Super-rodovias: linhas da palma da mão ou tatuagens da ditadura na terra?

 

 


Vandana Shiva

zmag.org

19 de fevereiro de 2004

Tradução Imediata

 

As super-rodovias se tornaram a identidade distorcida da Índia contemporČnea e se situam no coraćčo do imaginário da "Índia Radiante" ("India Shining").

O Primeiro Ministro Vajpayee foi citado por dizer o seguinte:

As auto-estradas são como as linhas da palma da mão. Há uma linha do destino que ligará Srinagar a Kanyakumani. Não vemos a hora que chegue o dia em que poderemos sair de Kanyakumani e chegar a Srinagar facilmente.

A redefinição da Índia pressupõe um esquecimento de Bharat, a Índia autêntica [N.T.: o nome oficial da Índia é Bharat Garanajiyá]. Escrever o nosso destino no cimento é apagar o destino de nosso solo, nossa terra e nossa ecologia. Na Índia, temos considerado nossas montanhas e rios como as "linhas da palma de nossa mão". São uma parte intrínseca da ecologia e da geografia de nossa terra mãe: são nossos doadores e nossos receptores.

As rodovias não são as linhas da palma da mão, mas são mais como tatuagens, marcas negras impostas na paisagem por decisões externas, um desenho que centraliza e exclui, um projeto que foi utilizado, em outra época, por Hitler, para controlar o destino dos alemães. A violência desse desenho, imposto a partir do exterior, fica simbolizada no assassinato de um engenheiro, Dubey, que tentou tornar pública a corrupção nos contratos de contrução de rodovias, promovidas em nossa época pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional. Nós somos intimamente ligados à nossa terra, nossos rios e nossas montanhas. Foi a Terra que moldou nosso destino. E através dessa união nós também nos conectamos, como civilização, desde a Cachemira até Kanyakumari.

As fontes dos afluentes do Ganges são os "Char Dhams" [N.T.: Char Dam é uma expressão que inclui os quatro templos mais venerados da Índia]. A população cruza o país em peregrinação até o Himalaia, onde se encontram Yamunotri, Gangotri, Kedarnath e Badrinath. Ninguém nunca precisou de auto-estradas para que as pessoas do Sul pudessem fazer essa peregrinação; eram suficientes os laços sagrados com nossas montanhas e nossos rios. E, de fato, a peregrinação adquiria seu valor justamente pelo fato de que as pessoas a empreendiam a pé. A Índia valorizava a "Padyatra" (a marcha a pé). A marcha de Gandhi foi uma Padyatra. O movimento Chipko [N.T.: movimento de resistência contra a destruição das florestas da Índia, como fonte de recursos vitais, nos anos 70 e 80] se difundiu a partir das montanhas do Himalaia por meio de Padyatras. Ainda hoje em dia, milhares de pessoas caminham com o objetivo de levar para casa "Gangajal" [N.T.:a água sagrada do Ganges], para a festa de Shivrathri [N.T.: a grande noite de Shiva], como "Kavadias". A maioria das mulheres das zonas rurais da índia vão a pé pegar folhagem, lenha e água. Essas caminhadas serão mais longas, à medida em que mais e mais árvores serão cortadas e menos e menos água poderá ser encontrada em nossos poços e riachos, já que o cimento e o piche das rodovias cobrirão nossos solos e impedirão sua regeneração.

A substituição, em nossa imaginação, de nossos grandes rios sagrados por rodovias, e nossa união com a terra sagrada, com suas montanhas e florestas, pela conexão através das rodovias, do cimento e do piche, vai mudar a ecologia da Índia, sua cultura, sua história e sua singularidade, para adotar um modelo ocidental de desenvolvimento obsoleto, fora de moda e insustentável pelo seu alto custo social e ambiental.

 

Tagore nos fez lembrar que a Índia é diferente porque é uma "Aranya Sanskriti", iso é, inspira-se nas florestas e nos seres vivos, enquanto que as características culturais do ocidente são derivadas de tijolos e argamassa mortos.

Foi Gandhi que afirmou:

"A civilização moderna procura aumentar os confortos do corpo, contudo, fracassa miseravelmente nisso… frente a uma civilização dessas, o que devemos é ser pacientes, porque ela inevitavelmente se autodestruirá… apesar de não haver limite para as vítimas que serão imoladas em seu altar. Seus efeitos letais levarão as pessoas a se atirarem em suas abrasadoras chamas, acreditando que tudo isso é muito bom.

