>> O GRITO DE DARIO FO, Genova, 1/12/2013

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O Grito de Dario Fo, Gênova, 1/12/2013

Transcrição traduzida do discurso: Mario S. Mieli

Estou muito feliz de estar aqui…

Eu gostaria de desenvolver frente a vocês, nesta noite, por extenso, um discurso sobre a cultura e o seu valor numa sociedade civil, coisa a que já no começo, acenou o Beppe [Grillo]. Espero conseguir, apesar desse vento todo…

Os grandes especialistas mundiais em economia, desde o começo da crise internacional que estamos vivendo, denunciaram com grande vigor que a enorme catástrofe que nos derrubou de joelhos é resultado de uma verdadeira fraude combinada através da utilização dos chamados derivados e dos títulos podres. Como demonstração dessa chacina vimos, alguns anos atrás, da América, um programa no qual se mostravam milhares de empregados com suas papéis enfiados em arquivos de papelão, que estavam sendo despedidos dos institutos de crédito que tinham falido.

A onda maléfica, depois, nos alcançou, apresentada em outros termos, mas com as mesmas práticas fraudulentas. Todos os nossos governantes, que se sucederam nos últimos anos, nos falaram com o coração “despedaçado pela dor e pelos sacrifícios” que todos, repito: TODOS os italianos deveriam, “equanimemente”, como dizia o Professor Monti, ricos e pobres, abastados ou vestidos com trapos, teriam que suportar, para podermos nos salvar do abismo no qual estava caindo toda a nação.

E foi aí que aconteceu a maior, repito: a MAIOR fraude financeira, a mais implacável, que podia ter acontecido. Quem é que pagou e continua pagando essa dívida, tirando do próprio bolso até o último dinheiro? Só os operários, os pequenos poupadores, os empregados, as mulheres, os jovens, os aposentados. Roubar os deserdados para salvar quem? Quem? A nação?

NÃO!!! OS BANCOS. E AS MULTINACIONAIS. OS ESPECULADORES, OS ESPERTINHOS FICARAM ILESOS.

E até tiraram vantagem, multiplicando seu capital escondido aqui e ali, em todos os paraísos fiscais. Agora está claro. O PARAÍSO É SÓ PARA OS PODEROSOS E OS RUFIÕES. Daqui uns dias isso vai ser dito até pelo nosso bem amado Papa Francisco. E nós, maravilhados com toda essa falta de vergonha do poder econômico, fazemos o quê?

Ficamos com a boca escancarada, emitindo, de vez em quando algum gemido clássico dos fodidos desde sempre?

NÃO! POR DEUS!!!

Sem contar que as coisas nem sempre foram assim. Houve um tempo em que frente às opressões e as roubalheiras, reagíamos, e como! Começando pela época, antiga, na qual foram fundados os municípios [“comune” em italiano], há cerca de mil anos atrás. Naquela época, ser um político não era profissão para os astuciosos. MAS UM DIREITO E UM DEVER PARA CADA UM. Os responsáveis das repúblicas livres, na Itália, davam muita importância ao conhecimento e, portanto, às bibliotecas, às universidades e às academias.

As subvenções para sustentar a cultura eram outorgadas em abundância, até mesmo mais tarde, na época das senhorias, com os príncipes, os duques. A vital necessidade da arte e do saber tinha entrado tão profundamente no espírito de cada um, que ninguém podia fazer a menos. Assim que hoje, a Itália, graças àquele antigo amor pela beleza e pelo saber, preserva um enorme patrimônio cultural. Desfrutamos de uma enorme quantidade de obras-primas, monumentos, bibliotecas que, porém, temos dificuldades em manter ativas e podermos gerenciá-las. Pelo contrário, os abandonamos, deixamos ir tudo pro espaço. Cada dia cai alguma coisa. Mas como é que os nossos dirigentes, exceto ultimamente, o nosso caimão preferido, nunca caem? São despejados, sim, mas com bônus de marajás.

Vou com frequência ao exterior para montar espetáculos e peças e encontro muitos jovens italianos obrigados a emigrar para universidades de outros países para poderem aumentar os próprios conhecimentos. Esses jovens precisam aguentar grandes sacrifícios, aprender uma nova língua, aceitar trabalhos pesados e mal remunerados, como a limpeza noturna de escritórios, ou aceitarem trabalhos como garçons e carregadores. Tudo para conseguir pagar os próprios estudos. Além de tudo, uma vez terminado o percurso de sua formação, encontram facilmente trabalho em empresas estrangeiras, de forma que não lhes convém voltar para a Itália.

Assim, como se não bastasse, perdemos um número incrível de talentos, que teriam significado um bem inestimável para o nosso país e para a nossa economia. Mas como é que chegamos a esse nível?

É simples. Os responsáveis culturais dos vários governos que se sucederam no comando da Itália, acharam cada vez menos importante investir em cultura e em arte. De fato, quando um governo nomeia um ministro da cultura, quem escolhem? Sempre pessoas incapazes.

