>> No Aquário do Facebook: a resistível ascensão do Anarcocapitalismo – e-book do grupo Ippolita e crítica de Carlo Formenti

No Aquário do Facebook: a resistível ascensão do Anarcocapitalismo – e-book do grupo Ippolita e crítica de Carlo Formenti





Fonte/Apresentação do livro em italiano:
http://www.ippolita.net/it/nellacquario-di-facebook
Para ler o livro online (em italiano):
http://www.ippolita.net/it/libro/nellacquario-di-facebook-online


Tradução da apresentação do livro:


Facebook está prestes a ter um bilhão de usuários. Trata-se de uma extraordinário dispositivo capaz de lucrar com cada movimento realizado em sua plataforma. Na ilusão de nos entreter ou de promover nossos projetos, em vez disso trabalhamos para a expansão de um novo tipo de mercado: o comércio relacional. No aquário de Facebook somos todos seguidores da Transparência Radical: um conjunto de práticas narcisistas e pornografia emocional. Nos submetemos de maneira voluntária a um imenso experimento social, econômico, cultural e técnico. O anarcocapitalismo dos “right libertarians” californianos é o fio condutor que nos permite interligar Facebook aos Partidos Piratas europeus, a Wikileaks. Os algoritmos usados para a publicidade personalizada pelos gigantes da perfilização online, os novos patrões digitais (Facebook, Apple, Google, Amazon) são os mesmos utilizados pelos governos despóticos para a repressão personalizada. Em nome da liberdade de lucro. Tranquilos, sem nenhum complô: é só o Faroeste Digital.


IPPOLITA é um coletivo de escritura convivial. Livros e software coypleft: http://ippolita.net





No aquário do Facebook – crítica de Carlo Formenti


Fonte: alfapiù de 16 de maio de 2012
Tradução: Mario S. Mieli



Anarcocapitalismo: essa definição de sabor vagamente oximórico já entrou no léxico corrente daqueles que tratam de economia da Rede. Anarcocapitalista é como se autodefine um dos mais conhecidos gurus da Net Economy, Yochai Benkler, que associa ao termo um mix de motivações não econômicas relacionadas à produção (a economia de doação das comunidades open source e dos redatores de Wikipedia), antiestatismo e laissez-faire como veículos de uma (imaginária) revanche de start up e inovadores tecnológicos em confronto com os monopólios hi-tech. Quem também não se ofenderia de ser chamado assim são autores como Kevin Kelly, Don Tapscott, Clay Shirky e tantos outros apologistas da “revolução” 2.0. Capitalistas porque nem de longe sonham em colocar em discussão as “leis” do livre mercado (com relação ao qual, de seu ponto de vista, finalmente,puderam encontrar uma atuação e exercitar seus efeitos benéficos graças à Rede, reino da liberdade em que cada transação ocorre em condições de absoluta paridade e transparência cognitiva, oferecendo a todos as mesmas oportunidades e, portanto, premiando os mais merecedores). Anárquicos porque defensores de um “individualismo metodológico” segundo o qual os verdadeiros sujeitos da história são os indivíduos em si, a quem deve ser garantida a mais total liberdade de agir, comunicar, informar-se e viver ‘iuxta propria principia’, protegidos das indevidas ingerências do poder político.


Mas à força de ouvir essa litania, acabou que os “verdadeiros” anárquicos ficaram putos e decidiram colocar os pontos nos “is”. É esse o sentido que tem um panfleto titulado “No aquário do Facebook”, que acaba de ser publicado em versão e-book (pode ser adquirido ou lido gratuitamente) pelo grupo Ippolita (os mesmos que há alguns anos publicaram “Luzes e sombras do Google”). Quem acabou sob as frechadas da crítica dessa pontual e argumentada denúncia não são, porém, somente os ‘libertarianos’ (preferem chamá-los assim para evitar qualquer confusão com a velha, gloriosa “marca” libertário) de direita, mas também aqueles “de esquerda”. Aqueles do Ippolita se perguntam se existe mesmo uma diferença entre os cyber utopistas de direita e os cyber utopistas de esquerda. O único mérito que se poderia reconhecer aos segundos – respondem – consiste na sincera vontade de contrastar os “poderes fortes” dos Estados e Corporações com seus esforços para transformar consumidores e cidadãos da Rede em súditos. Quanto ao resto, tantos uns como outros estão unidos pela mesma perniciosa ideologia pela qual, ao presentear a liberdade ao mundo, derrubar regimes autoritários e frustrando os planos de governos só nominalmente democráticos, seria suficiente o puro e simples difundir-se das possibilidades de se aceder à Rede.


Uma vez colocados em condição de se conectar e de interagir livremente, os “netizens” (cidadãos da net) saberão como se emancipar de cada vínculo estabelecido em níveis superiores. Pena que esses instrumentos supostamente neutros (o trabalho concentra a atenção no Facebook, como o título testemunha, mas estão incluídos todos os outros ícones da New Economy, de Google a Apple) sejam os detentores de um poderoso ‘default power’, ou seja, a possibilidade de decidir, na ausência de qualquer vínculo e controle, aquilo que podem ou não podem fazer seus súditos-usuários. A culpa dos falsos cyber anárquicos, todavia, não é só aquela de ignorar essa verdade (cujo propósito o velho McLuhan já tinha compreendido, com o seu demasiadamente citado mas raramente lido “o meio é a mensagem”), é também e sobretudo ter escolhido modalidades de ação e organização política que pouco tem a ver com os valores da tradição anárquica: os vários Wikileaks, Anonymous e outros hackerandos são forçados a se camuflar (de um modo não muito diferente ao das formações terroristas de alguns anos atrás) de segredos, e a agir na sombra e fora de qualquer relação real de troca com o movimento (e também fora de qualquer controle), e, frequentemente, adotam estruturas hierárquicas que se parecem, de um modo inquietante, com aquelas dos inimigos, – argumenta o grupo Ippolita.





Subscrevo. Por outro lado concordo menos com certas conclusões (de resto, muito clássicas, se consideradas do ponto de vista da tradição anárquica), segundo as quais o único modo correto de lutar contra o poder consistiria em praticar o êxodo de pequenas comunidades conviviais, onde a todos seja consentido fazer valer o próprio ponto de vista, porque cada veleidade de choque frontal – massas contra massas – seria fatalmente destinada a degenerar em prática mimética. Mas, se as coisas fossem realmente assim, a sobrevivência do capital seria garantida por toda a eternidade.

 

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