a construção de um conceito
O canal “IMEDIARTIVISMO” da AGÊNCIA IMEDIATA foi inaugurado com a transmissão ao vivo da palestra “Comunismo da Imanência”, proferida por Antonio Negri, em 16 de outubro de 2003, à s 19:00. A transmissão em áudio foi promovida pela Agência Imediata, pelo Centro de MÃdia Independente (Brasil) e Teatro da Universidade Católica de São Paulo. Foi o primeiro evento da história do TUCA que contou com uma transmisão ao vivo pela internet.
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Mediativismo, Midiativismo, ativismo midiático, mÃdia tática, mÃdia radical ou, para os mais saudosos, mÃdia alternativa.
Embora as atuais formas de mediativismo midiativismo guardem relações históricas com as primeiras modalidades de utilização dos meios de comunicação como instrumentos de contra-poder, contra-informação, enfim, de contra-hegemonia; e, apesar de terem aprendido muito com as chamadas mÃdias alternativas dos anos 60 e 70 — jornais, cartazes, panfletos, radios rádios livres, filmes super 8…), existem diferenças fundamentais entre a mÃda alternativa no século XX e o mÃdiativismo midiativismo no séc.XXI.
Franco Berardi (Bifo) lembra que nos encontramos diante de um poder imperial, que não se funda mais sobre o consenso. Contra este poder não é possÃvel utilizar a força, já que seria confrontar o coquetel molotov com a bomba atômica. Então, o que fazer? Ora, do ponto de vista da comunicação, só nos resta inventar outras narrativas, que ao invés de tentarem romper a potência do poder, operam trincando cotidianamente o tecido do poder.
E se o processo comunicativo está no centro da reprodução do domÃnio capitalÃstico, é aqui que o midiativismo atua como sabotagem contra os excessos consumistas, contra as formas aviltadas e aviltantes de trabalho e a favor de novas possibilidades de vida.
Ao falar de mediativismo midiativismo nos referimos a um processo amplo de utilização subversiva dos meios de comunicação, que com suas novas narrativas, desregulam as forças do poder e ajudam a retomar a dimensão do nosso corpo, da nossa mente e do nosso espÃrito, completamente colonizados pela lógica corporativa.
As recentes ações de midiativismo revelam uma atuação contra qualquer forma de poder. São operações radicalmente anti-capitalistas, anti-corporativas e anti-consumistas. Eis aqui a grande diferença dos movimentos das décadas de 60, 70 e 80 para as ações de mÃdia tática a partir do final dos anos 90. Estas últimas revelaram um conteúdo anti-corporativo que, por vários motivos, as outras não manifestavam.
As novas práticas midiativistas estão situadas num “quadripé”, que envolve os eixos da arte, da comunicação, da tecnologia e da polÃtica. As fronteiras entre estes domÃnios não são nÃtidas, mas um mapa já podde pode ser delineado.
Em relação à esfera polÃtica, se o slogan de maio de 68 era a imaginação no poder, o slogan dos midiativistas é ” a imaginação contra o poder”. Portanto não se trata de instrumentalizar os meios de comunicação para nenhum projeto polÃtico institucional, incluindo os de natureza polÃtico-partidária. Trata-se de pensar outros cenários, outras possibilidades, e, ao mesmo tempo, elaborar a crÃtica dessa maneira de pensar. O midiativismo investe em novas formas de cidadania e de vida em sociedade, que já trabalham com a crise do modelo institucional herdado das sociedades disciplinares.
Muitas das novas experiências polÃticas estão inspiradas na cultura anarquista, que enfatisou enfatizou as múltiplas realidades de opressão e sempre se preocupou mais com os movimentos sociais do que com as instituições e investiu prioritariamente nos modelos de auto-gestão. As experiências libertárias são retomadas inclusive porque a democracia, vaca sagrada do mundo moderno, está em crise. E a crise é profunda.