E, sobretudo, pessoas inúteis, que ninguém sabe onde colocá-las. Onde colocamos esse imbecil do Calvo? Na cultura, naturalmente, assim nos livramos dele.

Um de nossos ministros da Economia, um certo Tremonti, que com prosopopeia declarou: com a cultura não se come. UMA IMBECILIDADE, PARA DIZER POUCO, GALÁCTICA.

Ao contrário, justamente nessas últimas semanas o governo francês, repito: o governo francês declarou que o âmbito em que a economia se encontra em maior vantagem, naquela nação, não é mais a indústria automobilística, já que ela foi suplantada de muito pela gestão dos bens culturais. Isso acontece quando uma nação é consciente do extraordinário potencial que se encontra no saber.

E nós? Como podemos ser tão desinformados e ineptos? De onde vem esse colapso? Nesses últimos anos assistimos a, e participamos de um número enorme de eleições regionais, municipais, provinciais. E em nenhuma dessas campanhas tivemos a chance de encontrar um só político profissional que tratasse com seriedade a questão da informação, do saber e da escola. NUNCA!

Como dizem hoje todos os oradores que tratam de política, FALA-SE EXCLUSIVAMENTE PARA A BARRIGA DOS ELEITORES. A BARRIGA, NÃO AO CÉREBRO. O pensamento é um opcional que conta pouco. Além de tudo, indo ao exterior, percebemos que a nossa reputação em todos os países da Europa e da América, diminui substancialmente. Quando sabem que somos italianos, contam piadas irônicas sobre a nossa situação financeira e, sobretudo, política, sobre a nossa credibilidade moral, ridicularizam nossos governantes e falta pouco para que sejamos tratados de charlatães sem dignidade nem coragem civil. E nós, diante desse desprezo, não sabemos como lidar com isso. MAS O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?

É claro. Enterramos a nossa memória. E com ela, o tempo da dignidade, do orgulho. Os estrangeiros, antigamente, se poupavam de nos desprezar, já que vinham aqui para negócios e para visitar nossas cidades, elogiadas por todos pela arquitetura, pelo estilo inimitável, pelos jardins, pelo estado das águas, com os canais, pelos rios navegáveis por quilômetros e quilômetros. Grupos imensos de estudantes vinham estudar em nossas universidades de enorme prestígio, para aprender ciências, filosofia e arte. Éramos mestres em cada disciplina, como dizia Jacques Magnier(?) – lembrem-se disso – ele nos dedicou um texto titulado La Leçon des Italiens – esses italianos geniais éramos nós.

A chamada Mecânica tinha chegado, em nossos estaleiros, a níveis extraordinários. Construíamos empregando maquinários concebidos por nós mesmos, tanto na indústria da construção como na naval. Célebres eram nossos navegadores, ou melhor, nossos capitães de naves, descobridores de terras que até hoje carregam seus nomes. Os arsenais de Veneza e de Gênova, eram capazes de construir uma inteira frota de navios em poucos meses, usando a técnica de assemblagem da embarcação diretamente no local onde se cortava a madeira, ou seja, nas montanhas, onde se montavam as naves e de onde as desciam até o mar através de rios e canais. Infelizmente, éramos também os melhores fabricantes de armas de guerra, canhões e espingardas. Mas nosso nível mais alto era a arte de construir eclusas, para regular o escorrer das águas, instrumentos musicais, dos órgãos de 20 tubos às guitarras de 5 cordas. Recentemente, na China, foi encontrado um alaúde construído na Itália, no séc. XIV. E igualmente, éramos capazes de usar maravilhosamente aqueles instrumentos, eram compostas melodias líricas para serem cantadas, eram encenadas óperas bufas, trágicas, com numerosos intérpretes, seja cantores que músicos. Os estrangeiros também, que se inspiravam nas nossas óperas, costumavam cantar no nosso idioma, em italiano. Mas também os teatros eram construídos pelos nossos arquitetos. Espaços onde a acústica era perfeita podendo conter pontos e contrapontos executados por coros de 50 pessoas em conjunto. Viajando-se por países como a Rússia, a Irlanda, a Suécia, a Finlândia, não paramos de descobrir teatros e palácios construídos por mestres italianos, tanto que a Rainha Elizabeth da Inglaterra, a primeira, nos tempos de Shakespeare gritou, chateada: Chega com esses italianos! Parece que inventaram tudo eles.

Na verdade, estávamos mesmo exagerando, inventávamos poesias de amor, sátiras, éramos pintores. Só na cidade de Florença, o número de artistas nos ateliês era tão grande como o de toda a França. Dizem que os mercadores das Flandres, que vinham à Itália para vender seus tecidos, preferiam voltar não com dinheiro, mas com óleos sobre tela, enrolados em tubos. As moedas de ouro eram mais pesadas que as telas, e sobretudo, aqueles rolos segurados sob as axilas não chamavam a atenção dos ladrões, que não tinham ideia do que fosse a arte. Exatamente como hoje, os nossos administradores.

