ATA DA 1a REUNIÃO DO NÚCLEO (31 DE MARÇO DE 2017)

ATA DA 1a REUNIÃO DO NÚCLEO DE PESQUISA EM JORNALISMO PERSEU ABRAMO, REALIZADA DIA 31 DE MARÇO DE 2017.

Aos trinta e um de março de dois mil e dezessete, às quinze horas, na sala da REDE PUC no 2o subsolo da PUCSP (R. Min. Godói, 969 – Perdizes), reuniram-se em sessão presidida pelo coordenador do núcleo Prof. Silvio Roberto Mieli, estando presentes o Prof. Renato Levi e Maria Aparecida de Souza, para debater a seguinte pauta: 1. Cronograma de atividades para 2017; 2. Disposições Gerais. Inicialmente o coordenador ressaltou a necessidade de fortalecimento da linha de pesquisa INFORMAÇÃO, DIFERENÇA, DESIGN E TECNOPOLÍTICAS (Indditec), apresentando ao Núcleo a sua sugestão de eixos de aprofundamento para o ano de 2017. O coordenador passou a ler um resumo de cada eixo (que segue abaixo), e seguiu-se debate sobre a proposta.
 1-BIG DATA: um lance de dados jamais abolirá o acaso?
 O que chamamos hoje de Big Data é uma espécie de pós-sociedade da informação. Urge tomar o fenômeno a partir do olho do furacão. O momento parece muito oportuno. Ao analisar a recente manifestação de Marc Zuckerberg  através do texto Building Global Community(http://migre.me/wasyx), a pesquisadora e ativista Tiziana Terranova, especialista em tecnologia da informação, avaliou que grandes empresas do Silicon Valley estabeleceram a sua governança através de plataformas informáticas  — internet das coisas, cidades inteligentes, smart government, economia compartilhada, etc. Mas eis que o Facebook foi a única que deslocou o seu campo de ação da regulação algorítmica dos fluxos logísticos à regulação direta daquilo que Zuckerberg chamou recentemente de ‘tecido social’, ou seja, modulação dos processos associativos e dos ‘valores coletivos’ que deles emergem. Em resumo, o “documento de Zuckerberg torna ainda mais claro como Silicon Valley está formulando aquilo que Foucault descreveria como uma nova “racionalidade política”, que assume a herança do liberalismo ao identificar o problema principal como o governo das ‘populações” (os milhares de usuários/receptores), a massificação da sua vida social, política e cultural e a proteção dos “riscos” e “erros” da circulação da informação (das notícias falsas, sensacionalismo, polarização, terrorismo, a mudança climática e as pandemias) no interior de uma economia de mercado global que nunca coloca em discussão as relações de propriedade ou a acumulação de valor econômico. Juntamente com o movimento da Silicon Valley para a smart city (duramente criticado por Evgeny Morozov, dentre outros) o capitalismo das plataformas intensifica a sua vocação de transformar-se no governo da sociedade. Quais formas de tecnopolítica podem responder a esta nova configuração?”, indaga Tiziana Terranova. Cibernética, ciberespaço, infosfera, Big Data. O que se pretende aqui é estabelecer critérios para realizar uma análise qualitativa da hiperinformação e da sobrecodificação. Redes e mídias sociais, processos de automação da informação e produção de opinião em rede, robotização da opinião e da distribuição de conteúdos,  filtragem algorítmica de informação; algoritmização das relações sociais, relação quantidade X qualidade da informação, jornalismo de dados, data visualização. O ser humano sempre lidou com codificações e decodificações. Os computadores nasceram durante a II Grande Guerra para construir bombas e para quebrar códigos dos países em conflito. E, posteriormente, os biólogos James Watson e Francis Crick revelaram a descoberta do “código” genético e a estrutura da molécula de DNA (1953), abrindo caminho para a bioinformática. Depois do surgimento da internet, instrumento por excelência da sociedade de controle, passou a ser vital preservar o que ainda não foi codificado, assim como passar conteúdos por baixo dos códigos e, segundo o alerta dos cypherpunks, embaralhar os códigos. No grupo de procedimentos que permitem o controle dos discursos, Foucault fala (na Ordem do Discurso) em conjurar os acasos, principalmente através da identidade, da autoria e das disciplinas. Parece particularmente importante olhar para o fenômeno Big Data como uma espécie de tentativa, ela também, de conjurar, tramar contra os acasos e as margens de indeterminação da vida e da história. Não é pouca coisa. Tomemos aquele verso do “Lance de Dados”, do poeta simbolista Stéphane Mallarmé, traduzido por Haroldo de Campos: “um lance de dados jamais abolirá o acaso”. Será?