Além disso, emeregem questões novas, como o futuro do humano e a biotecnologia. Como mostrou recentemente Laymert Garcia dos Santos em seu último livro de ensaios chamado “Politizar as novas tecnologias”, diante da “biologização crescente da polÃtica, apontada por Foucault desde meados dos anos 70, devemos responder agora com a politização da biologia, da tecnociência e da tecnologia. Se a vida tornou-se uma questão polÃtica, a polÃtica tornou-se uma questão vital”.
O Midiativismo denuncia a Monsanto e outras empresas do mesmo calibre em duas frentes: por um lado monitora suas ações corporativas, mapeando-as e informando a sociedade do seu conteúdo, por outro lado denuncia a sua pobreza filosófica. Nas duas frentes joga um papel que a grande mÃdia se recusa a cumprir, qual seja o de argumentar que as empresas de biotecnologia representam a insegurança alimentar, e não o oposto, ao colocar em risco a biodiversidade ambiental.
Eis aqui alguns momentos recentes que podem ser tomados como marcos históricos da emergência e concretização do midiativismo:
>>>Levante zapatrista em Chiapas, que está comemorando dez anos.Foi a primeira reação à “Nova Ordem Mundial”. O EZLN é um marco da resistência à colonização da rede e, apesar das dificuldades cada vez maiores, apostou desde o inÃcio numa inversão do fluxo informacional na internet. Enquanto mantinham sua luta interna, os zapatistas agitavam o mundo com seus textos e comunicados. Eles não apenas pediam ajuda, também conclamavam cada pessoa, cada povo, cada ser humano a construir sua própria luta. Os desdobramentos da insurreição zapatista e, principalmente, a forma peculiar pela qual ela se utilizou da internet, inspiraram outros grupos e movimentos a partir de meados dos anos 90.
>>>Batalha de Seattle em 1999, quando o movimento anti-globalização impediu a realização da chamada rodada do milênio da OICOMC. As últimas manifestações de peso que os norte-americanos tinham presenciado eram aquelas que pediam o fim da guerra do Vietnã, na virada dos anos 60 para os 70. Ninguém poderia imaginar que forças aparentemente tão dÃspares pudessem se reunir em 1999 em Seatlle, uma cidade que até então era conhecida por ser a cidade natal de Jimmy Hendrix e por suas grandes bandas de rock e outros estilos musicais de jovens, como o grunge, e por ser sede de indústrias de alta tecnologia.
Ora, o que aconteceu entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro de 1999, durante a reunião da Organização Mundial de Comércio em Seattle, pode ser considerado a PRIMEIRA INSURREIÇÃO MIDIÃTICA DO SÉCULO. O “Império” modificado por dentro. Um marco da resistência à hegemonia da colonização da internet pelos mesmos valores do sistema capitalista. A articulação de uma rede inteligente de mÃdia independente e a criação de uma “barreira móvel” de resistência online e offline.
Uma excelente cronista deste movimento é a jornalista canadense Naomi Klein, autora do indispensável No NO LOGO. Em seu recente livro “Cercas e Janelas, na linha de frente do debate sobre globalização” ela lembra que a Batalha de Seattle “é o primeiro movimento nascido dos caminhos caóticos da Internet. Dentro de Suas suas fileiras não existe uma hierarquia vertical pronta para explicar o plano mestre, nem lÃderes universalmente reconhecidos fazendo discursos fáceis e ninguém sabe o que vai acontecer depois. Mas uma coisa é certa: os manifestantes em Seattle não são antiglobalização. Na verdade, se esse novo movimento é “anti” alguma coisa, é anticorporação” (KLEIN, 2002, p.30)
>>> Outro marco importante foi a Batalha de Gênova, em 2001, quando confrontaram-se os militantes anti-globalização e os exércitos do G-8, comandados pela polÃcia assassina do premiê italiano Berlusconi e
>>>As gigantescas manifestações contra a invasão ao Iraque em 15 de fevereiro de 2003
Mas é claro que este cenário está em constante metamorfose e já agora poderÃamos incluir as manifestações contra os atos de terrorismo na Espanha. Milhões de pessoas se articularam via telefone celular e pela internet. Ocuparam as ruas das médias e grandes cidades espanholas e reverteram de forma pacÃfica e com os poucos meios de que dispunham, ou seja, sem nenhum grande veÃculo de comunicação, a lógica mentirosa e manipuladora de Aznar.
