indigência
8 de abril de 2003. Vigésimo dia da invasão do Iraque.
Pela manhã as fontes de informação alternam a cobertura de dois conflitos urbanos aparentemente opostos. Era o segundo dia de greve geral de transportes coletivos em São Paulo. Paralisação total das linhas locais e depredações de carros inter-municipais. Corta para Bagdá.
Através do relato do jornalista britânico Robert Fisk, correspondente do jornal Independent, ficamos sabendo que na capital do Iraque os ônibus de dois andares da empresa municipal continuavam operando e, mesmo que as lojas estivessem fechadas, as barracas de comidas e os camelôs trabalhavam normalmente. Das margens do Tigre para o Ibirapuera. Corta para São Paulo.
Um repórter de rádio entra ao vivo para informar que foi achado um corpo no Parque do Ibirapuera. O matador acertou cinco tiros calibre 7,65 milímetros na cabeça e nas costas de um empresário de 47 anos. Corta para boletim da guerra.
Forças invasoras acabavam de atacar o Hotel Palestine, local que abriga os correspondentes internacionais em Bagdá. Um cinegrafista da agência Reuters e outro da TV espanhola Telecinco morreram. Corta para boletim da greve de ônibus em São Paulo. A greve continua — a capital paulistana é uma das únicas do mundo a privatizarem seu sistema de transporte coletivo. O trânsito está complicado. É preciso correr para a PUC. Corta. PUC.
A mãe de uma aluna esperava com a filha para ser atendida. Não havia uma única sala decente para recebê-las. Pensei na lanchonete, ou nos bancos ao lado da entrada da Reitoria, no Prédio Velho. Uma pena a padaria da Cardoso de Almeida com João Ramalho ter fechado! Opto pela sala dos professores e as acomodo naquele velho sofá de dois lugares, cujo estofado de plástico imitando couro parece ter sofrido ataque de armas químicas. Corta para a sala de aula.
Chego em cima da hora e percebo que a greve impediu a presença de 40% da turma. O tema da aula era a subordinação da figura humana à técnica; o tempo das imagens e a inflação de imagens. Tentamos em vão fazer a ligação entre a saída de áudio do VCR e o monitor. Corro em direção à secretaria para procurar a chave de alguma outra sala “superequipada” (TV e vídeo). Encontro a chave da 45. Desloco a turma para a outra sala — pelo menos nesta restaram algumas tiras de persianas para escurecer o ambiente. Abro o armário e — espanto geral ! —, a conexão entre o vídeo e a fonte não funciona.
Dois alunos, que pagam mensalidades equivalentes a três e meio salários-mínimos, tentam ligar o aparelho à tomada. Passados alguns minutos o vídeo desanda, sem controle, e começa a funcionar num trecho adiantado do documentário: “O que é uma ética das imagens senão dar tempo e lugar para as coisas? Aquilo que elas precisam para ser. Imagens que procurem respeitar o tempo e o espaço para que as coisas se cristalizem dentro dos nossos olhos”, argumenta o Prof.Nelson Brissac Peixoto na entrevista.
A fita com o episódio da série Ética ficou presa no aparelho. Um aluno prestativo se dispõe a levar o VCR até a sala 134 do Prédio Novo para tentar salvar a fita. A cena me fez lembrar do falecido aluno Edson, que em 1996 me ajudava a transportar para o carro um monitor acoplado a um vídeo, utilizados para as aulas de ASAV, (Análise dos Sistemas Audiovisuais), já que a Universidade simplesmente não dispunha de tão sofisticado equipamento.
O Prédio Novo acomoda uma sala de audiovisual, que serve a todo o campus. Distante da Faculdade de Comunicação e Filosofia, pode ser usada fortuitamente pelos professores que uma vez por semestre pretendem mostrar algum filme, mas para um curso de Análise dos Sistema Audiovisuais demonstrou-se contraproducente do ponto de vista didático-pedagógico, isso quando se consegue agendar a sala. A outra opção seria a Sala Banespa, patrocinada pelo Banco, mas é incapaz de acomodar mais de 50 pessoas por turma.
Para os alunos que superaram todos os obstáculos da greve e conseguiram chegar à PUC foi frustrante perder cerca de 50 minutos de aula por causa da ausência de infra-estrutura básica para uma atividade acadêmica.
Encerrada a sessão, pego as duas malas que carrego (não há nem sequer armários para guardar pertences dos professores) e sou obrigado a trancar a sala de aula (para evitar “depredações”!). Desço pela rampa que só permite uma mão de fluxo (incapaz de dar acesso a uma cadeira de rodas), passo pela guarita da segurança – entregue, ela também, a uma empresa privada — e, tomado por um misto de vergonha e revolta, repito para mim mesmo uma pergunta do vídeo da série Ética. Poderiam as imagens salvar as coisas da sua miséria?





