>> “Sejam razoáveis, peçam o impossível” – adeus a Don Andrea Gallo



“Sejam razoáveis, peçam o impossível” – adeus a Don Andrea Gallo


Por: Mario S. Mieli, 23 de maio de 2013






É com muita emoção que relatamos a incrível coincidência ocorrida ontem…


Exatamente enquanto postávamos o primeiro “Arregaçando as Mangas” neste site, com o sub-título “Espiritualismo Dialético”, ilustrado com a grande força de vontade e poder inspiratório de Don Andrea Gallo, através de dois curtos vídeos que o retratam: no primeiro, ele cantando Bella Ciao com seus párocos e no segundo, entoando El Pueblo Unido, após missa em memória a Hugo Chávez com a comunidade venezuelana de Gênova, – ele estava falecendo.


Don Gallo, que viveu no Brasil nos anos 50 e falava bem o português, não era muito conhecido fora de Gênova e da Itália, e muitos passaram a saber dele através dos cantores e compositores Fabrizio de Andrè e Gino Paoli, dois grandes da música contemporânea italiana (também pouco conhecidos no Brasil). Era ele um incansável polêmico e “guastafeste” (estraga-festas), no bom e melhor sentido que essa expressão tem. Aquele INCLUSIVO. “Padre dos últimos, dos abandonados, dos perseguidos, dos pobres, dos excluídos, da anti-globalização”, com seu amor incondicional ao ser humano em toda a sua diversidade, justamente pela diversidade ser “o dom de Deus”, como afirmava veementemente. O “amor” pelo ser humano tem que ser absoluto e independente de qualquer papel ou condicionamento de identidade que o determinismo social impõe. Essa capacidade de emoção e razão o tornava renascimental. Costumava dizer: “Sejam razoáveis: peçam o impossível!”, fazendo sua a frase de outro padre, seu amigo Ernesto Balducci.


Para homenagear esta bela “coincidência”, este impulso de usá-lo ontem para ianugurar a série “Arregaçar as Mangas”, bem enquanto ele dispensava seu corpo físico, traduzimos este breve trecho de seu livro “Così in terra, come in cielo”… (Assim na terra como no céu…), que indica bem o quanto era admirado e admirável em sua essência.

Trecho traduzido de “Così in terra, come in cielo”… (Assim na terra como no céu…) de Don Andrea Gallo


“Certa vez, por ocasião de um tributo a Fabrizio de Andrè, de que participavam grandes nomes [da canção italiana, a cantora/produtora] Dori Ghezzi reservou 250 lugares para os amigos/párrocos do Padre. E ele foi ao teatro com seus amigos marginais e abandonados… O pessoal da organização do evento pretendia mandá-los para o pardieiro, confiná-los lá em cima, na última galeria, com a desculpa de que lá haveria mais espaço disponível para eles.
‘Não se preocupem, eu vou dar um jeito nisso’. Parei o tráfego da sala e como um guarda de trânsito fiz sentar na platéia três aqui, dois ali, tóxico-dependentes, hypposos, prostitutas, ao lado de notários, damas e políticos.
‘Não, ali não!’ me intimidaram. ‘Ali vai sentar a ministra da Cultura, Giovanna Melandri’. “Então vamos colocá-la ao lado de uma puta das velhas casas; você vai ver como ela ficará enriquecida com o encontro.’ Estavam todos muito preocupados, me pediam garantias sobre o que iria acontecer e eu os deixava ainda mais tensos, dizendo que não podia saber, sendo eu um padre e não um adivinho. Pelo contrário, eu sabia muito bem o que depois efetivamente aconteceu: os meus marginais foram aqueles que durante as canções choravam de verdade.”


Trecho no original italiano:


Durante un tributo a Fabrizio De Andrè, a cui parteciparono i big della canzone, Dori Ghezzi «riservò 250 posti per me, e io mi presentai a teatro coi miei derelitti. Qualcuno dell’organizzazione intendeva mandarli nel loggione, confinarli lassù, con la scusa che non c’era più spazio a disposizione.
“Non vi preoccupate” dissi “ci penso io.” Fermai il traffico della sala e come un vigile li feci sedere in platea, tre qui, due là, tossici, barboni, prostitute accanto a notai, dame e politici.?
“No, lì no” mi intimarono. “Lì ci va il ministro della Cultura Giovanna Melandri.”?
“Allora le mettiamo accanto una puttana delle vecchie case, vedrai come esce arricchita dall’incontro!”?Erano tutti molto preoccupati, mi chiedevano garanzie su ciò che sarebbe successo e io li tenevo sulle spine rispondendo che non potevo saperlo, essendo io un prete, non un indovino. Invece sapevo benissimo ciò che poi accadde: i miei emarginati erano quelli che durante le canzoni piangevano veramente.»?


Concluímos incluindo algumas canções dos compositores e cantores que Andrea Gallo mais amava, genoveses também, e que descreviam essa curiosa e estranha cidade, sobretudo seu sub-mundo, na parte mais velha, contornando o porto. A título de curiosidade, “Princesa”, no primeiro vídeo, era um transsexual brasileiro/a que morava em Gênova ao qual o De Andrè dedicou esta canção (capa de seu álbum “Anime Salve” – Almas Salvas), um dos famosos e tantos “marginais” que o Padre ajudou e abrigou em sua pobre paróquia de “San Benedetto al Porto”… na “Città Vecchia” (segunda canção anexa) de Gênova.


Fabrizio De Andrè – Princesa



Fabrizio de andrè città vecchia (non censurata)



Fabrizio De Andrè – Bocca di rosa



Gino Paoli – Il Cielo in una Stanza



La gatta Gino Paoli



Gino Paoli – Ti lascio una canzone (Lyrics)

 

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