Mas como é possível? Como é possível? Remontar para essa época, a nossa idade de ouro e da dignidade? Como foi que aconteceu que tenha se desmoronado subitamente? Quem nos empurrou nesse abismo? Talvez a má sorte? Ou os melhores entre nós se foram para outros continentes? Ou houve uma metamorfose genética do nosso DNA? Assim, de mestres que éramos fomos transformados em charlatães, ou talvez tenha sido O IGNÓBIL CINISMO COM QUE ACEITAMOS, ou melhor, ACEITARAM NOSSOS GOVERNANTES de conviver com A PIOR CRIMINALIDADE ORGANIZADA DE TODO O PLANETA? A Máfia, a Camorra, a N’dranghetta, assistindo muitas vezes, indiferentes, ao sacrifício dos magistrados e representantes das forças da ordem que caíam sob as ordens daqueles criminosos, enquanto tentavam denunciá-los.

E A CHANTAGEM ORGANIZADA POR CERTOS APARATOS INDUSTRIAIS? Que com o escopo de obter lucros, deslocam para outros países, como se fossem peões da tômbola da morte, as empresas que nasceram aqui graças aos financiamentos estatais, ou seja, dos nossos contribuintes. Ou serão talvez aquelas outras indústrias, como a ILVA de Taranto, QUE LUCRAM COM O DESESPERO DOS OPERÁRIOS, os quais precisam ESCOLHER ENTRE MORRER DE FOME POR CAUSA DAS DEMISSÕES OU MORRER ENVENENADOS COM A POLUIÇÃO DAS DESCARGAS INDUSTRIAIS. E me pergunto: mas não há leis para impedir isso? Não há tribunais que possam MANDAR PARA A PRISÃO OS PATRÕES DESSA MÁQUINA DE MASSACRE?

Sim, que existem. Mas, ao mesmo tempo, há também os políticos. Que aceitam dinheiro em baixo do pano para convencer os trabalhadores a VOLTAR PARA A GAIOLA FINAL DA CHACINA.

Eis aí, finalmente encontramos o FULCRO do problema. Os políticos e a política. Como podem ser eleitos como representantes do povo aqueles que estão sendo investigados por fraude fiscal, fraude, conivência com o crime organizado, e nos matarmos para salvar um criminoso, um ofensor, onde leis como aquela contra o conflito de interesses estão bloqueadas há 20 anos. E fiquem sossegados, mesmo com o governo atual, nada vai acontecer.

Enquanto isso LEIS VERGONHOSAS permanecem intocáveis, pelas quais os SONEGADORES subtraem bilhões de euros de impostos, sem incorrer em qualquer tipo de sanção. E daí ficamos surpreendidos descobrindo que o maior partido da Itália, alcançando mais de 40% do consenso é aquele onde os eleitores se recusam de votar.

E nesse ponto gostaria de concluir. Lembrando de uma velha piadinha que a Franca [Franca Rame, esposa falecida do Dario] repetia sempre. E por falar da Franca, como gostaria que ela estivesse aqui nos escutando essa noite.

FRANCA!!!!

Eis a historinha que a Franca contava: numa farsa antiga, Arlequim estava na Lua, e de lá de cima olhava para a Terra, e apontando a Itália, disse: Mas como podemos salvar aquela massa de inconscientes que estão se destruindo sozinhos? E Brighella [outro personagem da Commedia dell’Arte] lhe respondeu: A única coisa seria DERRUBANDEAR a todos… O que quer dizer DERRUBANDEAR?

É preciso decidir-se a DERRUBAR TODO O BARRACO!

E que fique bem claro. Não basta tentar consertar colocando um remendo aqui, um parafuso ali, uma mão de cola e reencontrar confiança nas instituições.

NÃO!!!!! NESSE PONTO, A CONFIAÇA ESTÁ MORTA!!! JUNTO COM A ESPERANÇA E O OTIMISMO. Vocês a massacraram. É PRECISO
PUXAR A CORTINA!!! E ATRÁS, MUDAR DE CENÁRIO. COMPLETAMENTE.

Para limpar um salão onde ratos e baratas se assenhoraram, não basta chamar um bando de gatos para acabar com eles. Aquele tipo de RATOS, “honrosos”, são capazes de corromper até os GATOS.

A única solução é JOGAR NO LIXO aqueles que tomaram posse de todo o edifício, e depois pulverizá-los com extintores de incêndio. Aqueles que não conseguimos limpar devem ser jogados todos no lixo. SEM PIEDADE.

LEMBRANDO SEMPRE DE QUE NÓS SOMOS DEMOCRÁTICOS, MAS NÃO MODERADOS, POR DEUS!!!

mussolini-rothschild

 

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