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George Stoney, mestre-amigo da humanidade, findou sua estadia entre nós


Por: Mario S. Mieli
16 de julho de 2012





É curioso e maravilhoso o período em que, numa cidade, concentram-se tantas mentes geniais, mestres generosos, criativos, divertidos. Muitas vezes, passam quase despercebidos fisicamente, pela sua modéstia e humildade, pela sua acessibilidade e disponibilidade.

Embora na realidade sejam os únicos a merecer a distinção de “celebridades”, rejeitam sabiamente esse consumístico papel, não abandonando jamais a interação espontânea e direta com as pessoas e os ambientes de que fazem parte e a vocação autêntica de mostrar, pela sua prática de inclusão, que somos todos iguais e merecedores de atenção e respeito. Que a genialidade pode despontar de qualquer humano, de qualquer aluno, de qualquer tipo de gente. Basta estimulá-la, incentivá-la, acolhê-la.

Muitos desses mestres eram extremamente magros, como se quisessem mostrar, com a silhueta de seus corpos delgados, não querer ocupar mais espaço que o estritamente necessário. E essa magreza faz parecer que flutuem no espaço, livres e desprendidos de qualquer tabu, de qualquer dogma, de qualquer doutrinação.

Nova York foi um desses centros em que, sobretudo a partir dos anos 60 se aglomeraram tais mestres – alguns contemporaneamente, outros quase. Duchamp, John Cage, Nam June Paik, Edward Said, Howard Zinn, George Stoney foram alguns desses mais representativos mestres. Era muito comum encontrá-los nas ruas, nos concertos de amigos, nos eventos mais diversos, discretos mas sempre atentos e educados, ocupados mas sempre acessíveis e disponíveis, cientes de seu valor, mas sempre prontos a se questionarem e a exercerem sua capacidade de ouvir, ouvir, ouvir e interagir com respeito e dedicação, com interesse pelos assuntos levantados, com amor . Ouviam seus alunos, seus amigos, seus conhecidos e até desconhecidos. Afinal, eles eram os mestres de todos, a qualquer momento, lugar e circunstância. E a maestria deles era, em primeiro lugar, nunca parar de aprender, nunca entronarem o rei na própria barriga, nunca terem medo de se expor e colocar em questão suas ideias mais profundas, sempre demonstrando magnanimidade com o próprio tempo, bondade em seus sorrisos, humanidade em suas posições, franqueza em suas respostas, altruísmo e desprendimento em suas orientações, nobreza em suas intenções.


John Cage, subindo e descendo pela Sexta Avenida em Chelsea com seu saquinho de legumes, Nam Jun Paik, percorrendo antenado as ruas do Soho em busca de implementos elétricos, Edward Said, cortês e cavalheiro atravessando as ruas do Upper West Side para alcançar a Columbia University, George Stoney, presença reconfortante do Village, onde morava e ensinava, mais precisamente na New York University, e onde podia ser visto várias vezes por dia, dirigindo-se às aulas, às reuniões com alunos ou voltando para casa.

Há tempo com idade bem avançada mas eternamente jovial, circunspecto mas extremamente amável, prudente mas constantemente gentil, de semblante sério e meditativo mas sempre à beira de um sorriso afável, percorrer a rua 8 era quase ter-se certeza de se deparar com o mestre passando em seus jeans, suas camisas xadrez e seu boné. Reconhecer seu delgado vulto era a certeza de que se estava em território familiar, inclusivo e receptivo a ideias, conceitos, formulações. Era como encontrar um querido tio-avó muito especial e informal, pioneiro em tantíssimas coisas – educação, cinema, documentário, além de pai fundador da televisão pública, ou “public access television” e tudo o que isso significa em termos de batalhas: empenho social, educacional e cultural, mas sobretudo, um grande mestre-amigo da humanidade, o que é cada vez mais precioso e raro.

George Stoney nos deixou dia 12 de julho passado aos 96 anos, e ficamos todos muito mais e muito menos, ao mesmo tempo, com seu desaparecimento. Mais por todos os aprendizados que compartilhou, as lutas em que se comprometeu, os modelos que defendeu, as vitórias que alcançou. Menos, obviamente, pela sua ausência material, a partir de agora.


O Village, a Big Apple e todos nós, perdemos mais um dos “imperdíveis”. Que seu exemplo e ensinamentos de vida nos inspirem, nos motivem, nos permitam prosseguir na luta. Mais que nunca. Mas com a mesma amabilidade. A mesma deferência. A mesma delicadeza de alma.

Obrigado por tudo, George! Com carinho.

Clip de filme onde George Stoney entrevista Paulo Freire:
PAULO FREIRE IN ACTION (Paulo Freire em Ação – em inglês e português)


George Stoney-A life in Film (Uma vida em filme – em inglês)


Reflexões sobre seus documentários e filmes:

Watch Filmmaker Interview: George Stoney (2012) on PBS. See more from POV.



Local Public Access TV Under Attack From Trio of Congressional Bills (O ataque à televisão pública – Democracy Now – 30 de setembro de 2005)

 

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