A Índia é acusada de que seu povo é incivilizado, ignorante e estúpido, o que significa uma acusação contra aquilo que constitui a nossa fortaleza. O que nós comprovamos e achamos certo não nos devemos atrever a mudar. Há muita gente que dá conselhos à Índia, mas ela permanece inalterável. É nisso que consiste sua beleza. Isso constitui a âncora de nossa esperança.

Nossa peculiaridade civilizadora de deixar uma pequena pegada ecológica no planeta está sendo apagada pelo afã de imitarmos o ocidente industrializado, usurpando o espaço ecológico dos outros seres, das comunidades rurais e tribais e dos pobres das cidades.

As super-rodovias e os automóveis são o símbolo cultural mais radical do desenvolvimento não sustentável e da exclusão ecológica.

Nossas estradas acolhiam as vacas, os cavalos, os camelos, os elefantes e os carros. A cidade de Déli anunciou que, no fim de 2004, suas estradas estarão "proibidas para as vacas". Antes disso, foram proibidos os "rickshaw" [N.T.: arrinhos tipicamente orientais puxados por uma pessoa, como meio de transporte tradicional para passageiros].

A cultura do automóvel e das rodovias são o símbolo das culturas totalitárias, as quais negam às pessoas alternativas mais sustentáveis e equitativas de mobilidade e transporte.

Para ir de Kanyakumari à Cachemira, a Índia dispões da maior rede ferroviária mundial. Apesar disso, a propaganda dos projetos rodoviários faz crer que a ausência de rodovias implica que o povo da Índia não tem possibilidade de locomoção. Nossos dirigentes estão cegos frente à experiência do ocidente, onde foram abandonados modos de transporte mais sustentáveis e convenientes para as pessoas, optando-se pelo transporte rodoviário. Na Alemanha, o transporte rodoviário é responsável por 91% da poluição atmosférica, 64% da poluição acústica, 91% do desaparecimento de terras cultiváveis, 56% das despesas de construção e manutenção e 98% dos acidentes.

 

O transporte rodoviário é 8 vezes mais poluente, 10 vezes mais destruidor de terras e tem uma propensão para causar acidentes 20 vezes maior que o ferroviário. O transporte rodoviário causa 17% da contaminação por CO2, responsável pela instabilidade climática. Não obstante estarem cientes desses inconvenientes, os governantes da Índia vão escolher a mais obsoleta e custosa forma de transporte como símbolo da "Índia Radiante".

A rodovia ("sadak") formou parte do lema eleitoral do BJP [N.T.: Bharatiya Janata Party, partido do Primer Ministro] para as eleições legislativas. Levando-se em conta o número de anúncios publicitários na campanha para as eleições gerais, o povo da Índia pode ter certeza de que as rodovias e os automóveis serão apresentados como os símbolos de uma nova e feliz Índia. A rodovia tornou-se o Bharat Jodo Pariyojna (projeto de rodovias do Primeiro Ministro (PMBJP). As agências de publicidade conseguiram que a palavra rodovia seja equivalente a BJP, na cabeça das pessoas.

Porém, é preciso aceitarmos as lições que nos dá a história e que as outras sociedades nos oferecem. Temos um século de experiências sobre a violência social e ecológica provocadas pelo automóvel, o que nos dá condição de escapar de sua escravidão. E dispomos das lições da Alemanha nazista, onde as rodovias foram desenhadas como forma de controle centralizado, de fascismo e de autoritarismo, e nunca como exemplo de liberdade humana e democracia.

Como Wolfgang Sachs mostra em sua agora clássica obra "For the Love of the Automobile" (Pelo Amor do Automóvel):

"As ditaduras não se mantêm somente pela força, como também pelo apelo emocional. A ilusão do homem médio constitui tanto uma parte da imagem da época quanto do início da Gestapo. A história desse entusiasmo durante o fascismo alemão, contudo, está ainda por ser escrito. Mesmo assim, quem quiser escutar escondido a conversa do bar da esquina e descobrir o consentimento dos de baixo com relação à opressão daqueles que mandam, terá que fazer lugar para um capítulo sobre a política de motorização dos nacionalsocialistas."

O populismo do Primeiro Ministro Vajpayees com o projeto de suas "adoradas" rodovias apresenta paralelos com as imagens do populismo de Adolf Hitler e a rodovia hanseática Frankfurt-Basel de 23 de setembro de 1923. A lei automobilística do Reich, que tornou possível o desenvolvimento das rodovias, retirou a competência dos estados federados e a concentrou no poder central.