Todos estes recentes movimentos, incluindo-se os três fóruns sociais mundiais, forjaram uma cultura que pressupõe uma nova utilização dos meios de comunicação. Para o mediativismomidiativismo, toda obra de arte contém germes de resistência e todo meio de comunicação deve ser reiventado, o que significa dizer que seu fluxo de informação tem que ser subvertido.
>>Do ponto de vista da tecnologia emerge uma nova relação homem/técnica, que aposta na ampliação da percepção da realidade e na tentativa da cultura incorporar a tecnologia como mais um nÃvel de realidade a ser vivido em relação aos outros. Estas novas formas de subjetividade reconhecem que a realidade é complexa e que é da relação entre o natural e o artificial , entre o humano e o maquÃnico, que pode despontar algo novo. Incluiria aqui a luta pelo uso adequado das tecnologias que podem causar impacto ambiental, assim como a campanha pelo software livre e a livre troca de arquivos digitais, como o MP3, dentre outras experiências. As ações de mediativismo midiativismo resistem ao discurso fácil que tenta justificar a colonização da internet pelos mesmos valores do capitalismo atual, transformando o espaço virtual num mercadão de impressões digitais. A pesquisa do virtual como um lugar de ação compartilhada e de troca livre de experiências assentadas numa linguagem ousada e criativa definem o olhar mediativista midiativista em relação ao potencial da internet.
>>Da esfera da arte essa nova tática de meÃdia retira a capacidade de resistir à sociedade imperial de controle, inspirada nas vanguardas do inÃcio do século passado (como o dadaÃsmo e o surrealismo), mas potencializadas pelo diálogo com as linguagens das tecnologias digitais. Um exemplo concreto são as práticas conhecidas como CULTURE JAMMING, ou interferências culturais, que interferem em outdoors, subvertem mensagem mensagens publicitárias, utilizam recursos da anti-publicidade para boicotar e denunciar grandes corporações como NIKE, SHELL, McDonald‘’s; criam campanhas pontuais contra o consumo e contra a televisão, como veremos adiante.
>>>Em relação à comunicação, o mediativismo midiativismo investe num processo de aproximação com o outro, principalmente em relação aos movimentos sociais. E aqui novas redes de comunicação afetiva são tecidas, auxiliadas pelo caráter não hierárquico e descentralizador da internet.
Para informar, divulgar, debater e disponibilizar rapidamente o conteúdo audiovisual captado no calor da batalha de Seattle, em 1999, surgiu o primeiro coletivo de mÃdia independente, conhecido como Independent Media Center (Centro de Midia Independente), ou Indymedia. Ele foi criado originalmente em Seattle como uma forma alternativa de cobrir os eventos que levaram ao malogro do “Encontro do Milênio” da OMC. A idéia era ter um site na internet que recebesse e armazenasse vÃdeos, fotos, sons e textos, que poderiam ser publicados e reproduzidos sem copyright por qualquer pessoa ou qualquer grupo de mÃdia independente sem fins comerciais. O slogan do Centro de MÃdia Independente já diz tudo: SEJA A MÃDIA! , que quer dizer: “Torne-se a mÃdia, tome posse do que foi usurpado.”
Desde Seattle, os Centros de MÃdia Independente inspiraram o nascimento de vários coletivos e várias agências alternativas de informação, que já constituem uma rede de informação qualificada, que se articula rapidamente, como ficou comprovado nas recentes manifestações contra a invasão imperial no Iraque.
Esta rede de informação alternativa , que não se deixa influenciar pelas grandes redes de televisão e que resistem ao fenômeno de espetacularização da realidade, estão pautando cada vez mais a chamada grande imprensa, que perdeu completamente o vÃnculo com os movimentos sociais, via de regra desqualificados, criminalizados e demonizados pelos noticiários da mÃdia corporativa.

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