>> Amores Insólitos 56: amar a memória – Carta ao meu querido netinho, por Umberto Eco

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Carta ao meu querido netinho

Por: Umberto Eco
Fonte: L’espresso de 03/01/2014
Tradução: Mario S. Mieli

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Não gostaria de que esta carta natalícia soasse demais à la De Amicis1 e que exibisse conselhos sobre o amor pelos nossos similares, pela pátria, pelo mundo e coisas desse tipo. Você não os ouviria e, na hora de colocá-los em prática (você adulto e eu trespassado), o sistema de valores terá mudando tanto que, provavelmente, as minhas recomendações resultariam datadas.

Assim, gostaria de me deter em uma única recomendação, que você poderá por em prática até agorinha mesmo, enquanto navega com o seu iPad; nem comentarei o erro de desaconselhar você de usá-lo, não tanto porque eu poderia parecer um avô lelé da cuca, como porque eu também faço isso. Quando muito posso aconselhar, caso você caia numa das centenas de sites pornô que mostram a relação entre dois seres humanos, ou entre um ser humano e um animal, de mil maneiras, para que procure não acreditar que o sexo seja aquilo, entre outras coisas, bastante monótono, porque se trata de uma encenação para forçá-lo a não sair de casa e olhar para as garotas de verdade. Parto do princípio que você seja heterossexual, se não for assim, adapte minhas recomendações ao seu caso específico: mas olhe as garotas, na escola ou onde você vai brincar, porque são bem melhor as verdadeiras do que aquelas da televisão, e um dia lhe trarão maiores satisfações do que aquelas online. Acredite em quem tem mais experiência que você (que se tivesse assistido só ao sexo no computador, seu pai não teria nascido nunca, e você, quem sabe onde você estaria, aliás, você não estaria).

Todavia não é disso que eu queria falar, mas de uma doença que atingiu a sua geração e até a geração dos rapazes mais velhos que você, que talvez já frequentem a universidade: a perda da memória.
É verdade que se lhe ocorrer o desejo de saber quem tenha sido Carlos Magno ou onde se encontre Kuala Lumpur, é suficiente pressionar uma tecla para que a Internet lhe revele rapidinho o que estiver procurando. Faça isso quando for o caso, mas depois de ter feito isso, procure lembrar o que lhe foi dito para não ser obrigado a procurar uma segunda vez, caso tenha uma necessidade urgente de saber, talvez devido a uma pesquisa escolar. O risco é que, como você pensa que o seu computador poderá lhe revelar o dado a qualquer instante, você acabe perdendo o gosto de manter a informação na cabeça. Seria um pouco como se, tendo aprendido que para ir da Rua Tal à Rua Tal de Tal, há o ônibus ou o metrô que lhe permitem se deslocar sem canseira (o que é muito cômodo, e não hesite em fazê-lo, caso tenha pressa), você pense que, desse modo, não precisa mais andar. Mas se você não andar o suficiente, você se torna, depois, “diferentemente habilitado”, como se diz hoje em dia, para indicar quem é forçado a se deslocar em cadeira de rodas. Tudo bem, sei que você faz esportes e que, portanto, sabe mexer o corpo, mas voltemos ao cérebro.

A memória é um músculo igual àquele das pernas, se você não o exercitar ele murcha e você se torna (do ponto de vista mental) diferentemente hábil, ou seja, (falemos claro), um idiota. Além disso, como para todos existe o risco de, ao envelhecer, contrair o Alzheimer, um dos modos de se evitar esse desagradável incidente é o de exercitar sempre a memória.

Eis aqui a minha dieta. A cada manhã, aprenda um qualquer verso, ou uma breve poesia… […]. Ou talvez aposte com os amigos para ver quem consegue se lembrar melhor. Se não gostar de poesia, faça-o com as formações dos times de futebol, mas cuidado! não é preciso saber apenas quem são os jogadores do Roma de hoje, mas também aqueles de outros times e, talvez, os do passado também (eu, por exemplo, me lembro da formação do time do Torino quando o avião no qual os jogadores viajavam se estatelou em Superga com todos os jogadores a bordo: Bacigalupo, Ballarin, Maroso, etcetera). Faça competições de memória, talvez sobre livros que leu (quem estava a bordo do Hispaniola em busca da ilha do tesouro? Lord Trelawney, o capitão Smollet, o doutor Livesey, Long John Silver, Jim…) Veja se os seus amigos se lembrarão de quem eram os domésticos dos três mosqueteiros e de D’Artagnan (Grimaud, Bazin, Mousqueton e Planchet)… E se não quiser ler “Os três mosqueteiros” (e nesse caso você nem imagina o que terá perdido), exercite-se, sei lá, com uma das histórias que leu.

Parece um jogo (e é um jogo), mas você verá como sua cabeça se povoará de personagens, de histórias, de lembranças de todos os tipos. Você se terá perguntado por que os computadores se chamavam, em certa época, de cérebros eletrônicos: é porque foram concebidos com base no modelo do seu (do nosso) cérebro, mas o nosso cérebro tem mais conexões do que um computador, é uma espécie de computador que você carrega dentro de si, e que cresce e se fortalece com o exercício, ao passo que o computador que você tem sobre a mesa, quanto mais você o utiliza, tanto mais ele perde velocidade, e depois de poucos anos você precisará trocá-lo. Em vez disso, hoje o seu cérebro pode durar até noventa anos e aos noventa anos (se você o tiver exercitado) lembrará de mais coisas do que você se lembra agora. E grátis.