As rodovias exclusivas para carros acabaram com o pluralismo e a democracia do transporte. Um documento daquela época indica o campo como o principal obstáculo para o automóvel, porque:

"espera-se compartilhar as ruas com carroças puxadas a cavalo, ciclistas e pedestres… o conceito moderno de tráfico está concentrado na introdução de uma rede de rodovias especiais a serviço dos viajantes de longas distâncias e para uso pelos automóveis mais rápidos (para as quais são construídas)…" (Wolfang Sachs, p.49).

O monocultivo da mente, que destruíu a biodiversidade em granjas e florestas, e que alimentou os ódios entre as comunidades, está se estendendo agora para a paisagem e os caminhos da Índia. O proprietário de automóvel e o viajante de longas distâncias é um cidadão privilegiado. O carro de bois, a bicicleta e o caminhante serão postos de lado pelo automóvel, que até agora era somente uma entre as várias formas de transporte. A composição diversa e pluralista da Índia está sendo remodelada de uma forma muito simples, através do projeto rodoviário do primeiro ministro. Hitler também deu impulso às "rodovias nacionais", com o objetivo de criar uma Volksgemeinschaft (uma sociedade nacional) unida como "um só povo, um só Reich, um só Führer", porém isso implicava erradicar a diversidade, a autonomia e a descentralização. Os nazistas alemães se serviram das rodovias para "moldar o povo alemão de forma unitária". Os atuais governantes da Índia também estão utilizando as rodovias como meio e metáfora para converter a Índia em um monolito.

Segundo dados oficiais de 2004, da Índia:

"Entre 1947 e 1997 (em 50 anos): foram construídos somente 556 km de rodovias nacionais para 4/6 pistas de carros, ou seja, 11,12 km por ano.

A partir de 1997: com o PMBJP, estão sendo construídos 24.000 km de rodovias nacionais para pistas de 4/6 caros, o que significa 11 km diários, empregando 5.000 pessoas diariamente."

A propaganda dos nazis se serviu das mesmas medidas de alcance de objetivo. A construção de rodovias foi o maior projeto de obras públicas, com 6.000 km previstos, e cerca de um milhão de empregos criados em conseqüência das políticas de motorização. A propaganda da "Índia Radiante de Piche" encontra paralelos com a euforia do Reich alemão. Os nacionalsocialistas apresentaram a construção de rodovias em sua dupla condição de êxito técnivo e de feito cultural. Como declarou Fritz Todt, inspetor geral das rodovias alemãs, depois da construção das primeiras mil milhas:

"Uma vez mais resulta motivo de orgulho ser um construtor de rodovias. O Reich alemão está levando às rodovias um nível de beleza e extensão como nunca tinha sido alcançado na história da civilização humana…"

Pois bem, o Governo da Índia está tentando superar o Reich alemão.

A Índia do século XXI tem que ser construída sobre o legado de Gandhi, não sobre aquele de Hitler. Ela precisa evitar a repetição dos erros ecológicos e sociais dos países industrializados do ocidente. A Índia ofereceu alternativas civilizadoras que se baseiam na sustentabilidade e no pluralismo. Gandhi escreveu:

"Deus queira que a Índia não adote nunca o modelo de industrialização ocidental. O imperialismo econômico de um único ínfimo reino insular (Inglaterra) mantém hoje o mundo aprisionado. Se uma nação de 300 milhões de habitantes adotasse o mesmo tipo de exploração econômica, deixaria o mundo como se tivesse sido arrasado por uma praga de gafanhotos."

Hoje somos milhões e milhões de pessoas e nos pedem para adotar a forma de vida e o sistema econômico de 20% da humanidade, a qual dispõe de 80% dos recursos do mundo. Se 200 milhões de cidadãos ricos da Índia quiserem viver segundo o estilo dos seus homólogos ocidentais, 800 milhões de seus irmãos e irmãs estarão privados de seus recursos hídricos, de suas terras, de suas casas e de seu sustento. O projeto de rodovias não vai unir a Índia, vai dividi-la. Vai criar um apartheid automobilístico, no qual os ricos vão guiar em alta velocidade por rodovias que atravessam povoados e florestas, que obrigam a demolir casas, destruir plantações e arrancar árvores, que despojam do seu sustento e forma de vida a seus irmãos e irmãs. As rodovias são cemitérios de cimento e piche que enterram nossos solos, nossas aldeias e nossas liberdades.

Biodiversidade Ambiental

biodiv<info@imediata.com>