2- Arte e tecnopolítica (uma nova fase do midiativismo) 

Segundo muitos pesquisadores, teóricos e ativistas, a tecnopolítica seria a utilização tática e estratégica dos instrumentos tecnológicos para a organização, comunicação e ação coletiva. Nesse sentido, haveria uma diferença em relação ao conceito de ciberativismo, na medida em que a tecnopolítica não se limitaria unicamente à esfera digital, mas volta-se a algumas práticas coletivas que podem emergir da internet e que transbordam para o núcleo duro da realidade social de modo mais efetivo e complexo.  Algumas dessas práticas coletivas envolvem a retomada dos espaços públicos em amplo espectro (pixo, tática black-bloc), música, teatro, performances, artes plásticas, literatura, saraus literários. Que outras práticas estão surgindo neste contexto? Como se configuram?

Charles Esche, curador da recente Bienal de São Paulo, ressaltou algo importante relativo aos desdobramentos do que se pretende discutir na interface das relações entre arte e política (ainda que a nossa preocupação não esteja vinculada ao sistema institucional de arte): “Um dos conceitos para o qual me parece que devemos olhar com atenção é o dos “commons”, um conjunto de valores ou de bens que não têm um proprietário individual, mas coletivo. O Estado manteve para si durante muito tempo a ideia de “commons”, agora parece-me que há oportunidade de generalizar a ideia de propriedade coletiva. E parece-me que as próprias instituições artísticas incorporam já em si o conceito de “common”.

3-DEBORDAGENS: por uma teoria do hype. 

A grande sacada de Debord —  neste ano comemora-se o cinquentenário da publicação de Sociedade do Espetáculo — foi ter percebido que a espetacularização da realidade é uma espécie de roubo daquilo que é construído socialmente e compartilhado, mas que se desloca para uma esfera intocável, quase intransponível, alcançável somente pelo valor de troca. Portanto sugere-se aqui uma discussão da LINGUAGEM, da CULTURA e do COMPORTAMENTO a partir do conceito de sociedade do espetáculo (e do hypecomo uma espécie de unidade mínima do espetáculo). A superação das relações fetichistas e a construção de uma comunicação liberada do seu jugo instrumental (dimensões inseparáveis de um projeto de retomada do comum). Nesse contexto, a relação entre profanação (Agamben) e crítica à sociedade do espetáculo passa a ser fundamental.

Os três eixos apontados acima se entrecruzam e interpenetram. Tangenciando esses três planos apontados temos vários pontos de intersecção, mas principalmente o seguinte: a necessidade de fugir ao poder e ao controle, passando conteúdos (linguagens) por baixo dos códigos (quantificação excessiva da realidade). Esta lógica aponta para um projeto político, ou ao menos para um tipo de desenho de sociabilidade que, no fundo, será o principal foco das nossas pesquisas.

Como nada mais restado a ser discutido, deram-se por encerrados os trabalhos, sendo a próxima reunião com data a ser estipulada para o dia 29 de maio, no mesmo local, na qual se lavra esta ata, que segue assinada pelo coordenador

Prof.Dr. Silvio Roberto Mieli

 

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