada pela doença. "Mislane é a minha heresia. Olho para ela e sei que Deus é negro e mulher. Que é doente de Aids como ela. Quando quero beijar a Deus, dou um beijo na testa dessa menina", acrescenta.

Igrejas, crenças e rótulos à parte, a frase cunhada pelo Pe. Júlio é um slogan de alerta e serve de reflexão para a questão da feminilização da epidemia de Aids. Para as mulheres a epidemia é, em primeiro lugar, uma doença sexualmente transmissível. Das pessoas infectadas diariamente pelo HIV no mundo inteiro, metade são mulheres. Nesse universo, dois terços das mulheres soropositivas são jovens, pobres e casadas. Não usam drogas e, nos anos que antecederam à infecção, só mantiveram relações sexuais com seus parceiros.

Com base nas tendências atuais, a proporção de mulheres portadoras do HIV vai continuar crescendo. Noventa por cento das mulheres soropositivas vivem em países em desenvolvimento e estão entre as mais pobres da sociedade. A maioria tem pouco acesso a tratamentos para as suas doenças, serviços de saúde reprodutiva e assistência, além de outras necessidades básicas.

"O pano de fundo dessa frase é a minha própria fé", diz Júlio Lancellotti. "Acredito em um Deus que assume a natureza humana do excluído e do empobrecido. Vejo em Mislane um Deus que se identifica com a mulher excluída e discriminada. A imagem de Deus que é mãe e mulher. Essa é também uma imagem bíblica. O profeta Isaías diz: "Deus é mais que um pai, Deus é uma mãe. Ele também é um Deus que assume a negritude e a discriminação. É um Deus criança em uma sociedade adultocêntrica e, finalmente, é um Deus infectado pelo HIV, porque é um Deus que nos questiona. Olhando a Mislene vejo a imagem de Deus: mulher, criança, negra e HIV positiva. ", complementa.

Padre Júlio com crianças da Casa Vida (foto: Eduardo Albarello)

Clique na imagem para ouvir depoimento do padre Júlio e imagens da Casa Vida (em RealPlayer). Se você não tiver o plug-in, pegue aqui

A frase criada por Pe. Júlio em destaque