Há também a memória histórica, aquela que não diz respeito aos fatos da sua vida ou às coisas que você leu, mas àquilo que aconteceu antes de você ter nascido.

Hoje, quando você vai ao cinema, precisa entrar num horário determinado, quando o filme começa, e assim que começa, alguém lhe pega a mão – é um modo de dizer – e lhe conta o que está acontecendo. Na minha época, podia-se entrar no cinema em qualquer momento, mesmo que o filme já estivesse pela metade, chegava-se enquanto estavam acontecendo algumas coisas e procurava-se entender o que tinha acontecido antes (depois, quando o filme recomeçava na sessão seguinte, podíamos ver se tínhamos entendido tudo – e se tivéssemos gostado do filme, podíamos ficar e rever também a parte que já tínhamos visto). É isso aí, a vida é como um filme da minha época. Nós entramos na vida quando muitas coisas já aconteceram, há centenas de milhares de anos, e é importante aprender o que aconteceu antes de termos nascido; serve para entender melhor porque hoje acontecem muitas coisas novas.

Hoje a escola (além de suas leituras pessoais) deveria ensinar a memorizar aquilo que aconteceu antes de você ter nascido, mas podemos ver que ela não cumpre direito esse papel, porque várias pesquisas nos revelam que os rapazes de hoje, mesmo aqueles que já frequentam a Universidade, se nasceram, por acaso, em 1990, não sabem (e talvez não queiram saber) o que aconteceu em 1980 (e não vamos nem falar do que aconteceu há cinquenta anos). As estatísticas nos dizem que se perguntarmos aos alunos quem foi Aldo Moro, respondem que era o chefe das Brigadas Vermelhas – ao passo que ele foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas.

Não falamos das Brigadas Vermelhas, elas permanecem algo misterioso para muitos, embora tenham sido o presente há pouco mais de trinta anos. Eu nasci em 1932, dez anos depois da chegada do fascismo ao poder, mas sabia até quem era o primeiro ministro nos tempos da Marcha sobre Roma (o que é isso, mesmo?). Talvez a escola fascista tinha me explicado isso com o objetivo de me mostrar como era estúpido e malvado aquele ministro (o “imbelle Facta”) que os fascistas tinham substituído. Tudo bem, mas pelo menos eu fiquei sabendo disso. E depois, escola à parte, um rapaz de hoje não sabe quem eram as atrizes do cinema de vinte anos atrás, ao passo que eu sabia quem era Francesca Bertini, que atuava nos filmes do cinema mudo vinte anos antes do meu nascimento. Talvez porque eu folheasse velhas revistas juntadas no porão de nossa casa, mas por isso mesmo, quero convidá-lo a que folheie velhas revistas porque é uma maneira de aprender o que acontecia antes de você ter nascido.

Mas por que é assim tão importante saber o que aconteceu antes? Porque, muitas vezes, o que aconteceu antes ajuda a explicar certas coisas que acontecem hoje e, de todo jeito, como para as formações dos jogadores de futebol, é um modo de enriquecer a nossa memória.

Veja bem que isso não precisa ser feito só através de livros e revistas, mas também pela Internet. Que deve ser usada não só para bate-papo com os seus amigos, mas também para papear (é só um modo de dizer) com a história do mundo. Quem eram os hititas? E os “camisards”? E como se chamavam as três caravelas de Colombo? Quando desapareceram os dinossauros? A arca de Noé podia ter um timão? Como se chamava o antepassado do boi? Existiam mais tigres há cem anos do que hoje em dia? O que era o Império do Mali? E quem falava, por sua vez, do Império do Mal? Quem foi o segundo papa da história? Quando apareceu o Mickey Mouse?

Poderia continuar ao infinito, e seriam todas belas aventuras de pesquisa. E tudo para ser lembrado. Virá o dia em que você ficará velho e se sentirá como se tivesse vivido mil vidas, porque será como se você tivesse estado presente na batalha de Waterloo, tivesse assistido ao assassinato de Júlio César e estivesse a pouca distância do lugar em que Berthold der Schwartzer (Bertoldo, o Negro), misturando substâncias em um pilão para achar a maneira de fabricar o ouro, descobriu por acaso a pólvora, que o fez explodir no ar (e bem feito para ele). Outros amigos seus que, ao contrário, não terão cultivado a memória, terão vivido apenas uma vida, a deles, que deverá ter sido bastante melancólica e pobre de grandes emoções.

Cultive a memória, portanto, e a partir de amanhã, procure decorar, nem que seja “Batatinha quando nasce”…2

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Notas do tradutor:
1. Umbero Eco se refere aqui ao escritor Edmondo de Amicis e seu famoso romance “Cuore” (Coração), publicado pela primeira vez em 1886 e leitura obrigatória de todas as crianças italianas desde então. O livro visava ensinar as virtudes civis aos jovens de uma Itália recém unificada: o amor pela pátria, o respeito pelas autoridades e pelos pais, o espírito de sacrifício, o heroísmo, a caridade, a piedade, a obediência, etc..
2. No texto original, Eco se refere à “La Vispa Teresa”, famosa poesia italiana do século XIX para crianças, também conhecida como “A borboletinha”.

 

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